A sexualidade de George Bolena

Jim Sturgess como George Bolena, no filme 'The Other Boleyn Girl' em 2008.O primeiro historiador a escrever sobre a sexualidade de George Bolena foi Retha Warnicke. Em seu artigo de 1987 intitulado “Sexual Heresy at the Court of King Henry VIII” (‘Heresia Sexual na Corte de Henrique VIII’) e, posteriormente, no seu livro ‘The Rise and Fall of Anne Boleyn’, Warnick introduziu várias teorias, entre elas a de que o bissexual George Bolena provavelmente teve um caso com Mark Smeaton, bem como outros homens.  Ela baseia sua opinião em três evidências:

  • George Cavendish descreveu as ‘luxúrias ilegais’ de George Bolena, o sugere que o jovem cometeu algum tipo de pecado, mas seria homossexualidade uma delas? A resposta é não. É altamente provável que George Bolena tenha sido infiel a sua esposa e que tinha muitos casos, mas não existe nenhuma menção de que ele seja homossexual. No século 16, todo pecado era considerado uma grande ofensa contra Deus e, talvez, George Bolena tenha cometido algum pecado (adultério, por exemplo), mas não há nenhuma menção sobre homossexualidade. O que também é interessante, Cavendish descreve George Bolena como um mulherengo, e não homossexual:

‘Forcei viúvas, deflorei donzelas. Tudo era um para mim, não poupei nenhuma; Meu apetite era de todas mulheres devorar…’

Temos de nos lembrar que George Cavendish foi secretário do Cardeal Wolsey e, portanto, culpava os Bolena pela queda de seu mestre. Então é óbvio que ele não os respeitava e é possível que ele exagerou e mentiu sobre determinados assuntos. Além disso, ao invés de enfatizar as ‘perversões homossexuais não naturais de George’, Cavendish procura descrever a violência sexual de George.

Recentemente, Alison Weir ressuscitou a teoria sobre a sexualidade de George usando os mesmos argumentos que Warnicke usou vinte anos atrás. Além disso, Weir também sugere que, pelo uso da frase ‘forcei viúvas‘, Cavendish insinuou que George era um estuprador. Tal como acontece com as teorias da sexualidade de George, não há nenhuma evidência para apoiar a idéia de que ele era um estuprador.

Se ele fosse culpado de crimes como estupro e homossexualidade, e se Cavendish soubesse sobre isso, então o resto da Corte também saberia. De acordo com Jane Dunn, quando rumores eram de depravação sexual, ‘a vítima dessas acusações do século XVI tinha poucas chances de restaurar qualquer reputação de virtude e probidade’.  No entanto, nunca foi registrado nenhum comentário, insinuações ou acusação sobre isso, nem pelos inimigos dos Bolena, dos quais haviam muitos. Acredito que, se isso pudesse ter sido comprovado na época, certamente teria sido usado em seu julgamento como prova de sua ‘natureza perversa’.

  • Retha M. Warnicke argumenta que em suas últimas palavras, George confessou que ele era homossexual. Mas o discurso dele não é diferente de todos os outros discursos na época. George simplesmente admitiu que era um pecador, como todas as outras pessoas, e que merecia morrer. Talvez ele quis dizer que não levava uma vida casta, mas isso não implica que ele fosse homossexual.

‘ Homens cristãos, eu nasci sobre a lei, e julgado sobre a lei, e morrerei de acordo com o que a lei decidiu, e à lei me submeto. Senhores, venho aqui não para pregar e fazer um sermão, mas para morrer, pois eu mereceria morrer se tivesse vivido vinte vidas, mais vergonhosa do que pode ser feita, pois eu sou um pecador miserável e pequei miseravelmente. (…) Desejo que nenhum homem se afaste dos Evangelhos por causa de minha falta. Pois se eu tivesse vivido segundo os Evangelhos, em consonância com meu amor por eles e com o que eu dizia deles, nunca teria chegado a isso.’

Depois que George foi condenado por traição, ele negou as acusações e que merecia morrer ‘por maiores e piores vergonhas e desonras que jamais tinham sido ouvidas antes’. Tais falas eram comuns em condenados, mas Warnick e outros têm interpretado suas palavras como a admissão de inclinações sexuais não aceitas no século 16.

  •  Retha M. Warnick afirmou que George Bolena teve um caso homossexual com Mark Smeaton, o músico da corte. Isso é baseado no fato de que George emprestou um livro a Mark Smeaton.

Algumas das assinaturas de George estão escritas dentro de livros, como ‘Les Lamentations de Matheolus’ e ‘Le Livre de Leesce’ de Jean Lefevre. George escreveu ‘Thys boke ys myne, George Boleyn 1526’ (‘Esse livro é meu, George Bolena 1526’). Parece que este livro era passado pelo círculo de amigos dos Bolena. Aparentemente, George emprestou-o para Mark Smeaton, que acrescentou ‘A moi M. Marc S’ no final de uma página. Então o livro foi emprestado para o poeta Thomas Wyatt, que escreveu provérbios em latim, francês, espanhol e italiano em algumas páginas.

O fato de que George e Smeaton tiveram acesso a este livro foi usado por Warnicke como a única evidência palpável que sugere que ambos estivessem envolvidos em uma relação homossexual, enquanto ignora que Wyatt e provavelmente outros homens e mulheres que tiveram acesso ao mesmo livro.

Historiadores têm expressado ceticismo sobre as teorias de Warnicke, dizendo que não há provas suficientes para apoiá-la. No entanto, estas teorias grudaram na ficção história e em adaptações na televisão. No livro ‘A irmã de Ana Bolena’, George Bolena é bissexual e é fortemente implícito que ele dormiu com a sua irmã. Na série The Tudors, George Bolena estupra sua esposa na noite de núpcias e tem um caso amoroso com Mark Smeaton, embora nesta versão ele não durma com a rainha. Também é interessante notar que na primeira temporada de The Tudors existe um caso homossexual entre Thomas Tallis e William Compton, mas na realidade Tallis sequer estava em Londres ou na Corte entre 1520 e 1530, e também nunca existiram rumores de que eles não fossem heterossexuais.

Pouco antes de 1536, o Parlamento havia introduzido o Buggery Statute, que fazia com que o sexo entre dois homens fosse punível com morte pela primeira vez na História inglesa – uma lei pilotada pelo principal conselheiro de Henrique e o homem que supervisionou o caso contra a rainha Ana, Thomas Cromwell. Com base nisso, Warnicke chegou à conclusão de que, pelo menos algum dos poderosos amigos de Ana como Henrique Norris ou Francis Weston eram homossexuais ou bissexuais. E que era o seu irmão, preso em um casamento infeliz, estava tendo um caso com o músico do Palácio, Mark Smeaton.

Retha Warnicke acredita que os homens acusados de serem amantes de Ana foram escolhidos devido a ambiguidade sobre sua sexualidade. Isto levou a um mito cada vez mais duradouro de que os homens foram acusados de sodomia, bem como traição. Na verdade, nenhum deles foram acusados de sodomia e não havia rumores existentes de homossexualidade em relação a qualquer um deles.

A rainha Ana e seu irmão conviviam  regularmente com Henrique Norris e Francis Weston. Como não havia um entendimento do que era homossexualidade ou bissexualidade na década de 1530, havia uma crença generalizada de que eles eram ‘indivíduos com enormes apetites sexuais, [que] eram esperados em mover-se para o adultério e fornicação para sodomia e bestialidade’.

A teoria do século XVI que os gays ou bissexuais se moviam em uma progressão lógica de luxúrias perversas para sodomia através de coisas como adultério, incesto, bestialidade ou zoofilia podem parecer absurdo, mas a redação do Buggery Statute de Thomas Cromwell, que manteve a homossexualidade como crime punível com morte nas ilhas britânicas até 1861 trouxe consigo a idéia perniciosa de que a homossexualidade era um passo na  escada da depravação sexual, que levaria inexoravelmente a coisas como estupro, incesto e bestialidade.

Jim Sturgess como George Bolena, e Natalie Portman como Ana Bolena, no filme 'The Other Boleyn Girl' em 2008.George Bolena era um homem importante na Corte Tudor, mas  passou séculos em relativa obscuridade. Marido de uma mulher infame, irmão de uma rainha controversa e tio de uma mulher lendária, George foi apenas mais uma vítima infeliz na queda de sua família. Pessoalmente, eu não acredito que George Bolena era homossexual. Praticamente tudo o que temos de George é quase inteiramente moldado pela ficção, e as teorias por trás dela não tem o peso da evidência, mas mesmo tem sido regularmente tomadas como um fato. Ainda é necessário dissipar muitos mitos e percepções errôneas não somente sobre Ana Bolena, mas também sobre seu irmão, um jovem, rico e poderoso cortesão que tem sido vítima de rumores e fofocas tanto quanto sua irmã.

Bibliografia:
DUNN, Jane. Elizabeth e Mary. Tradução de Alda Porto. Rio de Janeiro: Rocco, 2004.
GRUENINGER, Natalie. ‘George Boleyn‘. Acesso em 08 de Setembro de 2013.
RUSSEL, Gareth. ‘An article on the Boleyns for Eile‘. Acesso em 08 de Setembro de 2013.
BYRNE, Conor. ‘Katherine Howard, Jane Boleyn, and Sexual Violence‘. Acesso em 08 de Setembro de 2013.
ZUPANEC, Sylwia S. ‘How the mighty had fallen: Jane Boleyn and her role in fall of Anne and George Boleyn‘. Acesso em 08 de Setembro de 2013.
George Boleyn, 2nd Viscount Rochford‘. Acesso em 08 de Setembro de 2013.
Today In History: George Boleyn’s Execution‘. Acesso em 12 de Setembro de 2013.
Finding George Boleyn with Clare Cherry‘. Acesso em 08 de Setembro de 2013.

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