O romance de Elizabeth de York e Ricardo III

'The White Queen', 2013Na série ‘A Guerra dos Primos’, de Philippa Gregory, Elizabeth de York se apaixona pelo rei Ricardo III enquanto serve de dama de companhia para a rainha Anne Neville. Como acontece em todos os livros de Gregory, os enredos são colhidas aleatoriamente mas são baseadas em alguma coisa que ela interpretou para fazer uma boa história.

É verdade que os rumores de um caso amoroso existiram na época. Após a morte de Anne Neville em março de 1485, surgiram rumores de que o rei pretendia se casar com sua sobrinha, Elizabeth. Apesar de um casamento entre tio e sobrinha não ser estritamente proibido pela Igreja, teria causado muita revolta entre seus conselheiros. Os homens mais confiáveis de Ricardo, Ratcliffe e Catesbury o alertaram de que, se tomasse a decisão de se casar com Elizabeth, ele perderia o apoio dos nortistas e iria parecer que Ricardo causou a morte de sua esposa para se casar com Elizabeth. Doze teólogos foram convocados pelo Parlamento para apresentarem suas objeções e Ricardo negou publicamente a acusação. A Croyland Chronicle (às vezes chamada Crowland Chronicle), uma importante, mas nem sempre precisa fonte primária escrita na Abadia Benedict de Croyland em Lincolnshire diz que Ricardo foi forçado a negar os rumores por seus inimigos, os Woodville, quem ele temia estarem voltando ao poder.

Ricardo declarou na frente do prefeito e todos os senhores poderosos de Londres que nunca teve a intenção de casar com sua sobrinha, escrevendo ainda para outras pessoas falando de sua repulsa sobre esse boato malicioso. Uma negação pública certamente é pouco para estabelecer culpa ou inocência, mas isso é certamente novo vindo de um homem que ficou em silêncio sobre o destino de seus sobrinhos. No entanto, o abismo entre as declarações públicas e o sentimento privado só pode ser imaginado. 


A história continuou mesmo após a morte dos dois. George Buck, que trabalhava na corte de James I, afirmou em 1619 que tinha visto uma carta que Elizabeth escreveu para seu tio, Duque de Norfolk, que indica que ela era uma participante voluntariosa de uma aliança de casamento com Ricardo. Elizabeth queria que seu tio ‘fosse um mediador em sua causa [o casamento] com o rei que (ela escreveu) era sua única alegria no mundo, e que ela era sua em coração, em pensamentos, e em tudo, e que ela insinuou isso na metade de Fevereiro passado, e que ela temia que a rainha nunca morreria’.

Infelizmente, esta carta não existe e não existe nenhuma maneira de saber o quão preciso George estava sendo em suas lembranças ou quão corrupto seu manuscrito tornou-se, uma vez que foi editado posteriormente. Também não podemos ter certeza se Elizabeth estava definitivamente pedindo ajuda para se casar com Ricardo, ainda não viúvo, ou pedindo a ajuda de Ricardo para arranjar um casamento para ela com outra pessoa. Há evidências de que, depois da morte de Anne Neville, Ricardo começou a negociar uma aliança de casamento conjunta com João II de Portugal, onde Ricardo se casaria com sua irmã, Joanna, e Elizabeth se casaria com seu primo, o futuro D. Manuel I. Isso não foi feito simplesmente ao acaso: Ricardo estava tentando jogar contra Henrique Tudor em seu próprio jogo. Philippa, filha de John de Gaunt, Duque de Lancaster e irmã de Henrique IV, primeiro rei Lancaster, tinha se casado na família real portuguesa, de modo que o sangue Lancaster corria por lá, mais forte e mais legítimo do que nas veias de Henrique Tudor. Ricardo estava tentando atrair o apoio Lancaster, assim como Henrique casou com Elizabeth de York, para atrair o apoio da casa de York.

Parece extraordinário, no entanto, que de todos os homens Elizabeth se apaixonaria por seu tio, o homem que havia declarado inválido o casamento de seus pais, fazendo com que ela e todos seus irmão fossem declarados bastardos e que, durante seu reinado, seus dois irmãos mais jovens desapareceram misteriosamente enquanto estavam sob a tutela dele. Além disso, sendo bastarda, dificilmente Elizabeth seria uma mulher apropriada para o rei. Henrique VII assegurou que este obstáculo fosse oficialmente removido ao casar-se com ela. A aprovação do Papa também teria sido necessária, e parece duvidoso que ele concedesse uma despensa para tal relação.

Ricardo morreu na Batalha de Bosworth Field e Henrique VII esperou cinco meses para se casar com Elizabeth. Isso serviu para alimentar rumores de que Henrique estava esperando para ver se Elizabeth não estava grávida de Ricardo. Sabe-se, no entanto, que a demora no casamento deveu-se ao desejo de Henrique de governar em seu  próprio direito, pois ele não toleraria acusações de que detinha o poder em virtude do sangue de sua esposa.'The White Queen', 2013

As evidências para provar ou refutar os sentimentos de Ricardo para com sua sobrinha são escassos. O ar de desconforto e desconfiança em torno do suposto romance entre os dois é óbvio, mas a prova em torno disso é circunstancial, pois a suposta carta escrita por Elizabeth pode ou não ter existido. É muito improvável, no entanto, que  Ricardo tivesse a intenção de se casar com sua própria sobrinha, uma filha ilegítima de uma mulher que ele considerava sua inimiga. Essa alternativa poderia ter passado pela sua cabeça como uma forma de evitar que qualquer pessoa, incluindo Henrique Tudor, se casasse com ela, mas a sua solução parece ter sido buscar um casamento para ela em uma família real estrangeira.

Bibliografia:
LEWIS, Matt. ‘The Real White Queen? A Defence Of King Richard III‘. Acesso em 13 de outubro de 2013.
Elizabeth of York & Richard III‘. Acesso em 13 de outubro de 2013.
Was there a romance between Richard III and Elizabeth of York?‘. Acesso em 13 de outubro de 2013.

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8 comentários sobre “O romance de Elizabeth de York e Ricardo III

  1. Então quer dizer que só aconteceu após a morte de Anne e não durante a vida dela como mostra na série? se for assim, eu fico aliviada…porque eles formal um casal tão lindo!

  2. Ele abusou dela e depois a deixou…ele sumiu com os irmãos dela…Não sei como ela foi capaz de gostar dele. Se for verdade mesmo…

  3. houve comentarios de casamento e não de “caso amoroso”, casamento na epoca medieval e realeza tinha pouca coisa a ver com amor. Essa mania de colocar sentimentos modernos em alianças medievais é um exagero. Sem contar que o proprio casamento seria ridiculo e Ricardo seria muito idiota para casar com uma bastarda. Autores modernos fazem essas afirmações só para vender livros. sexo vende. e só.

    • O fato de Elizabeth supostamente ter escrito que Ricardo ‘era sua única alegria no mundo, e que ela era sua em coração, em pensamentos, e em tudo’, mostra que seria sim um relacionamento amoroso. O fato de que ele precisou se pronunciar oficialmente a respeito mostra que os rumores tinham força na época. Mas na verdade, nenhum romance mostra que Elizabeth e Ricardo poderiam ter qualquer relação sexual. Além disso, a questão da bastardia de Elizabeth é complicada: se Ricardo legitimasse ela e sua família, ele mesmo colocaria a sua legitimidade em risco. Tanto é que depois que Henrique VII ascendeu ao trono ele ‘legitimou’ todos os filhos de Eduardo V – o que foi um risco para ele também, já que depois disso surgiram diversos rapazes afirmando serem os ‘Príncipes na Torre’ que daí sim teriam mais legitimidade do que o rei Tudor.

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