Será que Holbein maquinou o casamento de Henrique VIII e Ana de Cleves?

Ana de Cleves, por Mark SatchwillA comissão de arte real mais infame na história britânica é, sem dúvida, o retrato de Ana de Cleves feito por Hans Holbein. Em 1539, Henrique VIII, com mais de quarenta anos e já casado três vezes, estava considerando uma proposta para uma sortuda mulher. O casamento teve atrações políticas, mas Henrique VIII tinha de saber se Ana era bonita. Relatos verbais eram abundantes (um deles disse que ela superou a duquesa de Milão, como sol dourado faz com a lua de prata). Ana era ‘alta e delgada, de mediana estatura, e de porte seguro e resoluto.’

Tinha sido difícil para Wotton, um enviado inglês ver sua face por causa de seu volumoso toucado, mas quando se queixara disso, o ingênuo chanceler dela lhe perguntara com um rude bom humor: ‘Quereis então vê-la nua?’ Wotton não desejava perturbar ‘os seus costumes doces e modestos’, dos quais dera fiel notícia a Henrique. Mas o rei precisava de algo mais, e queria um retrato de Ana.

Houve promessas de retratos que seriam enviados para Inglaterra, mas como o pintor do Duque da Saxônia – Lucas Cranach, pai – estava doente, Holbein foi contrato e partir em agosto de 1539 em sua terceira missão em busca do quarto casamento de seu senhor. Ele chegou a Duren, com as despesas já pagas, inclusive 13 libras, 6 xelins e 8 pence ‘para os preparativos das coisas que ele deva levar com ele’. Foi levantado a hipótese que isso significaria que Holbein foi colocado na rara posição de pintar ao vivo, ao invés de fazer esboços que seriam transformados em pinturas depois, com a ajuda de uma excelente memória. Holbein voltou à Inglaterra em fins de agosto e seus trabalhos foram mostrados ao rei em Grafton, onde ele se achava durante uma viagem oficial de verão.

A história se fez assim: Holbein pintou um belo quadro de Ana de Cleves, e sua arte se fez bela em si mesma. A imagem deu ao rei características harmônicas que o fez se apaixonar. A alemã de Holbein é retratada com cores sutis e régias, com um rico veludo vermelho e dourado. Ana de Cleves, por Hans Holbein, em 1539.No entanto, você não pode realmente dizer que ele está elogiando Ana de Cleves – ele está enfatizando suas roupas e jóias, deixando explícito que ele está mostrando alguém no seu melhor. Seu rosto é bonito, mas seus olhos são sem graça – isso não é Holbein respondendo às idéias renascentistas de beleza, mas Holbein fazendo o seu melhor para equilibrar honestidade e decoro. O pintor estava em uma posição muito complicada: precisava retratar Ana como realmente era, mas sem ofender seus conterrâneos, ele precisava exercer diplomacia e tato, e teria que mostrar os resultados de rápidas sessões a oficiais estrangeiros.

Tem-se feito muitas conjecturas em redor do retrato de Ana, da autoria de Holbein. Diz-se que o pintor se apaixonou por ela e, consequentemente, a pintou com os olhos apreciadores do enamorado; diz-se também que ele foi subornado para a fazer parecer bonita no retrato… por uma ou mais pessoas interessadas na união da Inglaterra com a Liga dos Príncipes Protestantes, e há também quem afirme que ela era de fato tão atraente quanto parece na pintura, mas que Henrique era horrivelmente exigente.

(HAMILTON, 1973)

Holbein era um homem de grande talento. Seus melhores retratos são simplesmente espantosos, muito bem compostos e possuindo grande insight psicológico. Olhando o infame retrato de Ana, é lógico que Holbein estava mais fascinado com o bordado do vestido do que com a personalidade de Ana. Seus olhos são abatidos e suas características perdidas sob os enfeites ornamentados do seu vestido e toucado.

O historiador David Starkey argumenta que não existe nenhuma evidência real de que o retrato de Holbein influenciou a decisão de Henrique para se casar com Ana de Cleves. Não há registros de sua reação a ele. Ao invés disso, afirma Starkey, foi o testemunho verbal de cortesãos influentes que convenceram o rei a se casar com Ana de Cleves.  Após ver Ana pela primeira vez, Henrique observou tristemente: ‘Eu não vejo nada nessa mulher daquilo que me contaram e admiro-me de que homens inteligentes tenham podido mandar-me notícias como as que recebi.’

Ana de Cleves, por Hans Holbein, em 1539.Eu tinha sido enganado, traído. Todas aquelas pessoas que a tinham visto – todos aqueles enviados que tinham estado com ela, que tinham ajustado o casamento -, todos eles sabiam. Sabiam, e nada disseram. Sabiam, e tinham me induzido deliberadamente àquele casamento. Eram todos cúmplices naquilo, Cromwell, Wotton, o Duque de Cleves, Lorde Lisle e todo o pessoal de Calais. E Holbein! Holbein, que era capaz de captar com seu pincel as mais sutis características de um rosto; Holbein, para quem nenhuma pele era sedosa o bastante, nenhuma tez difícil de reproduzir, nenhuma jóia facetada demais para ser perfeitamente retratada – Holbein a tornara bonita!

(GEORGE, 1993)

Não há razão para acreditar que houve uma repulsa imediata. Somente depois da noite de núpcias que o rei declarou que não poderia consumar o casamento, e então se espalhou a notícia de seu desgosto físico pela rainha. Quando Cromwell perguntou-lhe na manhã seguinte se o rei tinha gostado da rainha, Henrique replicou: ‘Eu não tinha gostado dela antes, mas agora gosto menos ainda.’

Isso deixa uma pergunta óbvia: como Holbein escapou dessa? Se sua pintura seduziu o rei só para que ele fosse desiludido mais tarde, porque Holbein não foi barbaramente punido?  Wotton, em seu relatório, confirmara que Holbein, considerado de modo geral mestre dos quadros ‘vivos’ e fiéis (e não do bajuladores) de sua época, captara realmente muito bem a ‘imagem’ de Ana. Se Ana de Cleves não era bonita, as informações possivelmente exageradas tinham vindo dos diplomatas, de modo que os enviados eram os verdadeiros culpados, e não o pintor.

Uma coisa fascinante sobre outros retratos de noivas potenciais de Henrique VIII é que eles seguiam os ideais clássicos e se tornaram uma questão política. A diplomacia internacional se misturou com a linguagem visual da arte, de modo que Holbein simplesmente retratou-a como qualquer pintor da época faria: uma mulher modesta, elegante, calmamente capaz, de uma beleza renascentista.

Existe um boato de que Henrique ficou tão enfurecido com a obra, acreditando que Holbein o tinha deliberadamente enganado com um falso retrato, que demitiu o pintor. Mas isso não é verdade. Na época, houve algumas observações que ela não parecia exatamente como o retrato, mas isso podia ser explicado. Ela não chegou à Inglaterra após uma longa viagem, e talvez o sol tivesse atingido sua pele? Talvez o nervosismo sobre o casamento tivesse causado alguma alergia ou mudança em sua aparência. Não podemos saber, mas sabemos que os embaixadores de Henrique, conscientes dos desejos de seu mestre, permitiram que o retrato fosse enviado para o rei, pois tinham uma semelhança justa com Ana. Será que eles se atreveriam a enganar seu monarca de  tal maneira? Não é provável. Mesmo o próprio Henrique não fez comentários sobre a suposta diferença entre a pintura e a Ana, além do comentário de que ela não era parecida com os relatos. Holbein continuou a  receber encomendas da aristocracia inglesa até sua morte por peste, em 1543.

Bibliografia:
HAMILTON, Julia. ‘Ana de Cleves’. Tradução de M. M. Ferreira da Silva – Lisboa: Edições Dêagá, 1973.
GEORGE, Margaret. Autobiografia de Henrique VIII. Tradução de Maria Luiza X. de A. Borges. – Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1993.
JONES, Jonathan. ‘Did Holbein engineer a royal wedding?‘. Acess: 01 jul 2013.
FRASER, Antonia. As Seis Mulheres de Henrique VIII. Tradução de Luiz Carlos Do Nascimento E Silva. Rio de Janeiro: BestBolso, 2010.
Anne of Cleves‘. Acess: 01 jul 2013.

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5 comentários sobre “Será que Holbein maquinou o casamento de Henrique VIII e Ana de Cleves?

  1. Eu, particularmente acredito que Ana era sim muito bonita… E que Enrique que era exigente de mais.rsrs

  2. Eu acredito que ela era bonita sim, mas que ele antipatizou com ela à primeira vista, pq ela não o reconheceu quando ele foi fazer uma surpresa pra conhecê-la quando ela chegou na Inglaterra…

  3. Eu também acredito que ela era bonita e que Henrique “xaropou”! Ou que as diferenças culturais tornaram-se um incômodo e causaram grandes constrangimentos, resultando nos acontecimentos.

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