Os últimos dias de Ana Bolena [Parte VIII]

Anne Boleyn, feita por Rick Davidson.Foi necessário apenas um golpe de espada do carrasco para cortar o seu pescoço delicado de Ana Bolena, o mesmo pescoço que o poeta Thomas Wyatt outrora elogiou em um de seus versos de admiração.  Uma das damas de companhia cobriu sua cabeça com um pano branco e as outras ajudaram a cuidar do corpo. Os dois foram levados pelos 20 metros até a capela de St. Paul ad Vincula. Ali, a mulher que caíra em desgraça foi enterrada em silêncio.

Ás nove horas da manhã, na hora de sua execução, uma bala de canhão explodiu. Londres nunca a reconhecera como Rainha. Três anos antes, as salvas que a saudaram da Torre não tinham despertado nenhum júbilo popular. Ela destituíra a Rainha legítima. Mas a sua queda tão vertiginosa, essa passagem tão trágica do orgulho à vergonha, tinham feito correr um calafrio nas veias de todos. A princípio sua humilhação fora recebida com alegria, mas Londres, que atribuía todas as culpas a Ana Bolena, começava agora a murmurar uma nova opinião sobre ela;  as mulheres apiedavam-se daquela mãe que deixara uma menina de três anos, e os homens deveriam sentir horror e terror daquele poder inabalável que a abatera. Ainda que ela tivesse se entregado aos seus fidalgos, ao seu dançarino, ao mais velho e silencioso cavaleiro que nada confessara, era, entretanto, um terrível fim para o seu orgulhoso esplendor; a sua luta terminara e o seu quinhão fora a morte.

O rei, indiferente ao infortúnio de sua segunda esposa, saiu com sua barca no rio Tâmisa pra visitar sua nova amante, Jane Seymour.

É curioso notar que os custos da casa de Henrique VIII correspondentes ao dia 19 de maio são inferiores a qualquer outro dia daquele ano, o que nos faz supor oque teria acontecido. Que sentimentos afloraram em Henrique? Remorso ou libertação?

Cromwell tinha feito uma jogada de mestre, com um só golpe havia eliminado uma facção inteira, e foram muitos os afetados pela tragédia. A pequena Elizabeth, que ainda não tinha três anos de idade, estava em Hunsdon quando sua mãe foi morta, e lá permaneceu sob os cuidados de Lady Bryan. A governanta de Elizabeth, depois de um tempo, teve que começar a suplicar dinheiro para Cromwell para que ela pudesse comprar roupas para a menina.

Thomas Bolena, Conde de Wiltshire e pai de Ana e George, teve o seu título de Senhor do Selo Privado retirado imediatamente, assim como todas as suas terras na Irlanda. Mas logo ele voltaria a desfrutar do favor real. Ele esteve no batismo de Eduardo VI, em outubro de 1537. Após a morte de Elizabeth, sua esposa, em abril de 1538, até se falou da possibilidade de que ele se casasse com Margaret Douglas, sobrinha de Henrique VIII e filha de Margareth da Escócia. Quando ele morreu, em março de 1539, o rei ordenou que missas fossem feitas para sua alma. Ele foi enterrado na Igreja de Hever, e uma placa de metal indica o local de seu repouso final.

Lady Jane Bolena (Parker), esposa do irmão de Ana, Lorde Rochford, retirou-se da corte depois da execução de seu marido. Como a Coroa confiscou as propriedades de seu marido, Lady Rochford se viu na necessidade de pedi ajuda financeira para Cromwell, em uma carta que afirma ser ‘uma poderosa e desolada viúva’.Seu pagamento vitalício deixou de ser pago depois da morte de seu sogro.

Pouco depois da execução de Ana, Cromwell libertou o poeta Thomas Wyatt e Richard Page. O rei havia permitido a volta de ambos para a corte, mas Page decidiu que era mais seguro ficar longe de lá. Wyatt, chocado pelos acontecimentos, retornou ao castelo de seu pai em Allington, Kent, e ficou lá por algum tempo.

Thomas Howard, Duque de Norfolk e tio de Ana, que presidiu o julgamento e seus sobrinhos, manteve seu posto de Tesoureiro, mas na época foi mais plausível que ele se retirasse para sua residência em Kenninghall até que tudo ficasse mais calmo. Sua ausência na corte favoreceu os Seymour a ascenderem em seu poder político, o que daria início a uma rivalidade sem fim entre eles e os Howard.

Henrique VIII e Jane Seymour tiveram seu contrato de casamento em Hampton Court, no início da manhã de 20 de maio, 24 horas depois da execução de Ana Bolena. Para não causar uma imagem ruim, Jane permaneceu por dez dias em Chelsea, e no dia 30 dirigiu-se para Hampton Court, onde se casou com o rei no Gabinete da Rainha.

Milhares de pessoas do povo tinham tomado parte no drama: poucos previlegiados a tinham visto desembarcar na Torre; centenas tinham assistido ao julgamento, onde firme e calma no meio dos inimigos que eram seus juízes, ela escutara de pé a sua condenação; centenas tinham-se comprimido por detrás dos guardas, quando os cinco homens, pálidos nas suas camisas de linho branco, tinham sido levados à morte, e a população podia repetir o que fora dito no cadafalso, tendo as palavras caído como areia no leve silêncio da manhã. Com os olhos enevoados, o povo tinha visto o algoz golpear as vítimas, enquanto as suas palavras ainda flutuavam no ar e as suas faces conservavam a cor da vida. Em muitas cozinhas, grupos compactos apertavam-se em volta de homens que tinham assistido o suplício de Ana e podiam narrar como ela se portara, qual fora sua expressão, o que dissera, como rezara e como carrasco brandiu sua espada.

Ana Bolena, com 35 ou 36 anos de idade à época de sua morte, fora rainha durante quase três anos e meio, mas haviam se passado apenas quatro meses da morte da primeira esposa do rei. Como que numa previsão da execução da usurpadora, dizem que as velas de cera que cercavam o túmulo da rainha Catarina na Catedral de Peterborough ‘acenderam-se sozinhas’ nas matinas do dia anterior; igualmente de forma misteriosa, elas foram ‘extinguidas’ sem a ajuda humana. Em outras partes do país, no entanto, pessoas juravam ter visto lebres correndo – a lebre, o símbolo da feiticeira.

Ana Bolena, feita por Rex Woods em junho de 1932.A personalidade de Ana Bolena ainda permanece um enigma, mas chega a nós vislumbres de seu caráter: era religiosa mas um pouco agressiva, calculadora mas emocional, com um ligeiro toque de cortesã que possuía a determinação e foça de um político. Uma senhora por direito próprio, seguindo seu propósito em um mundo liderado por homens, uma mulher que mobilizou sua educação, seu estilo e sua presença apesar das desvantagens de seu sexo, que foi capaz de tomar ante uma corte o prêmio mais impensável: o coração de um rei. Desde o nascimento de Elizabeth, o rei gradualmente começou a perder o interesse por Ana, mas não ficou menos fascinado por sua natureza passional e temperamental. A paixão de Henrique por Jane Seymour acelerou o julgamento contra ela, e a falta de uma criança do sexo masculino foi o gatilho para o começo de sua desgraça. Isso, juntamente com as artimanhas de Cromwell, baseadas em testemunhos ambíguos e falsos, foram a causa de sua queda vertiginosa.

Bibliografia:
HACKETT, Francis. Henrique VIII. Tradução de Carlos Domingues. São Paulo: Pongetti, 1950.
JOSÉ, Caroline Barrio. ‘Los últimos días de Ana Bolena – 15ª Parte‘. Acesso em 22 de Maio de 2013.

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14 comentários sobre “Os últimos dias de Ana Bolena [Parte VIII]

  1. obrigado por todas as postagens. Foi maravilhoso ter acesso a cada parte da historia de Ana Bolena.

  2. Leio Boullan todos os dias,já é atalho no meu celular, rss. Obrigada por esse Acervo. ^_^

  3. Também leio o Boullan todos os dias, tá na minha barra de favoritos e é um dos sites que eu não posso deixar de abrir. Vocês tem um trabalho esplêndido!

  4. Olhos “enevoados”? É um tanto controverso, Ana não era admirada pelo povo, ao contrário, a fama de prostituta, bruxa, maquiavélica que se mantém ainda hoje é um forte indicio de que ela não era bem vista, o que me leva a crer que eram mais numerosas as pessoas que não gostavam dela do que as que gostavam, não creio que a o povo se comoveu com o sofrimento dela, até por que as execuções eram meio que vistas como “entretenimento” por algumas pessoa da época, ainda tinha o agravante do adultério e incesto (não que eu acredite ser verdade), ela pode ter chegado a um posto máximo da nobreza ela ainda era uma mulher, e a simples suspeita de uma traição cometida por uma mulher,(ao contrario dos homens, o rei Henrique é a personificação desta afirmação) era considerado um ato imperdoável para a época. Seja por falso moralismo, hipocrisia ou pura puxação de saco acho difícil várias pessoas se atreverem a demonstrar publicamente “tocadas” pelo sofrimento dela, até por que isso significava ir contra a “moral e os bons costumes” e a dor de corno do rei. Quanto ao fim que ela teve foi um tanto engraçado ela foi deposta e decapitada (mórbido não?), pela mesma desculpa que serviu para que ela arquiteta-se a deposição da rainha Catarina e sua ascensão ao trono, a incapacidade de gerar homens. Coincidência? Destino? Castigo divino? Uma pena para rainha Catarina e para Ana que naquela época ainda não se sabia que a culpa da falta de “varões” era do Henrique…

    • Ana poderia não ser admirada pelo povo, mas na minha opinião muitos sentiram sua morte – talvez não por gostar dela, mas por terem visto que nem mesmo uma rainha poderia escapar de ser executada, caso o rei assim desejasse.

  5. Até hj não consigo definir a personalidade desse homem… Se ele era como o Thomas do filme “A outra” ou como o Thomas de The Tudors”

    • Fico contente! Na nossa página do Facebook, você também tem acesso a algumas trivialidades (como curiosidades) e fotografias que eu não costumo postar aqui!

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