‘Na mulher, o silêncio é de ouro’: O Livro de Boas Maneiras da Boa Esposa

No final do século XIV, um anônimo escritor francês compilou um livro dirigido a sua esposa de quinze anos de idade, narrado na voz (talvez fictícia) de seu marido, um rico e velho parisiense. O livro foi projetado para ensinar os atributos morais, deveres e condutas condizentes com uma mulher e sua posição na sociedade, no caso quase certo de viuvez e recasamento sequente desta jovem mulher. O autor fala várias vezes da ‘grande juventude’ de sua esposa, e como era a sua função fazer confortável seus anos de declínio, mas como ele queria tornar isso uma tarefa fácil para ela o esposo fez um pequeno livro para mostrar-lhe como comportar-se, pois ele é velho e deve morrer antes dela e, como ela se casará de novo, ele não pode ser levar crédito caso a mulher não seja perfeita em costumes e moral. 

O livro também oferece um rico conjunto de matérias práticas para o uso da mulher e sua família, incluindo tratados sobre jardinagem e compras, dicas sobre como escolher funcionários, orientações sobre cuidados médicos de cavalos e criação de falcões, além de menus para festas elaboradas e mais de 380 receitas.

Contendo três seções principais (como alcançar o amor de Deus e do marido, como ‘aumentar a prosperidade da família’ e como se divertir, socializar e conversar.), o livro também contém conselhos espirituais e práticos, dicas de limpeza e moda, orações, poemas, contos morais e tudo o que uma menina precisa saber sobre cortejar o sexo oposto.

Le Ménagier de Paris, o título original do livro publicado pela primeira vez na França, foi mais tarde publicado na Inglaterra sob o título de The Good Wife’s Guide. Como muitos textos medievais, o argumento do autor baseia-se fortementre em pequenos contos, usados como exemplos.

‘Existe uma [receita] para maridos que procuram prazer fora de casa. Manda-nos imitar a mulher que se preocupava tanto com o prazer do marido que mandou os seus próprios lençóis para a cama da pobre mulher com quem ele dormia, para que ele se sentisse mais à vontade. […] Os lençóis eram bordados com as iniciais da esposa, e, quando o marido as viu, sentiu-se envergonhado e voltou para ela’. ¹

O livro tem algumas máximas, entre elas: ‘a decência proíbe-a a receber  todos os amigos que quer, exceto aqueles que vêm para ver seu marido’, ‘ela deve estudar para agradar o marido, e ninguém mais’, ‘ela deve deixar de lado a prática da cobiça, e não deve usar pinturas, pomadas, lavagens para embelezar, nem outros inúmeros ingredientes que são feitos para mudar a compleição – estes são venenos mortais a honra, e as dores sofridas para parecer bonita raramente são para o marido’, ‘o amor à novidade e a diversão não é boa coisa para uma mulher, pois a afasta do dever’, ‘a mulher virtuosa será recompensada com honra cem vezes maior por ter paciência e não se queixar’ e ‘na mulher, o silêncio é de ouro’.

A boa esposa nunca deve introduzir novas modas. Quando ela caminha pela rua, deve manter ‘a cabeça recatamente erguida, os olhos baixos e imóveis’. Só as más esposas ‘andam com os olhos arregalados, a cabeça erguida como a de um leão, os cabelos desarrumados em suas coifas, os colares e suas vestes em uma confusão uma sobre a outra’. ‘Ao escolher um cavalo, a boa esposa deve certificar-se de que ele não está ferido na cernelha’. ‘Se ela abraçar a falcoaria e seu gavião ficar preso no visgo, ela deve tirar cuidadosamente cada pena e depois as mergulhar, com os dedos, em leite.’. Ela deve acordar todos os dias de manhã, fazer uma oração e, em seguida voltar a dormir. Ela nunca deve questionar as decisões do marido, porque ‘repousa nele ele a decisão sobre tudo’.

Existem apenas três coisas, de acordo com o Livro de Boas Maneiras da Boa Esposa, que faz com que um homem deixe a sua casa: ‘uma casa sem telhado, uma chaminé enfumaçada e uma mulher briguenta’. Para manter seu marido satisfeito, a mulher só precisa ‘protegê-lo de buracos no telhado, ter a certeza de que no inverno ele terá uma boa lareira sem fumaça e deixá-lo dormir, muito bem embrulhado, entre seus seios acolhedores’. Desta forma, certamente a mulher irá cativá-lo.

Sir Thomas More and his Family.   Rowland Lockey, after Hans Holbein, the Younger. 1593.Embora escrito na Idade Média, existe uma grande possibilidade que este livro tenha chegado às mãos das senhoras da Era Tudor. Desde a época em que fora escrito a condição das mulheres floresceu: elas tiveram acesso às artes, às ciências, a literatura. Mesmo assim, a maioria esmagadora das mulheres ainda eram ensinadas desde o seu nascimento de que eram inferiores aos homens e que deviam obedecer seus pais e seus maridos. Como escreveu um filósofo contemporâneo da Era Tudor, chamado Juan Luís Vives:

‘O amor de uma esposa pelo marido inclui respeito, obediência e submissão. Não apenas as tradições de nossos antepassados, mas todas as leis humanas e divinas concordam com a poderosa voz da natureza que exige, por parte das mulheres, observância e submissão. [A mulher é] uma coisa frágil,  e de fraca discrição, e pode ser facilmente enganada, o que demonstrou a nossa primeira mãe, Eva, a quem o Diabo enganou com um argumento fraco’.

Bibliografia:
¹ RILEY, Judith Merkle. O Jardim da Serpente. Tradução de Roberto Raposo. Rio de Janeiro: Record: Rosa dos Tempos, 1997.
FRASER, Antonia. As Seis Mulheres de Henrique VIII. Tradução de Luiz Carlos Do Nascimento E Silva. Rio de Janeiro: BestBolso, 2010.
HALFORD, Macy. Wife à la mode. Acesso em 11 de agosto de 2013.
‘The Good Wife’s Guide’. Acesso em 11 de agosto de 2013.
‘Le menagier de Paris’. Acesso em 11 de agosto de 2013.

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