Catarina de Aragão, Henrique VIII e o Tribunal Legatino

The Other Boleyn Girl [2008]O Tribunal Legatino reuniu-se pela primeira vez em 31 de maio de 1529, abrindo o caso do casamento do rei no dia 18 de junho. Seu objetivo era ouvir os testemunhos do rei e da rainha sobre a validade de seu casamento e se pronunciarem. Era a primeira vez que um julgamento como esse se realizava na Inglaterra, onde um rei e uma rainha reinantes deveriam comparecer, em seu próprio território, perante os agentes de um poder estrangeiro, para responder a certas questões.

O julgamento teria lugar em Blackfriars, um mosteiro dominicano. Wolsey e Camppegio, o enviado Papal, se sentariam, em trajes solenes, logo abaixo do trono do rei. Três metros abaixo dos seus assentos ficaria o trono de Catarina. Esta jurara não comparecer, alegando que nenhum poder fora de Roma era válido, ainda que o próprio Santo Padre tivesse autorizado Camppegio.


No dia 21 de Junho de 1529, o que era antes um grande quarto ocupado por dois cardeais, agora estava repleto de nobres do reino e uma multidão de espectadores, assim como Cardeal Camppegio e o Cardeal Wolsey.  Henrique VIII compareceu ao Tribunal, assim como, surpreendendo a todos, a sua primeira esposa, Catarina de Aragão, diante do Tribunal em Blackfriars.

Giles Tremlett, autor do livro  “Catherine of Aragon: Henry’s Spanish Queen” escreve sobre como há confusão sobre a ordem dos eventos naquele dia, mas que aparentemente Henrique VIII foi o primeiro a falar com o tribunal. O rei fizera um discurso longo sobre sua consciência escrupulosa e de como ele não pedia o divórcio por força de seus desejos carnais, porque a rainha agradava-o tanto quanto qualquer mulher, mas por causa de sua consciência perturbada com o fato de que ele havia se casado com a viúva de seu irmão.

Entretanto, foi o discurso apaixonado de Catarina neste dia foi o que teve maior impacto. Este foi o discurso de sua vida (que mais tarde seria imortalizada por Shakespeare em ‘Henrique VIII), feito de joelhos perante seu marido em uma postura de submissão absoluta. Ela caminhava com dignidade; seu vestido, touca e jóias, haviam sido escolhidos para imprimir uma impressão de grandiosidade. Catarina entrou lentamente na sala e dirigiu-se para sua cadeira. Então, ao invés de se sentar, voltou-se abruptamente para a direita e, passando pelos perplexos cardeais, subiu os degraus que levavam ao trono do rei e ajoelhou-se, dizendo:

Senhor. Por todo o amor que existiu entre nós, eu lhe imploro que me permita ter justiça e direito, que tenha piedade e compaixão de mim, pois sou uma pobre mulher, e estrangeira, nascida fora de seu domínio. Aqui não tenho amigos, e muito menos defensores indiferentes.

Chamo a Deus e o mundo inteiro como testemunha de que tenho sido para o senhor uma esposa verdadeira, humilde e obediente, sempre pronta a satisfazer sua vontade e seus desejos, estando sempre bem satisfeita e contente com tudo que lhe desse qualquer prazer ou satisfação. Eu nunca me ressenti por palavras ou aparências, nem mostrei uma face ou faísca de descontentamento. Eu amei a todos a quem o senhor amou, só por sua causa, tivesse eu motivo ou não, e fossem eles meus amigos ou inimigos. Por vinte anos ou mais, fui vossa verdadeira esposa e comigo o senhor teve vários filhos, embora tenha prezado a Deus chamá-los deste mundo, o que não foi por minha culpa…

E quando o senhor me teve pela primeira vez, chamo a Deus para ser meu juiz, eu era donzela de verdade, sem ter sido tocada por homem algum. E se isso é verdade ou não, submeto à consideração de sua consciência. E se por qualquer causa vos possa alegar contra mim desonestidade ou qualquer outro impedimento para banir-me e separar-me de vós, eu contentamente partirei para minha grande vergonha e desonra. Mas se não tiver nenhum, eu pelo mais humildemente a você, que me deixe ficar como antigamente… Eu vos peço da maneira mais humilde, como um ato de caridade e pelo amor de Deus que é o juiz supremo, que me poupes a extremidade desta nova corte, até que os meus amigos de Espanha possam aconselhar-me o caminho que devo tomar. E se não quereis cocneder-me um favor tão insignificante, seja feita a vossa vontade e eu entrego a minha causa nas mãos de Deus.

Se os inimigos da rainha esperavam humilhá-la, ficaram duramente desapontados. Catarina defendeu-se com dignidade e firmeza, citando a segunda Bula de Dispensa como prova da validade de seu casamento, a cópia original permanecendo segura na Espanha, e não podendo ser refutada, portanto.

Henrique tentou levantar Catarina duas vezes durante seu emocionante discurso, mas ela não se moveu. Esta era sua única chance de lutar pelo seu casamento em público, e ela tiraria o máximo proveito dela. Catarina buscou a permissão do rei para apelar diretamente a Roma e Henrique, com sua esposa  de joelhos na sua frente e uma multidão de curiosos simpáticos ao sofrimento de Catarina,  teve de concordar. A rainha, ao terminar sua súplica a um marido envergonhado e impassível, se levantou, fez uma reverência ao rei e, ao invés de voltar para o seu lugar,  saiu do tribunal, ignorando as chamadas para que ela voltasse dizendo claramente; ‘Não, não, eu não faço questão, pois este não é um tribunal imparcial para mim’.

Henry VIII [2003]Quando a rainha chegou à vista da multidão de plebeus que se reuniram do lado de fora, mulheres do povo gritaram para ela, ‘dizendo-lhe que não ligassem para nada, e coisas nesse sentido’. Como escreveu o embaixador Du Bellay, ‘ se o caso fosse decidido por mulheres’, o rei inglês ‘perderia a batalha’. Mas, é claro, isso não aconteceu.

Catarina foi declarada revel e o julgamento prosseguiu. Muitos anciãos deram testemunhos de suas proezas aos quinze anos (para corrobar a afirmação de que Artur era plenamente capaz) e houve intensa procura de uma testemunha que fosse capaz de apresentar uma prova irrefutável de que Artur e Catarina tinham consumado seu casamento mas, obviamente, como ninguém se metera sob a cama do casal, tal testemunha não pode ser encontrada.

O julgamento se arrastava, dia após dia, e fez-se óbvio que a única intenção de Camppegio era prolongar o julgamento tanto quanto possível. A cadeira de Catarina continuava vazia. Mas isso de nada serviu; no final de tudo, justamente quando se aguardava o veredicto, Campeggio se levantou e anunciou que, sendo aquele um tribunal romano, e uma vez que em Roma, por causa do calor, todos os julgamentos estavam suspensos até outubro, ali também as atividades estavam encerradas. Evidentemente o caso estava encerrado, sem julgamento, e seria remetido de volta a Roma. Por justa que fosse a resposta, a falha do Tribunal Legatino constituiu por si mesmo um cisma entre a Roma do Papa Clemente e a Inglaterra do Rei Henrique VIII.

Bibliografia:
GEORGE, Margaret. Autobiografia de Henrique VIII. Tradução de Maria Luiza X. de A. Borges. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1993.
ANTHONY, Evelyn. Ana Bolena. Tradução de Nair Lacerda. São Paulo: Editora Cultrix, 1961.
PLAIDY, Jane. Assassinato Real. Tradução de Sylvio Gonçalves. Rio de Janeiro: Editora Record, 2000.
FRASER, Antonia. As Seis Mulheres de Henrique VIII. Tradução de Luiz Carlos Do Nascimento E Silva. Rio de Janeiro: BestBolso, 2010
HACKETT, Fracis. ‘Henrique VIII’. Tradução de Carlos Domingues. Rio de Janeiro: Irmãos Pongetti Editores.

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14 comentários sobre “Catarina de Aragão, Henrique VIII e o Tribunal Legatino

  1. esse julgamento é ridículo! ele dormiu com Maria Bolena e depois quis se casar com Ana Bolena, mas Catarina não poderia ter dormido com o Marido (não foi um amante foi um marido) dela e depois se casar com o irmão dele após a morte do primeiro?

    • Sim ué. Você tem que considerar essas questões tentando ver com o ponto de vista medieval. Homens não precisavam ser virgens para entrar no casamento – mulheres necessariamente tinham que ser, principalmente princesas. Caso ela não fosse, o casamento poderia ser considerado inválido (como aconteceu com Catarina, mas isso poderia ser com qualquer mulher). Por exemplo, Henrique tentou usar a mesma “desculpa” para tentar se separar de Ana de Cleves, mas como ela era obviamente virgem não deu certo, então usaram um pré-contrato de casamento que ela havia feito. Ou seja, além da mulher ser virgem, ela não poderia ter noivado ou se comprometido antes de se casar. Eu entendo que pode parecer estranho por Artur ser o marido, mas acontece que Catarina havia jurado que eles não haviam dormido, e depois houveram relatos de que eles haviam… enfim.

      • é claro..eu sei de tudo isso! Existem relatos de que quando ele foi se casar com Catarina Parr falaram pra ele: “Mas o senhor vai se casar com uma mulher que foi de outro homem? Mas em relação a Catarina de Aragão, Henrique correu o risco quando se casou…acredito que ele próprio sabia que ela era virgem mas usou o “contratempo do primeiro casamento” para conseguir anular seu.

        • Será? Eu acredito na versão romanceada de que ele mesmo era virgem quando se casou com Catarina, de modo que não sabia “como saber” se Catarina era virgem ou não.

  2. Discursos falsos, um do outro, eu imagino. Mas nem tanto o da Catarina, porem ela só estava com medo de realmente perder a posição para Anne. De qlq forma, nunca gostei da Catarina :s

    • Ah, não sei se é falso. Eu acredito que Henrique, de uma forma muito distorcida, realmente acreditava que seu casamento com Catarina estava errado; e que Catarina acreditava que era seu direito divino ser Rainha da Inglaterra.

        • Pode ser mesmo que acreditavam no que estavam discursando. Ele sempre teve esse problema de aceitá-la como esposa, por causa de tudo…não sei haha Me parece algo falso dele, só para ter a Anne como esposa. E a Catarina se passando de boa esposa e coitada perante todos, é uma das coisas q n gosto nela k

          • Qual era a mulher que não sonhava ser Rainha? haha quando Henrique já não queria mais arranjava forma de se livrar… Foi assim com Catarina, Ana e com o resto e seria com Jane se ela tivesse sobrevivido e tivesse dado à luz uma menina… Catarina nunca seria “arrumada” se tivesse dado à luz o tão desejado herdeiro assim como Ana

  3. Em minha opinião, Catarina falou a verdade. Acredito em sua inocência, seu dever maior sempre foi com Deus. Sua consciência não permitiria uma mentira jurada diante de Deus, de um tribunal romano… Ela que se sustentou por anos em sua fé, não mentiria. Honrosa e íntegra Rainha Catarina, que Deus a tenha em descanso, minha senhora…

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