O trágico fim de Margaret Pole, Condessa de Salisbury

Mulher desconhecida, provavelmente Margaret Pole. Artista desconhecido, c. 1535.Margaret nasceu em 1473, filha de George de Clarence, irmão mais novo do rei Eduardo IV e Isabella Neville. Sua infância foi marcada pela tragédia: em 1476, sua mãe morreu no parto e em 1478 o rei Eduardo ordenou a execução de seu próprio irmão, o pai de Margaret, por traição.

Quando Henrique Tudor derrotou o rei Ricardo III, ele então se casou com a prima de Margaret, Elizabeth de York, e trancou seu irmão Warwick na Torre, e lá ele permaneceu por quase 15 anos até sua execução por traição.


Margaret sobreviveu a Guerra das Rosas e se casou com Sir Richard Pole, primo do rei, em 1494. Sir Richard serviu Henrique VII muito bem e foi recompensado com altos cargos na corte e no País de Gales. Margaret e Richard tiveram cinco filhos: quatro meninos (Henry, Arthur, Reginald e Geoffrey) e uma menina (Ursula), antes da morte de Richard em 1505.

Quando Henrique VIII subiu ao trono, Margaret temeu por seu sangue real, mas Henrique acreditava que ela fosse leal e a chamava de ‘a mulher mais santa na Inglaterra’. Em 1513, o rei a fez Condessa de Salisbury, e pagou para que seu filho, Reginald, pudesse frequentar a Universidade de Oxford.

Apesar de sua descendência Plantageneta, Margaret sempre foi leal aos Tudor e tinha sido uma favorita de Catarina de Aragão, o que mostra a extensão da capacidade do perdão de Margaret, uma vez que os pais de Catarina insistiram na execução do seu irmão, Eduardo, a fim de livrar a Inglaterra dos pretendentes rivais ao trono antes de enviarem sua filha. Nos primeiros anos de reinado, Margaret tinha sido tão leal que ninguém levantou objeção quando esta se tornou a governanta da princesa Maria.

As coisas começaram a complicar para Margaret quando Henrique VIII tornou seus sentimentos por Ana Bolena públicos. Margaret ficou do lado de Catarina, e mostrou muita bondade para com a Princesa Maria. Embora fosse opositora ao casamento Bolena por razões pessoais, a oposição da Condessa nunca foi considerada traição para o rei.

Reginald Pole, por artista desconhecido, c. 1585–1596.Margaret só caiu em desgraça quando durante o reinado da rainha Ana Bolena seu filho, Reginald escreveu um livro (na segurança do seu exílio na Itália) chamado Pro ecclesiasticae unitatis defensione, denunciando as políticas do rei Henrique e dizendo exatamente o que ele pensava do casamento do rei com Ana. O rei ficou profundamente ofendido e ultrajado – aos olhos de Henrique, era traição.

Margaret fez de tudo para evitar a ira do rei. Ela escreveu uma carta para Reginald condenando suas ações e dizendo que ela desejava nunca ter dado a luz a um traidor.

Em 1538, o filho de Margaret, Geoffrey, foi enviado para a Torre por ajudar seu irmão exilado. Mais tarde, Henry Pole também foi preso junto com seu primo, o Marquês de Exeter. Ambos foram executados. Geoffrey, que tinha sido forçado a testemunhar contra seu irmão, supostamente tentou cometer suicídio.

Idosa Margaret poderia ser, mas não frágil. Ela suportou longos e incansáveis interrogatórios, às vezes o dia inteiro, e no entanto, seus interrogadores viram-se obrigados a informar que ela ‘protestava inocência’. Eles pretendiam prestar a ela o cumprimento máximo certa vez dirigido a Catarina de Aragão em uma situação igualmente desesperadora: ‘podemos dizer que ela é um homem forte e constante, e não uma mulher’. Por enquanto, a Condessa foi mantida em prisão domiciliar.

Ali estava uma mulher que o rei, durante muito tempo, reverenciara por sua piedade e sua decência, que tinha sido para ele, ao longo dos anos, quase como uma figura materna, que caminhara pelos emaranhados labirintos reais sem tropeçar. Seu verdadeiro crime foi, é claro, o de ser mãe de um homem que ficara ao lado do papa e que estava fora do alcance da vingança do rei.

Henrique temia que Margaret pudesse se tornar o foco de uma revolta e em maio de 1539, Margaret foi presa, assim como seu pai. Isto significava que ela perderia seus títulos e terras para o governo – principalmente as no sul da Inglaterra, convenientemente localizadas.

A contagem regressiva para a execução da idosa Margaret começou na Páscoa de 1541, embora ela tivesse sido mantida na Torre por algum tempo, graças à quantidade inconveniente de sangue real correndo em suas veias. Na Páscoa, circularam rumores de que a quinta rainha de Henrique, Catarina Howard, pudesse estar grávida, e ao mesmo tempo, chegou em Londres a notícia de que estava ocorrendo uma pequena rebelião pró-papal no norte. Um dos líderes da rebelião era um primo distante da família Neville, a família materna de Margaret, e quando Henrique descobriu isso, ficou furioso.

Quadro póstumo de Catarina Howard. Artista desconhecido.A rainha Catarina Howard teve pena do destino de Margaret, e quando ouviu que a Condessa não tinha mais roupas adequadas para se proteger do frio, ficou muito angustiada e mandou um dos seus alfaiates pessoais para Margaret e ordenou um novo guarda-roupa inteiro para a Condessa, que foi entregue à Torre dentro de dias. Os presentes de Catarina para a senhora incluíam um gorro, uma saia feita de pele, duas camisolas (uma forrada de pele e outra de cetim), um túnica quente, quatro pares de sapato, quatro pares de meia e um par de chinelos.

A generosidade da nova rainha para a Condessa aliviou a dor física de seus últimos meses, mas não poderia salvá-la na ira irracional do rei. Apesar do fato que Margaret tinha tanto a ver com a revolta no norte quanto Jane Grey teve a ver com a Rebelião de Wyatt em 1554, Henrique ordenou a execução imediata da senhora, sem a possibilidade de julgamento ou perdão.

No início da manhã de 27 de maio de 1541, o Condestável da Torre acordou Margaret de seu sono e lhe disse que era deveria morrer em poucas horas. Ingenuamente, a Condessa respondeu que nenhum crime poderia ser provado contra ela. Ela não percebeu que isso já não importava na Inglaterra.

Quando foi levada para o cadafalso algumas horas mais tarde, uma pequena multidão se reuniu. Tal como aconteceu na execução de Ana Bolena cinco anos antes, o governo quis limitar o número de pessoas para o que eles sabiam que seria um espetáculo edificante. Sem dúvida, foi por isso que eles tomaram a decisão sem precedentes de executar a Condessa sem aviso prévio.

Uma história que tem sido contada muitas vezes é que Margaret disse para o carrasco que ela não iria colocar sua cabeça sobre o bloco, e que se ele quisesse golpear o seu corpo, então teria que golpeá-la ali mesmo, de pé. Após os guardas obrigaram-na a colocar a cabeça no bloco, e o machado, ao invés de atingir seu pescoço, atingiu seu ombro, e Lady Pole saiu correndo e gritando ao redor do cadafalso. Com o sangue escorrendo, o carrasco a perseguiu, bradando descontroladamente o seu machado, e eventualmente matando-a depois de onze golpes. Esta história, entretanto, pouco tem de verdade.

Na verdade, Margaret, com seus 68 anos, caminhou bravamente para a morte, encomendou sua alma a Deus, e pediu para que todos os presentes rezassem para o rei, a rainha, o Príncipe Eduardo e sua afilhada, Maria. Como ordenada, ela deitou a cabeça sobre o bloco, e não saiu correndo após o primeiro golpe.

Sua morte, entretanto, é tão horrível quando a história que tem sido repetida: um carrasco novato foi contratado para executar a Condessa, e este entrou em pânico, fazendo da execução um evento horrível: ele só conseguiu matar Margaret depois de dez ou onze golpes. Ele cortou seu pescoço, ombros e cabeças várias vezes, fazendo-os em pedaços.

Reginald, relatando a horrenda notícia a um correspondente, exclamou que ‘nunca teria medo de se considerar filho de uma mártir‘. E acrescentou: ‘o que vale mais do que qualquer nascimento em família real’. Mas é claro que fora devido ao seu nascimento em uma família de sangue real que Margaret acabou executada, assim como seu pai, quando era criança, e assim como o irmão, quando era moça.

Henrique VIII por Hans Holbein, o Jovem, em 1542.A notícia de sua morte cruel chocou a corte Tudor, mas Henrique não demonstrou nenhum remorso. Ela foi enterrada na Capela de São Pedro ad Vincula, e não no túmulo que ela havia construído para si mesma em Christchurch Priory, Dorset.

No reinado de Maria I, Reginald seria convidado a voltar do exílio, tornando-se Arcebispo. Sua filha, Ursula Stafford, viveu até uma idade avançada e sua filha Dorothy tornou-se uma amiga próxima de Elizabeth I. Em 1886, em reconhecimento a sua fé católica e morte injusta, Margaret foi beatificada pelo Papa Leão XIII e tornou-se santa. Sua festa é celebrada no dia de depois de sua execução, dia 28 de maio, pois o dia 27  é o dia de Santo Agostinho da Cantuária.

Bibliografia:
Lady Margaret Pole Execution‘. Acesso em 21 de Janeiro de 2013.
The Execution of Margaret Pole, Countess of Salisbury‘. Acesso em 21 de Janeiro de 2013.
Margaret Pole, Countess of Salisbury‘. Acesso em 21 de Janeiro de 2013.
Margaret Pole, Countess of Salisbury‘. Acesso em 21 de Janeiro de 2013.
FRASER, Antonia. As Seis Mulheres de Henrique VIII. Tradução de Luiz Carlos Do Nascimento E Silva. 2ª edição. Rio de Janeiro: BestBolso, 2010.

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5 comentários sobre “O trágico fim de Margaret Pole, Condessa de Salisbury

  1. Nossa, que horror, nessas horas tu vê o quanto o rei Henrique VIII era um monstro…. matou Ana Bolena e quantos outros inocentes mais?! Nem a Bloody Mary, nem a rainha Elizabeth chegam perto do ditador que ele foi…

  2. O incrível é que sua paranoia e agressividade, que alguns historiadores defendem que piorou após o combate em que foi atingido na cabeça e quase morreu, criou a base para o futuro Império Britânico.

  3. Tempos muito dificeis estes, quando um monarca sentia seu trono ameaçado, nao existia duvida, era sempre resolvida esta ameaça com a cabeça de quem por ventura deixasse qualquer rastro. E principalmente Henrique Vlll, que tinha poucas garantia na sua historia dinastica, os Tudors tinham um fragilidade nesta questao…..

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