O unicórnio mágico de Elizabeth I

'The Lady and the Unicorn', parte de uma tapeçaria de seis peças. Feitas entre 1484 e 1500.No século 16, os marinheiros de Elizabeth I eram como meninos em uma excursão em um vasto campo, tentando encontrar as mais belas flores silvestres para dar à sua mãe rainha. Francis Drake, John Hawkins, Humphrey Gilbert, estavam todos na maior corrida de suas vidas para encontrar as melhores rotas comerciais e os mais ricos tesouros para levarem para sua casa, a Inglaterra.

Em 22 de julho de 1577, o marinheiro Martin Frobisher encontrou o Santo Graal dos tesouros quando ele desembarcou no Norte do Canadá e olhou para a Passagem Noroeste, através do Oceano Ártico. Lá, lavada por meio de margens geladas, um chifre longo e espiral meio enterrada na terra refletia os raios do sol como vidro. Este objeto estranho e branco era parte dos restos mortais de uma das mais belas criaturas mitológicas da cristandade, e de tão raro só poderia pertencer a uma Virgem. Frobisher tinha encontrado o chifre de um unicórnio. 

Nos tempos medievais, o unicórnio tornou-se um símbolo do cristianismo. A crença popular era de que os unicórnios nunca poderiam ser atraídos ou domesticados, exceto pelo cheio de uma virgem pura. As obras ‘The Lady and the Unicorn’ (também chamada de ‘Tapestry Cycle’, são uma série de seis tapeçarias flamengas, estimadas terem sido feitas entre 1484 e 1500) têm sido frequentemente interpretada como um símbolo de uma mulher renunciando a tudo no mundo físico para a maior importância do mundo espiritual.

A Rainha Elizabeth gostou tanto do chifre que este tornou-se parte das jóias da coroa, e é hoje conhecido como ‘O Chifre de Windsor’. Na época, chifres de unicórnio eram avaliados em dez vezes mais do que o ouro. O que pertencia a Elizabeth foi avaliado em 3.000 onças: dinheiro suficiente para comprar um castelo.

A fim de distinguir um chifre verdadeiro de unicórnio de uma falsificação, alguns testes elaborados eram feitos. Entre eles estavam:

  • Dar arsênicos para pombos comerem e em seguida dar uma dosa de chifre de unicórnio para eles: se eles vivessem, o chifre era real.
  • Desenhar um círculo com o chifre: se o chifre for real, aranhas não conseguiram ultrapassá-la.
  • Colocar o chifre em um balde de água fria: se a água borbulhar sem ficar quente, então o chifre é real.
  • Colocar escorpiões debaixo de um prato com um pedaço de chifre: se os escorpiões morrerem em questão de horas, o chifre é real.

Reis e rainhas bebiam em taças alinhadas com chifres de unicórnio ou molhavam a ponta dele em algum líquido para ver se este era venenoso. Quando um chifre de unicórnio entrasse em contato com veneno, este causaria bolhas na bebida, alertando quem quer que estivesse testando-o. Com a Espanha em sua garganta e a Rainha da Escócia cuspindo veneno de sua prisão, certamente podemos ver por que Elizabeth temia tentativas de assassinato.

Os chifres de unicórnio eram também conhecidos como uma cura para a indigestão. Alguns chifres eram moídos até virarem um pó fino e digeridos como antídoto para envenenamento. Outros eram ingeridos para aumentar a força e resistência sexual (o chifre de rinoceronte ainda é ingerido com essa finalidade em alguns países).

Chifres de unicórnio também eram usados nas Artes Negras. Dizem que Ivan, O Terrível previu o dia de sua morte usando os chifres: ele esculpiria um círculo em uma madeira e colocar aranhas dentro: se elas morressem, sua morte estava próxima. Há rumores de que ele morreu no mesmo dia em que as aranhas morreram dentro de seu círculo esculpido.

Isso pode soar muito ridículo hoje, mas chifres de unicórnio permaneceram na lista de ingredientes de boticário até 1741. Tanto é que os farmacêuticos medievais adotaram a imagem do unicórnio como seu símbolo. Neste ponto, em 1741, os médicos pediram para que chifres fossem eliminados da lista, pois era uma forma ultrapassada de medicina.

Mas é preciso saber, como toda a receita de cura que sobrevive há tantos séculos: existe alguma verdade nisso? Uma teoria é que muitos dos chifres que decoravam as mesas de reis e rainhas eram, na verdade, chifres de rinoceronte. Ao contrários de outros chifres de animais, o chifre do rinoceronte é 100% queratina, e quando entra em contato com algum veneno alcalino (arsênico, por exemplo), ele produz bolhas.

O chifre de unicórnio de Elizabeth é mais provável ter vindo da presa de um narval, mas este poderia detectar veneno? Essa questão é um mistério até hoje. A presa do narval é engraçada: é um dente longo em espiral, crescendo para fora de seu maxilar superior. Pesquisas atuais descobriram que a presa é um órgão sensorial com mais de 10 milhões de terminações nervosas, que podem detectar mudanças de temperatura, pressão, e até mesmo concentrações salinas em seu ambiente – então é possível que ele seja sensível o suficiente para detectar algumas gotas de veneno em um copo de vinho.

Embora a existência real dessas criaturas nunca foi provada conclusivamente nos tempos modernos, muitas pessoas acreditam nestas criaturas míticas. Alguns até acreditam que unicórnios ainda podem existir em regiões remotas do mundo. Elizabeth I e todos os reis e rainhas da Europa podem ter visto o que a ciência moderna é rápida em desmentir – unicórnios são realmente mágicos.

Bibliografia:
BECCIA, Carlyn. ‘Elizabeth I’s Magical Unicorn‘. Acesso em 13 de Agosto de 2013.
Medieval Mystique: – The Lady & the Unicorn series‘. Acesso em 13 de Agosto de 2013.
The Unicorn‘. Acesso em 13 de Agosto de 2013.

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4 comentários sobre “O unicórnio mágico de Elizabeth I

  1. A moça desta tapeçaria está lembrando Lucrécia Bórgia em “A Disputa de Santa Catarina”, do Pinturicchio.

    • Parece mesmo Larissa! Elas também foram pintadas na mesma época, já que o de Lucrécia foi pintada entre 1492-1494 e ‘The Lady and the Unicorn’ foi entre 1484 e 1500.

  2. Foi uma leitura leve, com informações valiosas e muito contagiante, houve um momento que eu estava já acreditando na origem do unicórnio de tão detalhada as informações. O modo da crença dos povos medievais e da própria rainha trazem para o leitor toda essa veracidade que eles sentiam na época. Parabéns pelo texto!

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