Atores mirins elisabetanos eram ‘sequestrados e açoitados’

Dr. Bart van Es diz que documentos do tribunal mostram que alguns atores mirins eram violentamente arrancados das ruas e forçados a atuar. Seus pais eram, então, legalmente impedidos de resgatá-los dos trabalhos nos teatros de Londres. Van Es diz que essas crianças enfrentaram uma ‘sistemática exploração e abuso’. Seu estudo do teatro de Londres no final do século 16 e início do 17 revela um lado obscuro de crueldade com as crianças.

Desde a década de 1570, havia grupos teatrais onde todos os artistas eram meninos jovens, concorrentes das peças atuadas somente por adultos. A pesquisa de Dr. van Es examinou a forma cruel na qual algumas dessas crianças tinham sido apreendidas com ‘força e violência’, e mantinhas cativas e ameaçadas com chicotadas.

Esses sequestros nas ruas não eram ilegais, pois os proprietários do teatro tinham licenças para recrutar crianças à força. Esses poderes foram concedidos pela rainha Elizabeth I e levavam o selo real.

Dr. van Es afirma que, em teoria, esses poderes eram destinados a encontrar coristas para a capela real, mas era um ‘segredo conhecido’ de que eles de fato forçavam jovens a participar de companhias teatrais. Os proprietários dos teatros exploravam essa aprovação real, dizendo que ela lhe dava ‘autoridade suficiente para tirar o filho de qualquer nobre do reino’.

Os pais desesperados tentavam recuperar seus filhos sequestrados através do tribunal. Henry Clifton, pai de Thomas Clifton, de 13 anos de idade, disse que um grupo de homens arrastaram e levaram seu filho embora enquanto ele estava em seu caminho para a escola, infligindo grande terror e sofrimento.

O jovem estava sendo mantido cativo na Blackfriars Theatre, e ao invés de devolvê-lo à sua família, os donos do teatro disseram que o menino seria açoitado se não obedecesse.

O pai lutou para ter seu filho de volta, queixando-se da negligência da corte quanto à suas denúncias. E não foi só o seu próprio filho que estava sendo mantido contra sua vontade. Henry Clifton informou que outras crianças tinham sido raptadas de diversas escolas e que aprendizes tinham sido apreendidos aonde eles estavam trabalhando ‘contra a vontade das referidas crianças, seus pais, tutores, mestres e diretores’.

Atores mirins no filme 'Anonymous' (2011)Dr. van Es diz também que havia exploração sexual, tanto na realização das performances e como os atores mirins eram vistos pelo público elisabetano. O acadêmico diz que há referências de escritores contemporâneos sobre performances infantis que é ‘claramente sexual’. Ele diz que essas performances realizadas pelas crianças eram muitas vezes muito mais sexualmente explícitas do que aquelas apresentadas por atores adultos e muito mais misógino em seu conteúdo.

Dr. van Es diz que ficou surpreso com o que ele tinha encontrado sobre os atores mirins, particularmente contra o pano de fundo moderno de escândalos sobre abuso infantil. Ele diz que as empresas de teatro eram ‘bizarras’ e ‘duvidosas’ e que não devem ser vistas simplesmente como uma peculiaridade da era elisabetana. Ele fez essas descobertas enquanto pesquisava para um livro, Shakespeare in Company, e ele diz que William Shakespeare surge com algum crédito dessa história obscura.  A escrita do dramaturgo sugere seu desgosto pelo uso de ‘crianças cativas’ para o entretenimento, diz ele.

O filho de THomas Clifton foi sequestrado por volta da mesma época em que Hamlet foi escrita e Dr. van Es diz que o enredo da peça fala sobre o tema de atores mirins. Os atores de Hamlet competiam abertamente com as peças teatrais feita só por crianças e o Dr. van Evans diz que há referências zombeteiras sobre crianças em peças teatrais. Shakespeare, como outros dramaturgos da época, usava atores mirins para fazer a parte das mulheres (que eram proibidas de participarem de peças de teatro), mas Dr. van Es diz que estes eram aprendizes, e não prisioneiros. ‘Shakespeare realmente sai dessa muito bem,’ ele completa.

Fonte: BBC News

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