Coroação de Maria Tudor, a primeira rainha reinante da Inglaterra

Coroação de Maria I, na série Elizabeth RA coroação de Maria Tudor foi extraordinária quando consideramos quantos problemas ela enfrentou para chegar ao trono. Mas houve outra razão para sua importância – foi a primeira coroação de uma rainha reinante na Inglaterra.  Matilda, filha de Henrique I, lutou em vão no trono no século XII e Jane Grey foi proclamada rainha em julho de 1553, mas não foi oficialmente ungida como soberana.

Desse modo, Maria foi a primeira mulher na história inglesa coroada rainha em seu próprio direito. Isso naturalmente levantou problemas. Todos esperavam um homem para cumprir o papel de reinante, e a existência de uma rainha levantou uma série de dúvidas sobre a extensão de seu poder, quanto poder o seu marido deveria ter e etc. E a própria coroação foi obrigada a ser diferente. Judith Richard em seu artigo ‘ Mary Tudor as ‘Sole Quene’?: Gendering Tudor Monarchy (1997) nota que o relatórios sobre a coroação são contraditórios. 

Um contemporâneo notou que ela estava com um vestido de veludo azul com arminho. Outro afirmava que ela usava um vestido branco e os cabelos soltos para enfatizar sua virgindade, enquanto outro registra que seu cabelo estava preso e adornado com jóias. Essas divergências podem parecer triviais, mas Richards levanta um ponto interessante quando nota que as diferenças nos dizem muito sobre as incertezas sentidas pelos contemporâneos assistindo a coroação. Eles estavam testemunhando algo nunca visto na Inglaterra – a coroação de um governante do sexo feminino, e parece que ninguém concordava sobre de que modo Maria deveria se apresentar, ou seja, se ela deveria se vestir do mesmo jeito e das mesmas cores que um rei em sua procissão de coroação (ou seja, veludo azul ou roxo) ou seguir o estilo de uma rainha consorte (usando branco e os cabelos soltos). Evidentemente, o dia foi intrigante e excitante. As celebrações da coroação duraram vários dias.

No dia 28 de setembro de 1533, Maria mudou-se para a Torre de Londres, onde o monarca tradicionalmente residia antes de sua coroação. Ela viajou para lá em uma barcaça decorada acompanhada por sua meia-irmã Elizabeth, e havia música e canhões para saudá-la durante o caminho.

A procissão aconteceu em 30 de setembro, começando por volta das duas horas da tarde. Como Freda Winifred descreveu, Maria  passou por Fenchurch, Gracechurch, Cornhill, Cheapside, St. Paul’s Churchyard, Ludgate e Fleet Street em seu caminho para o Palácio de Whitehall. Viajando com Maria, estava Elizabeth e uma de suas madrastas, Ana de Cleves, enfatizando sua solidariedade familiar. A procissão foi um momento em que o público pode mostrar a sua aclamação para com sua nova monarca.

Todo o cortejo de Maria parece ter sido recebido fantasticamente, incluindo encenações. Em uma delas, florentinos comparavam Maria com Judith, que triunfou sobre Holofernes (que representava o Duque de Northumberland). Durante a procissão, Maria exibiu-se como uma rainha consorte faria em sua coroação, o que indica que ela entendeu as semelhanças entre seu papel e uma consorte. A idéia de uma rainha reinante apegada a seu reino provoca instantaneamente a imagem de Elizabeth I, que famosamente declarou que já havia se casado com o reino da Inglaterra. Apesar da decisão posterior de Maria em se casar, ela também acreditava que estava em uma importante união com seu país, que não poderia ser afetada por um casamento.

Ao contrário da consorte, cujo papel era dependente de seu marido, Maria estava determinada a enfatizar sua própria autoridade e isso pode ser visto na sua cerimônia de coroação, quando Maria conseguiu garantir uma cerimônia católica para si, apesar do fato do país ser, pelo menos oficialmente, separado da Igreja Católica e que o Arcebispo de Canterbury  fosse um dos defensores mais notáveis e dedicado com a reforma religiosa no país.

Coroação de Maria I, na série Elizabeth RNo final das contas, no dia 1 de Outubro Maria usou um vestido de veludo azul debruado de arminho branco com uma saia roxa, uma coroa em sua cabeça e seus cabelos soltos. Observadores afirmaram que ela usava tantas jóias que seu valor era inestimável, e  que ela teve que segurar a cabeça com as mãos em alguns momentos, devido ao peso. A cor do vestido e seu significado foi observado por seus contemporâneos. Maria escolheu as cores usados por monarcas masculinos em sua coroação, ao invés de adotar as cores tradicionais das rainhas consortes. Maria não era uma rainha consorte, e nem gostaria de se apresentar como tal. Ela era uma monarca por seu próprio direito e, para ilustrar sua autoridade, ela escolheu ser coroada como um rei.

Maria estava em uma carruagem dourada, que percorreu as ruas ornadas de tapeçarias. Fontes jorravam vinho e crianças cantaram hinos. Em uma segunda carruagem estava a princesa protestante, Elizabeth, acompanhada de Ana de Cleves. Atrás dessa carruagem vinham 46 damas da corte e do país, a pé e vestidas com sua melhor roupa. Logo atrás vinha uma procissão de oficiais da corte, toda a pequena nobreza e funcionários.

Nem todos  protestantes fugiram do país e exilaram-se na França, a inimiga tradicional da Inglaterra, que os recebeu amistosamente. Membros do Conselho estavam ausentes, provavelmente envergonhados pela forma que a trataram antes, outros eram protestantes que se recusavam a servi-la e outros tiveram o decoro de ficar em casa, em suas abadias convertidas. Mas o resto da corte, da cidade, do país compareceu aos milhares para saudar a nova rainha, cujos direitos tinha defendido contra protestantes, a rainha católica cuja fé entusiástica eles conheciam.

É importante lembrar que Maria não tinha precedentes para dizer a ela como uma rainha inglesa reinante deveria ser coroada, de modo que ela formou seu próprio padrão. Ela estava dizendo que, apesar de seu sexo, ela governaria com a mesma autoridade que seus antecessores masculinos. Havia outro motivo por trás de sua ênfase no poder: tecnicamente, Maria tinha herdado o trono como uma bastarda real. Seu pai a tinha tornado ilegítima, apesar de estar na linha de sucessão e seu direito de governar fosse apoiado por uma maioria esmagadora. Detail of Queen Mary from the Plea Rolls of Kings Bench, 1554. A adesão de um indivíduo ilegítimo, mesmo cujo direito de suceder havia sido confirmado pelo parlamento, era sem precedentes.

Embora tivesse recebido apoio, ela entendeu que seu estado ilegítimo poderia ser usado contra ela – de fato, foi usado pelos apoiadores de seu irmão e os de Jane Grey. Maria retificiou esse fato passando uma lei parlamentar que declarava que seus pais haviam sido legalmente casados. Mas isso ocorreu após sua coroação, de modo que ela foi coroada ilegítima, algo que ela considerava pessoalmente injusto. Portanto, suas tentativas de reforçar sua autoridade eram para desafiar o julgamento de seu pai, seu irmão e também aqueles que estiveram do lado de Jane Grey.

Maria estava determinada a ser coroada ‘de acordo com as tradições antigas’, como oposição à maneira protestante que Eduardo VI tinha sido coroado. De acordo com o embaixador imperial, Simon Renard, ‘os bispos e padres estavam com trajes canônicos completos’, que era um afastamento do ataque as ricas vestes dos clérigos feitas anteriormente. Maria não quis ser ungida com os óleos utilizados na coroação de seu irmão, argumentando que tinham sido corrompidos pela sua utilização em uma cerimônia protestante. Desse modo, ela escreveu para o bispo de Arras em Bruxelas para um novo suprimento de óleo santo.

Anos mais tarde, quando Elizabeth estava preparando sua própria coroação, ela se queixou de que os óleos usados por Maria estavam gordurosos e cheiravam mal. Eles podem de fato terem estragado, ou talvez Elizabeth estava arrancando a última página do livro de sua irmã e removendo todos os elementos que estavam conectados com o antigo regime.

Houve rumores que Maria recusou-se a se sentar no trono de coroação porque seu irmão protestante tinha usado-o em sua coroação, mas isso é falso. Mudar o óleo é uma coisa, mas opor-se a usar uma cadeira que foi usado por todos os monarcas antes de Eduardo certamente era uma coisa que ela não faria. Como foi dito anteriormente, Maria queria enfatizar seu direito a reinar e governar, assim com os reis antes dela. Remover um elemento tão vital quanto a cadeira na cerimônia de coroação era impensável.

No início da cerimônia, duas nobres levaram Maria para todos os lados de um estrado para que todos pudessem vê-la. O homem que presidiu a cerimônia e a coroou era o conservador religioso Stephen Gardiner, Bispo de Winchester, que Maria fez Lorde Chanceler. Um sermão foi feito por George Day, Bispo de Chichester, que apelava à população a ser obediente a sua soberana. Maria, em seguida, ajoelhou-se em frente ao altar, prometendo que ela sempre defenderia seu súditos e administraria a justiça em suas terras.

Ela, então, fez um juramente, embora haja ambiguidade em seu texto. De acordo com Anne Whitelock, Maria temia que o juramento de coroação fosse adulterado a fim de fazê-la afirmar que ela prometia defender a fé atual na Inglaterra (portanto, a Igreja Protestante da Inglaterra). Assim, ela acrescentou o termo ‘justiça e leis lícitas’ no juramento, indicando que ela defenderia apenas as leis que ela considerava lícita. Nesse sentido, ela não era obrigada a manter a Igreja de seu irmão e seu pai, e tinha flexibilidade em instituir seus objetivos religiosos.

Acompanhada de suas damas, Maria foi ungida com óleo santo em seus ombros, peito, esta e têmporas por Gardiner. Com suas vestes de estado, Maria recebeu a espada, o cetro e o globo, e foi coroada com uma Coroa de Eduardo e, em seguida, com uma coroa feita especialmente para ela (a qual poderia ter sido usada posteriormente por Elizabeth).  Anne Whitelock observa que esta coroa feita especialmente era uma ‘grande, mas simples coroa projetada com dois arcos, uma grande flor-de-lis e cruzes proeminentes’. O manto de veludo carmesim foi então colocado sobre seus ombros e ela se sentou na cadeira da coroação, com o nobres prestando homenagens à sua nova rainha. Elizabeth, que havia segurado a cauda do seu manto, foi a primeira a ajoelhar-se e jurar fidelidade.

Havia limites para as tentativas de Maria de ter sua coroação assemelhada com a de um rei. Um monarca masculino deveria vestir as esporas cerimoniais, mas isso era considerado impróprio para uma rainha, de modo que Maria apenas as tocou. Depois, houve a questão de fazer novos Cavaleiros do Banho. Era tradicional que o monarca criasse novos cavaleiros no momento da coroação, e isso envolvia uma cerimônia na qual os cavaleiros estariam nus mergulhados em uma banheira, e o monarca beijaria seus ombros. Mas, como observa Renard, ‘por a rainha ser uma mulher, a cerimônia foi realizada pelo Conde de Arundel, o Grande Mestre da Casa’. Foram feitos 15 novos Cavaleiros do Banho, incluindo o jovem Conde de Surrey (Thomas Howard, mais tarde 4º Duque de Norfolk) e William Courtenay, Conde de Devon, que era um candidato a noivo de Maria. Alguns desses homens eram aliados leais, incluindo William Dormer, pai de uma das damas mais confiáveis de Maria – Jane Dormer. É importante ressaltar que a maioria eram conservadores religiosos (como Dormer). É evidente que Maria estava oferecendo uma amostra do que estava por vir.

Toda a cerimônia durou cerca de cinco horas – das onze da manhã às duas da tarde. Imediatamente após a cerimônia, Maria participou de um suntuoso banquete de coroação,onde foi acompanhada por sua meia-irmã Elizabeth e Ana de Cleves. Em geral, o dia ocorreu sem problemas, apesar da notável ausência do Arcebispo de Canterbury. Enquanto Maria estava sendo ungida como primeira rainha reinante da Inglaterra, Thomas Cranmer estava na Torre, preso por seu envolvimento na tentativa de colocar Jane Grey no trono. Houve, naturalmente, outra razão para sua prisão: ele notavelmente compartilhava alojamentos com uma série de outros clérigos protestantes. Coroação de Maria I, no filme The Twisted Tale of Bloody Mary  Do ponto de vista de Maria era absolutamente inconcebível que ela fosse coroada por esse homem, e no final ela conseguiu orquestrar sua ausência e substituí-lo pelo Bispo Gardiner (que tinha sido preso no reinado de Eduardo VI).

A coroação de Maria foi um momento de triunfo e genuína celebração. No entanto, após as festividades, Maria enfrentou a difícil tarefa de viver segundo a imagem que criou para si mesma – a de uma rainha independente que reinaria como qualquer homem havia feito antes. Ela enfrentaria problemas significativos, mesmo sendo objeto de uma crítica condenatória contra o domínio feminino. Mas, em geral, ela fazia com que todos soubessem quem realmente mandava. Não se podia esperar menos de uma Tudor.

Bibliografia:
Mary’s Coronation‘. Acesso em 02 de julho de 2013.
GREGORY, Philippa. O bobo da rainha. Tradução de Ana Luiza Borges, 2º Edição. Rio de Janeiro: Record, 2010.
Mary’s Coronation’. Acesso em 02 de julho de 2013.

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4 comentários sobre “Coroação de Maria Tudor, a primeira rainha reinante da Inglaterra

  1. “Não se poderia esperar menos de uma Tudor”, frase significativa em função do reinado de seu pai de sua irmã, mas que para a Bloody Mary atinge uma conotação ainda mais monstruosa.

  2. Apesar de tudo foi muito gratificante para Maria ter sido rainha reinante da Inglaterra.acho que ela só pensava em sua mãe e na injustiça que o pai dela cometeu largando-a por Ana bolena.

    • É verdade que foi injustiçada, mas não justifica o reinado de terror em seus parcos 3 anos em que foi rainha, motivo que a história a denominou de Maria Sanguinária.

  3. Concordo. O fanatismo religioso marcou tanto seu reinado como o reinado de seu irmão Eduardo. Elizabeth I conseguiu ser mais esperta e, tolerar as duas religiões preservando lógico a sua que já estava mais que implantada na Inglaterra, o que sua irmã não conseguiu enxergar.

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