O mito de Artur Dudley, filho da Rainha Virgem

Houve muitos rumores sobre Elizabeth I durante sua vida – a maioria dos quais rodeava a intensa amizade com Robert Dudley, conde de Leicester, um primo da rainha e um amigo de infância.

Apesar de Dudley ter se casado com uma mulher chamada Amy Robsart – uma união de conveniência entre duas famílias ricas – ele e Elizabeth manteram-se próximos durante a idade adulta. Em 1559 o quarto de Dudley foi mudado para um perto de um dos apartamentos pessoais de Elizabeth, inflamando ainda mais os rumores de um relacionamento sexual.

Em um famoso encontro relatado na época, a governanta de Elizabeth, Katherine Ashley, pediu para que ela provasse que ela ainda era casta e não era envolvida com Dudley. Os cortesões também estava tão preocupados com um relacionamento ilícito que William Cecil, conselheiro da Rainha, escreveu na época que temia que eles estavam planejando se casar, e que previa a ‘ruína do reino’.

Um ano depois, em 8 de setembro de 1560, a esposa de Dudley, Amy, morreu em circunstâncias suspeitas. O escândalo manchou a reputação de Dudley e acabou com qualquer possibilidade que ele tinha de se casar com a rainha. Mas, no final de 1561, Elizabeth foi confinada à cama com uma doença misteriosa – que poderia sugerir alguma relação entre os dois.

De acordo com testemunhas, ela sofria de hidropisia – agora conhecido como edema – um inchaço anormal no corpo devido a um acúmulo de líquido.

O embaixador espanhol relatou que ela tinha um inchaço no abdômen. Sabe-se que muitas damas de companhia na corte da Rainha sabiam esconder com sucesso algumas gravidezes.

Dudley,RobertNo verão de 1587, um navio espanhol interceptou um barco na costa de San Sebastian, que estava indo para a França. Um dos passageiros a bordo deste barco era um jovem de 20 anos, que alegava ser um católico que realizava uma peregrinação a um santuário de Montserrat. As autoridades espanholas prenderam o homem, suspeitando que ele fosse um espião inglês. Quando questionado para se identificar, ele respondeu: “Eu sou o filho bastardo da rainha Elizabeth da Inglaterra e seu amante Robert Dudley”.

Na época, sua confissão ameaçava minar o relacionamento já tenso entre a Espanha Católica e a Inglaterra Protestante. Os cortesões logo o descartaram como mentiroso, parte de um plano de Sir Francis Englefield, um exilado inglês na Espanha, para derrubar Elizabeth I. Artur Dudley foi levado para Madrid para ser interrogado por Francis. A conversa foi registrada em três cartas feito a partir de cinco dias de interrogatório por Englefield, completado com os comentários manuscritos do rei Filipe na sua caligrafia extravagante, sobrevive entre os seus Documentos de Estado nos arquivos de Salamanca. Englefield acreditou claramente na história de Dudley.

Seria possível que a monarca conhecida como a Rainha Virgem teria tido um caso ilícito com um amante, e disso teria nascido uma criança, e ela em seguida o tria abandonado ao invés de enfrentar um escândalo?

Em novembro de 1558, Elizabeth, a última filha sobrevivente legítima de Henrique VIII, tornou-se soberana da Inglaterra. A nação estava a beira de uma guerra religiosa entre católicos e protestantes, e precisava de paz e estabilidade. Na primeira semana do seu reinado, a solteira Elizabeth, com apenas 25 anos, procurou acalmar os temores de seus súditos, prometendo-lhes a sua devoção, insistindo que não haveria casamentos ou filhos para distraí-la do dever.

A história que contém nos documentos de Englefield é intrigante, vergonhosa e finalmente expositora. Arthur alegava ser filho natural da Rainha, e que tinha sido entregue enquanto bebê por Kat Ashley a Robert Southem, que foi convocado em uma noite em Hampton Court em 1561. Os funcionários do palácio disseram que a criança era filha de uma empregada descuidada e que deveria ser rapidamente escondido, antes que a notícia do nascimento chegasse a Rainha. Nesta condição, Southern foi convidado para assumir o garoto, batizado de Artur, e criá-lo como seu próprio filho.

Artur foi criado por Southem na ignorância da sua verdadeira linhagem. Com quinze anos fugiu de casa e foi inexplicavelmente trazido de volta de Milford Haven por mandado do Conselho Privado. Mais tarde lutou pelos protestantes na guerra da Holanda até ser chamado a Inglaterra quando o seu pai estava a morrer. No seu leito de morte Southem revelou a Arthur a sua verdadeira identidade, depois do que o jovem confrontou o seu pai natural, Lord Leicester.  O velho confessou a verdade para Artur na frente de uma testemunha, um professor local.

William Cecil

Ele também contou sobre como  havia sido levado por oficiais para conhecer Robert Dudley, e que este disse ‘Você é como um navio no mar: bonito de se olhar, mas perigoso de se lidar’, uma afirmação de David Howarth em ‘The Voyage of the Armada’ que alega “ter uma ponta de verdade”. Arthur alegou que Leicester o reconheceu como seu filho, e que depois o enviou com o seu secretário, Mr. Fludd, à casa de Walsingham para este lhe passar um passaporte. Dudley, então, ordenou que Artur fosse retirado do país sob a supervisão de Sir Francis Walsingham. Não desejando ser interrogado pelo chefe dos serviços secretos de Elizabeth, Arthur fugiu para o continente.

Uma história bastante longa e complicada contada por Artur descrevia suas muitas viagens e seu medo de que ele fosse perseguido e assassinado por agentes de Elizabeth. Era uma história brilhantemente contada, e pelo fato de que ela continha eventos possíveis e pessoas reais, fez a história parecer um pouco plausível. Mesmo assim, Englefield estava convencido de que ele era um espião. Ele fez testes, como o conhecimento dos apartamentos da rainha (pois Artur afirmava ter passado seus verões em uma das casas da Rainha), seu conhecimento das pessoas que ele tinha mencionado e sua educação. Aparentemente Artur passou nesses testes, mas ainda não convencia Englefield.

Quando foi confrontado com Arthur, o rei espanhol Filipe levou-o suficientemente a sério para considerar que ele tinha “uma pretensão mais forte ao trono do que qualquer outra pessoa”. O rei via-o, consequentemente, como um potencial rival e alguém que, por razões de segurança nacional, precisava de ficar preso. “Será certamente o mais seguro”, escreveu Filipe nas margens do relatório de Englefield, “assegurarmo-nos da sua identidade até sabermos mais sobre o assunto.” Arthur foi colocado numa prisão espanhola e a partir desse momento perdeu-se na história.

De acordo com o embaixador veneziano em Madrid, Artur Dudley foi então enviado para um castelo em Lameda. Vendedores escreveram sobre como Englefield acreditava que Elizabeth estava planejando reconhecê-lo como seu filho e nomeá-lo herdeiro do trono para obstruir as reivindicações de James VI da Escócia e do rei Filipe. Na opinião de Englefield, Artur era tanto um espião inglês como uma ferramenta inglesa.

Uma carta escrita para William Cecil em 1588 sobre Artur Dudley descreve-o como tendo 27 anos, o que lhe daria uma data de nascimento em 1561, ano em que os registros sobre onde Elizabeth estava são escassos. Independente de quem tenha sido Artur Dudley, é fato que ele existiu. Uma carta enviada a William Cecil em maio de 1558 conta que Artur estava custando para o rei da Espanha seis coroas por dia, por causa de sua prisão. Um relatório de 1590 menciona um homem alegando ser filho de Leicester que estava preso em Alcântara, mas fora isso, Artur nunca mais foi mencionado novamente.

Cate Blanchett e Joseph Fiennes no filme Elizabeth em 1998.Sarah Gristwood escreve sobre como a história de Artur foi creditada em ‘The Secret Life of Elizabeth I’, um livro de Paul Soherty, que é historiador. A romancista Robin Maxell também escreveu sobre Artur em seu livro ‘The Queen’s Bastard’. Mas Elizabeth poderia realmente ter tido um filho ilegítimo com o Conde de Leicester ou com qualquer outra pessoa?

Mas como Elizabeth poderia ter escondido a gravidez? Será mesmo que todas as damas de companhia, camareiras, médicos, conselheiros, cortesões, poderiam ter ficado sabendo e ninguém, jamais, daria uma palavra sobre o escândalo? Ainda se pode considerar que muitas adolescentes hoje dão à luz em segredo depois de esconder sua gravidez sob roupas largas, mas eu não acho que alguém que estava sempre sendo seguida poderia ter dado a luz a um filho ilegítimo, sem ninguém saber ou a história não vazar. Além disso, é altamente improvável que os espanhóis poderiam ter conseguido capturar o filho ilegítimo de Elizabeth I por acaso.

Mas então, quem seria Artur Dudley? Não há resposta para essa pergunta. No entanto, Walsingham fez uso de muitos agentes, enviando-os à paisana para coletar informações sobre inimigos estrangeiros. Isso poderia explicar como Artur Dudley repentinamente desaparece da história. Talvez ele tenha escapado e retomado sua verdadeira identidade. Quem quer que fosse, é muito improvável que fosse o filho da Rainha.

Bibliografia:
MAXWELL, Robin. O bastardo da Rainha. Tradução de Pedro Duarte. 5º Edição. Lisboa, Portugal: Planeta.
CHALMERS, Sarah. ‘Did the Virgin Queen have a secret love child?‘. Acesso em 21 de fevereiro de 2013.

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15 comentários sobre “O mito de Artur Dudley, filho da Rainha Virgem

  1. Os registros sobre o tal Arthur poderia ter desaparecido com ele simplesmente pra não ter nenhuma sucessão ao trono indesejada, não?

  2. Algum tempo atrás me deparei com um artigo sobre Arthur Dudley em Elizabeth I Files e me interessei pelo assunto. Fui atrás e consegui encontrar online O Bastardo da Rainha, versão portuguesa. É claro que o livro é bastante fantasiado, com uma rainha que acreditava que seu filho não sobrevivera ao parto e tudo mais, mesmo assim há um Q de realístico nesse mito que desperta curiosidade. O rei Felipe não achou-o propriamente um mentiroso; sua história era insana, mas bem embasada em fatos reais e, além, ele foi identificado como Dudley e não Southem. Isso me leva a pensar que ele poderia ter sido filho de Robert com qualquer outra mulher, e reconhecido por este mais tarde quando o relacionamento com a rainha já tinha esfriado e isso não o prejudicaria perante os olhos dela. De qualquer forma, acho que nunca saberemos a verdade. Porém, penso que de todos os bastardos já atribuídos a Rainha Virgem, este é o que mais faz sentido.

  3. Ahhh siiiim. Essa da acusação de ela estar grávida de Seymour eu pensei que era invenção do filme “Anonimo”

    • Não! Eu acho esse filme muito bom porque mostra eventos que poderiam ter acontecido e não sabemos, e essa teoria do Shakespeare não ser Shakespeare é o máximo Mas no filme mostra ela ficando grávida várias vezes, e inclusive falando sobre isso na frente de várias damas, o que eu acho que não aconteceria mais nunca. Não creio que ela correria um risco tão grande.

      • Eu achei o filme meio “alternative universe”, mas por outro lado, me fez questionar como a História é de fato escrita. Dia desses mesmo eu li algo sobre um bastardo de Elizabeth chamado Robert com uma figura importante da África ou algo assim. haha Agora, sobre ela e Thomas Seymour, eu acredito que ela deve ter tido um filho ou filha, ou sofreu um aborto, alguma coisa… tipo Margaret Beaufort que nunca mais conseguiu engravidar depois que deu à luz o Henrique VII.

  4. eu não acredito, seria quase impossível uma rainha esconder uma gravidez…e por ela ser uma mulher no trono, o que fazia as coisas ficarem um pouco instáveis ainda mais porque ela não queria se casar, não acredito que ela correria um risco desses.

    • Eu acredito mesmo que ela era virgem. Acho que isso pode parecer meio absurdo para nós por causa do mundo em que vivemos hoje, mas na época isso era bem comum.

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