A cesariana da rainha

A morte de Jane Seymour, por Eugene Deveria.Quando o futuro Eduardo VI nasceu em 1537 houve muita alegria – para seu pai, o rei Henrique VIII, o nascimento de um filho era especialmente importante. A alegria do nascimento foi ofuscado pela tragédia da morte da mãe da  criança, Jane Seymour.

A gravidez da rainha tinha sido anunciada em fevereiro de 1537 e ela experimentou uma gravidez sem problemas, até o momento em que entrou no trabalho de parto. O nascimento da criança foi longo e difícil, demorando dois dias e duas noites para a criança nascer. O parto foi finalmente feito às duas horas da manhã do dia 12 de outubro. 

Jane foi capaz de sentar-se e cumprimentar os convidados antes do batismo do bebê, em 15 outubro em Hampton Court. Dois dias depois, sua saúde deteriorou seriamente e ela recebeu a extrema-unção. Em 24 de Outubro, Jane estava morta. Após o nascimento de Eduardo e, especialmente após Jane ter morrido, começaram a circular boatos de que a rainha tinha sofrido uma cesariana.

Nicholas Harpsfield, um escritor católico no final do século XVI, afirmou que Eduardo foi ‘tirado do ventre de sua mãe’, enquanto John Hayward, um biógrafo de Eduardo VI do século XVII, escreveu que ‘o corpo de Jane Seymour foi aberto para o seu nascimento e que ela morreu por causa da incisão no quarto dia seguinte’.

A sugestão de que o único varão legítimo de Henrique VIII – um menino que se fez liderar por uma doutrina protestante na Reforma na Inglaterra e serviu como uma força motriz por trás do Livro Inglês de Oração Comum – nasceu de forma ‘não natural’, serviu como desejo de Harpsfield e Nicholas Sander em demonizar Henrique VIII e seus herdeiros não-católicos.  Sander, outro escritor católico, é muitas vezes creditado sobre a história da cesariana, mas ele escreve simplesmente que Henrique, ao ser dado a escolha de salvar seu filho ou a rainha, optou pelo filho.

Dessa crueldade, no entanto, o rei Henrique não foi culpado.

‘Por negligência daqueles que a cercavam’, escreveu Cromwell oficialmente a Gardiner, em Paris, ‘os quais permitiram que apanhasse frio e comesse tudo o que queria durante a sua doença, a Rainha está morta. O Rei, embora encare serenamente esta eventualidade, está pouco disposto a casar-se de novo’.

Também não há referência alguma a uma operação dessas nas detalhadas descrições do nascimento do príncipe feitas por altos funcionários da corte. Entretanto, o que deixa perfeitamente claro que nenhuma operação deste tipo foi feita é o fato de que a rainha Jane, longe de ‘dormir o sono da morte’, estava viva e suficientemente bem, depois do parto, para receber convidados depois do batizado da criança, três dias depois. Envolta em veludo e peles, ela foi colocada na antecâmara da Capela de Hampton Court, onde desempenhou o dever costumeiro da corte até muito depois da meia noite.

Henrique mesmo escreveu com dignidade a Francisco: ‘A Divina Providência uniu ao meu jubilo a amargura da morte daquela que me proporcionou esta felicidade’.

A tradição de que a rainha sofreu uma cesariana foi preservada em uma balada, ‘A morte da Rainha Jane’, encontrada em uma coleção de baladas publicada por editores do século XIX, que a ouviram ‘cantada por um jovem cigano’. Nela, a própria rainha exigia um cirurgião depois de ‘estar nos trabalhos de parto há seis semanas ou mais’. Essa versão é corroborada no romance ‘Jane Seymour’, de Frances B. Clark, onde Dr. Butts (o médico do rei) diz que a situação chegasse a tal ponto competiria ‘ao Rei fazer a escolha’. Na balada, a rainha já estava morta – ou moribunda – quando a operação foi realizada.

Jane Seymour por Henry Bone, em 1816.Ele lhe deu uma rica papa,
Mas o sono da morte ela dormia
E então seu lado direito foi aberto
E a criança foi libertada.

A criança foi batizada
E levada e tratada
Enquanto a real rainha Jane
Jazia fria na terra.

Por causa de sua elevada posição social, talvez possamos supor que Jane era uma jovem relativamente em forma e bem nutrida. É muito provável que as complicações que levaram à sua morte foi causada pelo trabalho de parto difícil e, especialmente, pelo tempo que ela levou para dar à luz.

A causa mais provável do longo trabalho de parto seria que o bebê não estava bem posicionado no útero – o que torna mais difícil para uma mulher dar à luz. O útero é o músculo que faz o trabalho de empurrar o bebê para fora, e depois de um longo período ele pode se esgotar e, após isso, é provável que a placenta que envolve o bebê não seja completamente expelida. Mesmo um pedaço remanescente de placenta do tamanho de uma unha pode ser o necessário para causar uma infecção.

Outros problemas seriam causados pelo fato que, internamente, Jane poderia ter ficado com feridas. Ela teria tido muita dor, perdido muito sangue e estaria fisicamente e mentalmente exausta. Neste estado físico, ela estaria mais propensa a infecções, uma vez que seu corpo seria menos capaz de combatê-lo. A presença de tecidos e mãos sujas, durante e após o trabalho de parto seria uma causa muito suscetível de infecção.

Á luz dos fatos, Jane não passou por nenhum tipo de cirurgia, pois ela viveu quase duas semanas após o nascimento de seu filho. Naqueles dias, a cesariana era uma sentença de morte imediata, e não era tolerada por qualquer católico ou pela nova Igreja, pois consistiam em fazer uma escolha entre a vida da mãe e a vida da criança. Qualquer pessoa que fizesse tal escolha seria culpado de assassinato. A cesariana só era utilizada nos casos em que a mãe estava morta, ou quando havia uma chance de que a criança ainda estivesse viva. Se Jane tivesse sofrido uma cesariana, ela teria sangrado até a morte em poucos minutos.

Miniatura de Jane Seymour do século 18, por artista desconhecido.Provavelmente com cerca de 29 anos de idade na época, Jane Seymour foi rainha da Inglaterra por pouco menos de dezoito meses. De todas as muitas ironias do reinado de Henrique VIII, talvez essa é a mais gritante: depois de tudo que Catarina de Aragão e Ana Bolena foram submetidas por causa de seu ‘fracasso’ ao produzir um filho, Jane Seymour viveu menos de duas semanas para desfrutar de seu favor após atingir o grande triunfo biológico que havia escapado a suas duas antecessoras.

Henrique pareceu lamentar genuinamente a morte de Jane, e permaneceu solteiro por mais de dois anos. Foi nessa época que sua saúde começou a falhar seriamente e ele tornou-se muito gordo e irritável. Mais tarde, durante seu casamento com Catarina Parr, o rei quis ter um retrato ‘dinástico’, retratando seus pais, Henrique VIII, Elizabeth de York e sua rainha. Mas a mulher na pintura não é Catarina Parr, e sim Jane Seymour.

Bibliografia:
HACKETT, Francis. Henrique VIII. Tradução de Carlos Domingues. – São Paulo: Pongetti, 1950.
FRASER, Antonia. As Seis Mulheres de Henrique VIII. Tradução de Luiz Carlos Do Nascimento E Silva. Rio de Janeiro: BestBolso, 2010
WALSH, Andrew. ‘The death of Jane Seymour – a Midwife’s view‘. Acess: 13 jul 2013.
EAKINS, E. Lara. ‘Jane Seymour c-section‘. Acess: 13 jul 2013.
RUSSEL, Gareth. ‘October 24th, 1537: The death of Jane Seymour, Queen of England‘. Acess: 13 jul 2013.
Tudor Myths and Misconceptions‘. Acess: 13 jul 2013.
Jane Seymour Controversies‘. Acess: 13 jul 2013.

Anúncios

7 comentários sobre “A cesariana da rainha

  1. Você saberia dizer qual é o retrato dinástico? lembro que em The Tudors aparece uma cena exatamente assim! rs

    • Na verdade existem dois quadros que retratam a família de Henrique VIII e em ambos a esposa do rei é Jane Seymour. Um deles é ‘Henry VII, Elizabeth of York, Henry VIII and Jane Seymour’, feito por Hans Holbein em 1537. A pintura, feita numa parede, foi destruída quando o Palácio de Whitehall pegou fogo em 4 de Janeiro de 1698. Em 1675, Remigius van Leemput recriou o quadro em óleo sobre tela, e este quadro que podemos ver hoje:

      Também existe o quadro ‘The Family of Henry VIII’, feito em 1545 por um artista desconhecido, que retrata Henrique VIII, com Jane Seymour ao seu lado e Eduardo, Maria e Elizabeth.

      • Ah! Interessante! Então é dai que se tira os famosos retratos de cada personagem que conhecemos! Obrigada por me mostrar! :D

  2. Já li um estudo que fala que a morte de Jane foi devido a infecção pós-parto e que esse problema era costumeiro na Inglaterra dessa época, a ponto de ser um dos motivos de a Rainha Elisabeth não ter casado se casado, pois tinha receio de morrer em um possível parto.

  3. As linhas são tortas, mas, certamente, as mãos são perfeitas! A emoção é inevitável! Sempre que venho a este site e leio sobre essa história, eu sinto que, por mais confusa que a vida possa nos parecer, ela tem um grande propósito neste ciclo de tantas idas e vindas! Descanse em paz, Jane!

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s