O sangue do Rei

A incompatibilidade sanguínea entre Henrique VIII e suas seis esposas poderia ter levado ao problema reprodutivo do rei Tudor e uma condição genética relacionada com um grupo sanguíneo também poderia explicar as transformações mentais e físicas do rei tirano que executou duas de suas mulheres.

A pesquisa conduzida pela bioarqueologista Catrina Banks Whitley enquanto ela era uma estudante de graduação na SMU (Southern Methodist University) e a antropóloga Kyra Kranmer mostra que os abortos sofridos pelas numerosas esposas de Henrique podem ser explicados se o sangue do rei carregava o antígeno Kell.

Quando um homem Kell positivo engravida uma mulher Kell negativo, existe uma possibilidade de 50% de provocar uma resposta imunitária no corpo da mulher que atacará o feto em desenvolvimento. Um pouco do sangue do bebê inevitavelmente entrará no corpo da mãe – seja durante o desenvolvimento ou durante o nascimento – levando-a a produzir anticorpos contra o antígeno Kell do bebê. A criança da primeira gestação pode nascer saudável, mas os anticorpos que ela produzirá durante a primeira gestação irão atravessar a placenta e atacar um feto Kell positivo nas próximas gestações.

Como resultado, nas próximas gestações os bebês podem sofrer de fluído extras em seus tecidos, anemia, icterícia, baço dilatado ou insuficiência cardíaca, levando a um aborto entre 24 e 28 semanas de gravidez.

Henrique VIII - 1520 x 1540Conforme publicado em ‘The History Journal’ (Cambridge University Press), o padrão de incompatibilidade do grupo Kell é consistente com as gestações das primeiras duas mulheres de Henrique, Catarina de Aragão e Ana Bolena. Além do tipo problemático do sangue de Henrique, as pesquisadoras propõe que ele também tinha uma desordem genética rara chamada Síndrome de McLeod. Levada no cromossomo X, essa condição médica que pode ocorrer em membros do grupo sanguíneo Kell positivo. A doença finalmente daria uma explicação para sua mudança, tanto na forma física quanto na mental, onde ele foi de um forte, atlético e generoso indivíduo nos seus primeiros 40 anos para um monstro paranóico, praticamente imobilizado pelo ganho de peso e as úlceras nas pernas.

Henrique se casou com seis mulheres, duas das quais ele executou, e quebrou os laços da Inglaterra com a Igrejas Católica – tudo em busca de uma união conjugal que produzisse um herdeiro masculino. Os historiadores têm debatido por muito tempo teorias sobre doenças e lesões que poderiam explicar a deterioração física e comportamental que o rei começou a exibir depois de seu 40º aniversário. Menos atenção tem sido dada às gestações mal sucedidas de suas esposas em uma época de cuidados médicos primitivos, má nutrição e pouca higiene. As autoras Whitley e Kramer argumentam contra a teoria persistente que a sífilis pode ter sido um dos fatores.

Um pai Kell positivo frequentemente é a causa por trás da incapacidade de sua parceira de ter um bebê saudável após a primeira gravidez Kell negativa, o que, segundo os autores, é precisamente a circunstancia experimente com as mulheres que tiveram múltiplas gestações de Henrique. A maioria dos indivíduos dentro do grupo sanguíneo Kell são negativo, e por isso é raro que um pai Kell positivo crie problemas reprodutivos.

O maior apoio à teoria Kell são as descrições de Henrique após os 40 anos, que indicam que ele sofreu de muitos problemas físicos e cognitivos associados com a Síndrome de McLeod.

The Wonderful Story of Britain: King Henry's Last Three WivesO rei começou a sofrer de úlceras na perna, alimentando as especulações de longa data que ele sofria de diabete tipo II. Há sempre a possibilidade da sua condição de obesidade mórbida ter sido desenvolvida pela diabete. No entanto, a diabete não explicaria as alterações de personalidade, uma vez que só resulta em sede excessiva, baixa contagem de esperma, disfunção erétil, fadiga, visão turva, coceira e formigamento nas extremidades. Em referência aos problemas reprodutivos, a diabete está associada a baixa contagem de espermatozóide e disfunção erétil. Isso poderia resultar em uma incapacidade de conseguir engravidar uma mulher, mas não causaria tantos abortos tardios e natimortos.

Catarina e Ana tiveram numerosas gestações e todas eram do Rei. Isso não é consistente com problemas associados a diabete tipo II. Se Henrique não desenvolvesse diabete tipo II, poderia explicar a ausência total de gravidez em sua quarta esposa (se consumado), quinta e sexta, pois nenhuma possui gestações registradas enquanto casada com o Rei.

As úlceras também podem ter sido causados por osteomielite, uma infecção óssea que teria feito a ação de andar ser extremamente dolorosa. Nos últimos anos de sua vida, a mobilidade de Henrique se deteriorou a t al ponto que ele era carregado em uma cadeira com rodas. A imobilidade consiste com um caso de Síndrome de McLeod, no qual o paciente começou a notar uma fraqueza na sua perna direita quando ele tinha 37, e começou a sofrer de atrofia em ambas as pernas com a idade de 47.

Whitley e Kranmer argumentam que o rei Tudor poderia ter sido vítima de condições médicas, como essas, combinando com Síndrome de McLeod e agravada por sua obesidade. Os registros históricos não indicam se Henrique exibia outros sinais físicos da síndrome, como contrações musculares – como tiques ou espasmos- ou um aumento anormal na atividade muscular, como hiperatividade. Mas as mudanças dramáticas em sua personalidade fornecem uma forte evidência de que Henrique teve Síndrome de McLeod, dizem as autoras: sua instabilidade mental e emocional aumentaram nos anos anteriores à sua morte, de uma forma que alguns as chamaram de comportamento psicótico.

A Síndrome de MdcLeod se assemelha a doença de Huntington, que afeta a coordenação muscular e causa transtorno cognitivo. A síndrome de McLeod usualmente começa a se desenvolver quando um indivíduo está entre 30 e 40 anos de idade, muitas vezes resultando em danos nos músculos do coração, doenças musculares, anormalidade psiquiátrica e danos nos nervos motores. Henrique VIII experimentou a maioria, se não todos, os sintomas.

Henrique tinha quase 18 anos quando se casou com Catarina de Aragão, que tinha 23 anos. Sua primeira filha, uma menina, nasceu morta. Seu segundo filho, um menino, viveu apenas 52 dias. Quatro outras gestações foram confirmadas após o casamento, mas três dos filhos eram prematuros ou morreram logo após o nascimento. Seu único filho sobrevivente foi Maria, que viria ser coroada a quarta monarca da Dinastia Tudor.

O número exato de abortos espontâneos sofridos pelas parceiras reprodutivas de Henrique é difícil de determinar, especialmente quanto várias amantes são tidas em conta, mas as parceiras do rei tiveram um total mínimo de 11 ou até 13 gestações. Apenas 4 das 11 gestações conhecidas sobreviveram à infância. Whitley e Kramer chamaram a alta taxa de abortos ou natimortos sofridos pelas duas primeiras rainhas de Henrique de ‘um padrão de reprodução atípica’ porque, mesmo em uma era de grande mortalidade infantil, a maioria das mulheres levavam sua gestação até o fim.

Margaret Tudor, por Daniel Mytens. Para destacar a diferença entre os registros reprodutivos de Catarina e outra mais comum na Era Tudor, você não precisa olhar para muito longe. A irmã de Henrique, Rainha Margaret da Escócia, assim como Catarina de Aragão, teve seis gestações conhecidas durante seu casamento com James IV, rei da Escócia, e tanto ela quanto Catarina tiveram apenas um filho que viveram até a idade adulta (Maria, de Catarina de Aragão, e James, de Margaret), mas a semelhanças param aí. O primeiro filho de Margaret morreu logo após seu primeiro aniversário. A segunda gestação produziu uma filha, que morreu logo após o nascimento. O terceiro filho, um menino, viveu por aproximadamente seis meses. A quarta gestação, um outro menino, produziu um herdeiro que atingiria a idade adulta para se tornar James V, rei da Escócia. A quinta gestação, uma segunda filha, morreria logo após seu nascimento e, a última gestação, produziria um filho que morreria com oito meses de idade. No seu segundo casamento, ela produziu uma filha que sobrevivente e o terceiro casamento, uma filha que morreria na infância. Como o caso de Margaret exemplifica, mesmo em uma época de mortalidade infantil assustadoramente alta, a maioria das mulheres terminavam suas gestações e seus descendentes viviam pelo menos tempo suficiente para serem batizados. Em contraste, Catarina perdeu a maioria de seus filhos em abortos espontâneos ou morte neonatal.

Os autores explicam que se um pai Kell positivo engravida uma mãe Kell negativa, cada gravidez tem uma chance de 50-50 de ser Kell positivo. A primeira gravidez normalmente produz uma criança saudável, mesmo se a criança for Kell positivo e a mãe Kell negativo. Mas as próximas gestações da mãe Kell positivo são arriscadas porque os anticorpos da mãe vão atacar o feto Kell positivo como um corpo estranho. Qualquer bebê Kell negativo não será atacado pelos anticorpos e provavelmente nascerão saudáveis.

Retrato de Catarina de Aragão feito provavelmente por Lucas Horenbout, em 1525-26.Apesar do fato de que o primogênito de Henrique e Catarina não ter sobrevivido é um tanto atípico, é possível que em alguns casos a sensibilização do Kell afete até mesmo a primeira gravidez’, dizem as autoras. A sobrevivência de Maria na quinta gravidez de Catarina de Aragão se encaixa no cenário Kell, que se Maria herdasse o gene recessivo Kell de Henrique, ela seria uma criança saudável. Também é possível que ela tivesse um distúrbio alimentar.

Transtornos alimentares podem afetar a fertilidade. No entanto, uma vez que ela é criticada, frequentemente, pelos historiadores por ter “perdido o seu valor” com o ganho de peso, anorexia parece improvável. Um transtorno alimentar pode causar ganho de peso, como o de comer compulsivamente, e isso pode afetar a fertilidade, mas é mais provável que interferisse mais na concepção do que provocar um aborto. As autoras acreditam que mesmo Catarina, com sua idade avançada, se tivesse oportunidades também poderia ter dado o seu herdeiro masculino. Ele simplesmente depende dos dados: 50/50 Kell negativo e 50/50 masculino. A questão é se o casal sequer tentaria ter outros filhos depois de tantas perdas.

As gestações de Ana Bolena é um exemplo clássico de aloimunização Kell com uma primeira criança saudável e vários abortos seguidos. É óbvio, observando a saúde de Elizabeth, que sua combinação genética poderia resultar em uma criança muito robusta e saudável. No entanto, é impossível saber quantos abortos e natimortos eles teriam que resistir até terem um filho saudável. Cada vez que ela ficava grávida, era uma chance de 50/50 de a criança ser Kell positivo e morrer. Ela poderia ter tido um, dois, três ou mais crianças saudáveis, ou nenhuma, dependendo do seu tipo sanguíneo Kell.

Jane Seymour teve apenas um filho antes de sua morte, Henrique VIII, Eduardo VI e Jane Seymoure o primogênito saudável também é consistente com um pai de Kell positivo.

De acorcom com as autoras, vários dos parentes masculinos de Henrique seguem o padrão reprodutivo de Kell positivo.

‘ Nós traçamos a possibilidade da transmissão do Kell positivo de Jacquetta de Luxemburgo, a bisavó do rei. O padrão de falha reprodutiva entre os descendentes do sexo masculino de Jacquetta, enquanto as mulheres eram geralmente bem sucedidas reprodutivamente, sugere a presença genética do fenótipo Kell no seio da família’.

Henrique foi conhecido por ter várias amantes (embora não tanto quanto outros monarcas da época) mas sabemos que apenas uma amante lhe deu um filho. Henrique Fitzroy, filho de Bessie Blount com o rei. O fato de que ele era uma criança relativamente saudável é muito consistente com a teoria. Quanto aos filhos de Maria Bolena, mesmo que seus dois filhos fossem de Henrique (o que a maioria dos historiadores duvidam) eles não refutariam a teoria. A primeira gestação de Maria teve como resultado uma filha saudável, o que seria esperado mesmo que a criança fosse do rei e tivesse Kell positivo. O filho sobrevivente de Maria poderia ser explicado pela postulação de que ele não teria herdado o Kell positivo do rei. Em suma, todos os filhos sobreviventes do rei, mesmo os especulados, podem ser facilmente explicados se o rei tivesse o tipo sanguíneo Kell positivo, e o padrão ímpar da reprodução sem sucesso de suas duas primeiras esposas podem ser melhores explicados pela mesma teoria.

Bibliografia:
SOHN, Emily. ‘King Henry VIII’s Madness Explained‘. Acesso em 30 de Junho de 2013.
Solving the Puzzle of Henry VIII‘. Acesso em 30 de Junho de 2013.

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10 comentários sobre “O sangue do Rei

    • A crença de que Henrique VIII morreu devido a sífilis é normalmente ligada a sua imagem como um homem devasso, embora o rei tenha tido poucas amantes conhecidas. O seu declínio mental gradual, sua paranóia e a úlcera da perna podem ter sido o resultado de uma infecção sifilítica terminal, mas ninguém jamais provou que a morte de Henrique VIII foi devida a essa doença. Como é possível ler no artigo, as autoras Whitley e Kramer argumentam contra essa teoria. Se Henrique VIII tinha essa doença, seus registros médicos teriam mencionado alguns sintomas óbvios ou os tratamentos da época, mas não há menção de nada.

  1. É…que triste gnética a dos Tudors hein…mas pra mim isso era tudo pra ele parar de ter esse orgulho de só ter herdeiro homem.
    Além dessa situaçao de genética, já cheguei a pensar várias vezes que ele poderia ser estéril, e que nao queria admitir…
    Nunca pensei que o problema fosse com as mulheres, mas se for pensar, Maria também nao conseguia ter filhos…de certo a genética dele é mais forte nela do que de Catarina.
    Achei interessante você dizer a diferença de idade dos 2, pq julgavam bem mais velha, e entendo o porque das puladas de cerca, casou muito novo…
    Bem fez, Elizabeth, de recusar esse tipo de vida e acabar com essa disnatia. (nada contra eles, mas ela só teria mais problemas se fosse ter filhos)

    • Gente, é Eritroblastose Fetal mesmo… Mas a doença só ocorre quando a mulher for recessiva e estiver grávida de um filho positivo, e a doença se manifestar deve haver a sensibilização da mulher.. Pessoas com o fator Rh- são 15% da população total, qual é a chance de Catarina de Aragão, Ana Bolena serem Rh- e gestarem uma criança positiva? 1/30, o que seria 3%., .. Não acho que foi esse o problema que torturou tanto Henry VIII..

  2. Eu li uma vez que o rei tinha mais doença “que um banheiro público de rodoviária”… isso explicaria mto tb..

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