Quem roubou as cartas que Henrique VIII escreveu para Ana Bolena?

Em 1529, as autoridades inglesas pararam o Cardeal Campeggio em Dover em seu caminho saindo da Inglaterra. Embora ele se recusasse a ter suas malas revistadas, as fechaduras foram quebradas. Infelizmente, os homens do rei não conseguiram encontrar o que eles estavam procurando. Estariam as autoridades procurando as cartas de amor que Henrique VIII escreveu para Ana Bolena? Estas 17 cartas de amor misteriosamente ressurgiram no século 17 na coleção do Vaticano, e lá permanecem até hoje. Quem as roubou e como elas vieram parar em Roma é um mistério que tem intrigado muitos historiadores. 

1# Suspeito: Papa Clemente VII
Papa Clemente VIIA primeira vista, o Cardeal Campeggio ou um espião papal a serviço do Papa Clemente VII parece uma suspeita óbvia. A natureza exata da relação de Henrique com Ana era deixava muitos curiosos, principalmente no exterior. O Papa e seus agentes poderiam ter roubado as cartas à procura de evidências de que o casal já estava dormindo juntos, o que poderia ter sido útil para fins de propaganda, ou inversamente – que eles não estavam dormindo juntos, o que significa que a situação tinha de ser reavaliada com mais cuidado. Talvez o objetivo também fosse conseguir mais informações sobre as personalidades envolvidas: não se sabia muito sobre Ana Bolena – sua dominação sobre o rei provocava especulações consideráveis.

Mas o que o Papa ganharia ao roubar as cartas? O fato é que Clemente nunca desejou evidências a favor ou contra Henrique; a estratégia dele era manter o rei inglês parado na esperança de que Henrique desistisse de seu casamento com Ana Bolena, ou esperar que o próximo Papa resolvesse o assunto. Como bem se sabe, no momento que Henrique VIII pediu a anulação do seu casamento com Catarina de Aragão, o Papa Clemente VII era prisioneiro de Carlos V, sobrinho de Catarina. Ele não poderia ter concedido a anulação mesmo que quisesse. Mesmo o embaixador francês, Bispo de Tarbe, expressou sua frustração com as táticas de Clemente em uma carta para o rei Francisco I. Tarbe escreveu que Clemente ‘disse-me em segredo mais de três vezes que ele estaria feliz se o casamento já tivesse sido feito, seja por uma dispensa do legado inglês ou não, desde que não fosse por sua autoridade‘. No meio de Carlos V e Henrique VIII, a maior arma de Clemente era a procrastinação. As cartas pouco teriam servido a sua causa.

2# Suspeito: Carlos V

Carlos VEle provavelmente tinha mais motivos para roubar as cartas. Ele se opunha à idéia de que sua tia (Catarina de Aragão) fosse deixada de lado e sua filha Maria sendo declarada bastarda. A fofoca na corte e o Embaixador Espanhol, Chapuys, escrevia pelo menos uma vez por semana à Carlos contando as traquinagens de Ana e Henrique. Chapuys não escondia nada em suas cartas com Carlos, e várias de suas cartas poderiam ter sido prejudiciais se tivessem sido interceptadas. No entanto, em nenhum lugar ele menciona ter roubado as cartas. Mesmo que ele tivesse roubado, dificilmente Carlos teria mandado as cartas para o Vaticano: ele não confiava no Papa Clemente.

3# Suspeito: Eduardo Waldegrave
Após a morte de Ana Bolena, Hever Castle ficou nas mãos de Henrique VIII, até que ele o deu para sua quarta esposa, Ana de Cleves, quando eles se divorciaram em 1540. Ana de Cleves viveu em Hever Castle até sua morte em 1557, quando foi comprada por sir Eduardo Waldegrave. Ele era um grande opositor ao casamento de Maria I com Filipe da Espanha, e junto de Lord Derby e Edward Hastings, ameaçou se demitir do seu cargo no Conselho Privado. Carlos V lhe pagou uma pensão de 500 coroas no início de 1554, e isso acalmou sua posição. Sob o reinado de Elizabeth, Waldegrade foi demitido do Conselho, e em abril de 1561 ele e sua esposa foram acusados de fazer missas em sua casa e abrigar sacerdotes. Waldegrave era católico, e é possível que ele tivesse dado as cartas que estavam guardadas no Castelo de Hever para um padre que ele estava protegendo, e que este a levou para Roma.

4# Suspeito: Espiões
A maior motivação por trás do roubo das cartas podem não ter sido religião, mas o dinheiro. Se quem as roubou fosse um ladrão, este provavelmente estaria tentando ganhar algum dinheiro rápido. Talvez elas sequer tenham sido vendidas diretamente ao Vaticano. Talvez elas nem tenham sido roubadas do Castelo de Hever após Ana estar morta e enterrada. Não seria a primeira vez que cartas de amor ressurgiam anos depois de terem sido escritas. De qualquer maneira, o Papa (Clemente ou qualquer outro depois) não teria visto nenhuma utilidade nelas. Mas qualquer outra pessoa teria milhares de uso para elas: as cartas não só dão pistas de um dos casos de amor mais infames de toda a história, mas também nos dá os motivos que Henrique teve por trás do seu divórcio.

A maior pista, entretanto, sobre quem as roubou, pode estar em uma das cartas.:

Querida,do fundo do coração eu me entrego a você, lhe confirmando que não estou nem um pouco perplexo com tais coisas que seu irmão há de dizer a você em meu nome, para o qual eu rezo, você acredite, pois era muito para escrever. Em minhas últimas cartas eu escrevi para você que acreditava que a veria em breve, o que é mais conhecido em Londres do que qualquer outra coisa sobre mim, onde quer que eu fosse eu não estaria nem um pouco assombrado; mas a falta de movimentação discreta necessária podem ser a sua causa. Não mais para você neste momento, mas eu confio que em breve nossos encontros não deverão depender de entregas discretas de outros homens, mas de nossas próprias.
Escrito pela mão daquele que anseia em ser seu.
H.R

Uma pintura do início do século 20, Ana Bolena caçando um veado com o Rei. Artista desconhecido.Em 20 de agosto de 1528, logo após Ana voltar a Corte, o embaixador francês Du Bellay faz referência à quebra de segurança em uma carta para Montmorency. Ele diz ‘Mademoiselle Boullan voltou à Corte. As cartas interceptadas que você me enviou sobre esse assunto os tem inquietado‘. Henrique VIII fez referência à ‘falta de movimentação discreta‘, uma indicação de que ele talvez sabia que suas cartas estavam sendo lidas? E o que a corte francesa teria a ganhar com a leitura das cartas de amor de Henrique? Mais amigos ou inimigos? Qualquer tipo de caso que poderia manchar a reputação de Henrique no exterior só enfraqueceria sua posição política. Mais importante ainda, Henrique VIII com um herdeiro masculino era uma ameaça muito maior para a França do que Henrique com uma filha. Em suma, a França não teria nada a ganhar se Henrique VIII se casasse novamente e tivesse um herdeiro.

Talvez um espião francês tenha vendido as cartas a Clemente acreditando que isto forçaria Clemente a tomar uma decisão. Se fosse um espião, este provavelmente subestimou o desejo do Papa de se pronunciar sobre o assunto. Como discutido, o Papa Clemente VII precisava de tempo e não de evidências sobre o amor de Henrique a Ana Bolena.

Bibliografia:
FRASER, Antonia. As Seis Mulheres de Henrique VIII. Tradução de Luiz Carlos Do Nascimento E Silva. 2ª edição. Rio de Janeiro: BestBolso, 2010.
BECCIA, Carlyn. ‘Who stole Henry VIII’s love letters to Anne Boleyn?‘. Acesso em 10 de Janeiro de 2013.
WALDEGRAVE, Sir Edward (1516/17-61), of Sudbury, Suff. and Borley, Essex.’. Acesso em 10 de Janeiro de 2013.
Anne and Henry’s love letters‘. Acesso em 9 de Novembro de 2013.

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