A influência que Maria I teve sobre Elizabeth I

Gravura de Maria I e Elizabeth I, século 16.Foi difícil para Elizabeth superar os preconceitos estabelecidos, enraizados, contra o comando da mulher. Elizabeth viu a meia-irmã Maria Tudor tomar a iniciativa e reinvidicar seu lugar legítimo como rainha. A meia-irmã era 17 anos mais velha que Elizabeth e suportara uma série de provações em seu avanço para a coroa. Ela, como Elizabeth, fora despojada da legitimidade e tivera negado seu lugar na ascensão ao trono. Mas fora o nascimento de Elizabeth que arruinara a juventude de Maria. Ela foi destituída, humilhada e ostracizada pelo pai por causa da devoção à sua mãe, Ana Bolena. 

Maria assumiu suas responsabilidades com adequada seriedade de propósito. A manutenção de seus princípios, embora desprovido de pragmatismo e oportunismo político, teve um elemento de heroísmo. Mas seu reinado foi solapado por duas paixões fatais. Maria era pateticamente dedicada ao marido Filipe II da Espanha, que, além de ser-lhe indiferente, era muito detestado e suspeito ao povo inglês. Também tinha absoluto empenho em sua fé e na necessidade de vingar as feridas e humilhações infligidas à mãe, fiel, e a ele própria no estabelecimento da nova Igreja.

Série 'Elizabeth I', de 2005.Em 1 de Fevereiro de 1554, a rainha Maria I foi para Guildhall, em Londres, para reunir os cidadãos em prol de sua causa contra a Rebelião de Wyatt. Os rebeldes estavam avançando e Maria tinha de garantir que eles não se deparassem com uma multidão solidária ao chegar lá. Os monarcas Tudor não mantinham forças armadas numerosas mobilizadas, e assim dependiam, para a continuidade de seu governo, da boa vontade do povo.

Ela recusou-se a abandonar a cidade para sua segurança, acreditando que sua presença era necessária e que um discurso direto aos cidadãos levaria a demonstrações de lealdade. Embora muitas vezes retratada como uma rainha que não tinha muita aptidão política, a decisão de Maria foi altamente pragmática. Ela demonstrou uma coragem notável e certamente suas palavras compõe um dos poucos discursos históricos que realmente atestam o poder das palavras. Maria Tudor moveu o coração de homens e mulheres, e podemos dizer que esse discurso mudou o curso dos acontecimentos. Segue abaixo um trecho do discurso:

Eu vim em minha própria pessoa para dizer-lhes o  que vocês já viram e sabem, eu falo sobre os traidores e os rebeldes sediciosos de Kentish contra mim e vós. Sua pretensão (como eles dizem) é de resistir ao casamento entre nós e o príncipe da Espanha (…) por suas respostas, o casamento agora é  a menor de suas preocupações pois, desviando de suas demandas anteriores, eles agora arrogantemente requerem o governo de nossa pessoa, a manutenção de nossa cidade, e o recolocamento de nossos conselheiros. O que eu sou, meus amados súditos, ainda conhecida sua Rainha, a quem, na minha coroação, vós prometeu lealdade e obediência, eu era então casada com o reino e com as leis do mesmo, o anel de casamento que uso em meu dedo, a qual não foi e nem será tirado (…)  E eu digo a vós, nas palavras de um príncipe, que eu não posso dizer-lhe como naturalmente uma mãe ama uma criança, pois eu nunca fui mãe de nenhuma; mas certamente, se um Príncipe e Governador podem amar seus súditos tão naturalmente e sinceramente quanto amam uma criança, eu asseguro a vós que eu, sendo sua Senhora e amante, tenho um amor tão fervoroso e eterno a favor de vós. E eu, te amando, não posso deixar de pensar que tenhas um amor tão cordial e fiel a mim; e que eu não duvido que iremos dar a esses rebeldes uma queda curta e rápida. (…) Eu não sou tão desejosa, nem tão precisamente apegada à vontade, de que eu precise ter um marido. Até então eu tenho vivido como uma virgem, e eu não duvido, na Graça de Deus, que poderia continuar assim. Mas, como meus antepassados fizeram, e se agrada a Deus que eu devo deixar para vós um sucessor para ser seu governador, eu acredito que vós gostariam disso, eu sei que os confortaria. No entanto, se eu achasse que esse casamento colocaria em risco qualquer um de vós, meus amados súditos, ou a propriedade real deste reino inglês, eu jamais consentiria em casar-me enquanto vivesse. Nas palavras de uma rainha eu lhes asseguro, que se o casamento não se parecer diante da corte do Parlamento, nobres e comuns, para o singular benefício de todo o reino, então eu me absterei não só deste, mas de qualquer outro. (…) Bons e fiéis súditos, eu peço que arranque vossos corações, como verdadeiros homens e fiquem seguros ao lado de seu legítimo Príncipe contra esses rebeldes, tanto nossos inimigos quanto seus, e não os tema, pois eu vos asseguro que eu não os temo.

Série 'Elizabeth I', de 2005.Percebe-se que Maria deliberadamente evitou chamar a si mesma de ‘esposa’. Ela é ‘casada’ com seu reino, mas ela não lançou-se no papel de uma esposa submissa que espera obedecer o seu marido. Assim, Maria dá seus súditos a razão para acreditar que detém o poder e o comando. No mesmo discurso, Maria referiu a si mesma como ‘príncipe e governador’, em vez de usar o termo ‘rainha’. Elizabeth se descreveu como ‘príncipe’ em inúmeras ocasiões, o que claramente fazia questão de enfatizar a sua semelhança com seus colegas do sexo masculino.

Aqueles familiarizados com o reinado de Elizabeth I, provavelmente detectaram as semelhanças notáveis entre esse discurso de Maria e outros discursos de Elizabeth durante sua vida, durante até mesmo o seu discurso em Tilbury em 1558. O discurso de Elizabeth para suas tropas tornou-se mais famoso do que qualquer outro em inglês:

Meu amado povo, tenho sido convencida por alguns, cuidadosos com a minha segurança, a prestar atenção em como me confio a multidões armadas, por receio de deslealdade. Mas vos digo que eu não desejaria viver para desconfiar de meu povo fiel e adorável. Que temam os tiranos: tenho me comportado de tal modo abaixo de Deus que pus minha principal força e salvaguarda nos leais corações e boa vontade dos meus súditos. Por isso venho a vós desta vez não para minha recração e prazer, mas estou decidida, no meio e calor da batalha, a viver e morrer entre todos vós, lançar por meu Deus, por meu reino e por meu povo a minha honra e o meu sangue no pó. Sei que tenho apenas o corpo de uma mulher fraca e frágil, mas tenho o coração e a coragem de um rei, e também de um rei da Inglaterra – e tenho o imenso prazer de que Parma ou qualquer outro príncie da Europa ouse invadir as fronteiras de meu reino. Aos que, mais do que qualquer desonra causada por mim, eu mesma arriscarei meu sangue real.

Filme 'Elizabeth' de 1998.Isso assinalou o apogeu de seu reinado. Elizabeth, ao abraçar a ação e partilhar o perigo com o povo, inspirou a imaginação popular com a visão de uma deusa da guerra.

Assim como Maria, Elizabeth usaria seu anel de coroação para simbolizar a união mística que a ligava com seu reino. Elizabeth, cinco anos mais tarde, iria empregar a mesma técnica. Maria, no entanto, aplicou a retórica em seus argumentos pela necessidade de uma rainha reinante em se casar. Ela não via como a sua união com o reino seria afetado pela aquisição de um marido. Elizabeth, evidentemente, adotaria o tema de união de uma forma diferente, retratando-o como uma alternativa perfeitamente aceitável para um casamento real.

No seu primeiro discurso ao Parlamento, Elizabeth não poderia ter deixado isso mais claro:

‘Já estou unida a um marido, que é o reino da Inglaterra (…) cada um de vós, e quanto ingleses haja, são meus filhos e gente da rainha’.

Uma petição da rainha aos membros da Câmara dos Comuns do Parlamento, em janeiro de 1563, lembrava-os da jurisdição papal da qual ela os salvara, e acalmando-os ao mesmo tempo com consciência e cuidado maternal:

‘Não esqueçais de que por mim fostes libertados quando pendíeis do galho, prestes a cair na lama (…) sim, a ser afogados no esterco (…) Asseguro-vos que, embora depois de mim talvez tenhais madrastas, nunca ireis ter a mãe mais natural que pretendo ser para todos vós’.

Joanne Whalley como Maria I, na série 'Elizabeth: The Virgin Queen', de 2005.Independente das diferenças que ambas tinham com a abordagem do casamento, o ‘empréstimo’ da retórica sobre a questão da união da soberana com o seu reino sem dúvida ilustra a influência que os discursos de Maria teve nos discurso de Elizabeth. Muitas vezes, é presumido que ela simplesmente aprendeu com erros de sua meia-irmã, que foi, em certos pontos, tudo o que uma rainha reinante não deveria ser. A idéia de que Elizabeth pode ter tomado lições positivas de sua predecessora, incluindo o fato de endossar seus pontos e adaptá-los para um argumento oposto, é algo que se deve muita consideração.

Mais uma vez, este é um exemplo de como Maria, uma das governantes mais extraordinárias da Inglaterra, tem sido colocada para fora da história. Maria pode não ter tido o brio intelectual de Elizabeth ou mesmo os romances de Maria Stuart, mas ela tinha todo o sentido prático, coragem e determinação para se tornar a primeira mulher reinante da Inglaterra. Ela segurou seu trono, casando com quem ela escolheu, impôs o catolicismo reformado sobre o país, colocou-o em guerra com a França e, em seu último suspiro, assim como seu pai, segurou o curso que ela definiu. Notável parece ser uma palavra muito pequena para tais conquistas.

Bibliografia:
DUNN, Mary. ‘Elizabeth e Mary: primas, rivais, rainhas’. Tradução de Alda Porto. Rio de Janeiro: Rocco, 2004.
Mary’s speech in the Guildhall (1554) and photos‘. Acesso em 15 de março de 2013.
Queen Mary Tudor’s speech Guildhall 1554‘. Acesso em 15 de março de 2013.
1554, Queen Mary I’s speech at the Guildhall‘. Acesso em 15 de março de 2013.
Mary makes a speech at Guildhall‘. Acesso em 15 de março de 2013.

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6 comentários sobre “A influência que Maria I teve sobre Elizabeth I

  1. Excelente artigo! Fugiu do senso comum de que Elizabeth foi uma monarca anos-luz á frente de Maria; se não fosse por esta reclamar seu trono talvez Elizabeth não tivesse tido a coragem para fazer o mesmo. De fato Maria merece mais prestígio.

  2. É um personagem histórico que me suscita muita admiração, mas nenhuma simpatia, confesso!

      • Elizabeth. Ao contrário do que o filme (aliás, formidável), não parecem ter existido qualquer tipo de afeições por parte dela. Dura e seca, como o cavaco. Mas cumpriu a sua obrigação perante o seu país, é verdade!

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