O Casamento de Artur Tudor e Catarina de Aragão

Pintura moderna retratando a chegada de Artur e Catarina no Castelo de Ludlow

No domingo, 14 de Novembro de 1501, o casamento do Príncipe Artur, filho mais velho de Henrique VII, e da princesa Catarina de Aragão foi esplendidamente celebrado na Catedral de St. Paul com trompetistas espanhóis que tinham sido levados para lá a fim de dar à sua princesa uma despedida nacional. Outro tom espanhol foi dado pelo fato de que Catarina, tal como suas damas, usava uma mantilha com o seu vestido bordado que era branco e dourado, incrustado de jóias. 

Catarina foi escoltada pela nave da Igreja pelo irmão mais novo de seu marido, Henrique, Duque de York. Ele tinha apenas 10 anos, mas com pernas longas e ombros largos, ultrapassava de longe Artur, cinco anos mais velho. Com o seu chapéu de largas abas no alto da cabeça, o seu barrete de cardial e as suas cores espanholas, ela era em Londres uma figura insólita; nas ruas mal calçadas comprimia-se uma multidão jovial para ver a sua futura Rainha, e o menino, que se mantinha ao seu lado, orgulhoso como um pavão, inebriava-se com o incenso dos aplausos. Á frente deles se estendia uma passarela margeada de tecido vermelho, tanchonado de dourado, até a porta da frente da igreja onde os cidadãos de Londres se apinhavam tentando se posicionar de modo a ter uma visão melhor do altar.

Catarina, às vésperas de completar 16 anos, tinha um tipo de beleza jovem que encantou os observadores: as faces naturalmente rosas pele branca, que eram muito admirados.  Seus cabelos eram claros e grossos, com um tom ouro-avermelhado. Ela era extremamente baixa e um pouco rechonchuda, mas, em sua juventude, isso era considerado desejável por ser indicação de fertilidade. O Príncipe de Gales estava agora com 15 anos. Embora Catarina fosse baixa, Artur era ainda mais baixo do que ela. Ele também tinha pele clara, mas sem as saudáveis faces rosadas.

Tapeçaria flamenga retratando o noivado de Artur Tudor e Catarina de Aragão.Na Catedral, foi erigido um altar circular com capacidade para oito pessoas, inclusive para Catarina e seu volumoso vestido. O altar era coberto por um pano escarlate e tinha à volta um parapeito. Henrique levou-a até aquele tablado, onde Artur a esperava com uma linda roupa de cetim branco, adornado de pedras preciosas. O rei e Elizabeth de York observavam a cerimônia de um camarote ao lado do tablado. O Arcebispo da Cantuária e dezenove bispos e abades realizaram a cerimônia.

Depois da celebração da missa, a noiva e o noivo foram para a porta da Catedral, ajoelharam-se e Artur declarou que doava à sua noiva um terço de sua propriedade. Henrique, decidido a não ser excluído das comemorações, caminhou com os noivos até o salão de banquete, no palácio do bispo, onde havia sido preparada uma festa magnífica.

O banquete de núpcias foi esplêndido. Realizado no Castelo Bayard, reconstruído por Henrique VII no ano anterior, enormes mesas estendiam-se por toda a extensão do Salão em Westminster, carregadas de bandejas de ouro e pratos extravagantes – castelos de três camadas, faisões, cisnes dourados. Catarina sentou-se à direita da rei. O príncipe Artur sentou-se a em uma mesa separada, para as crianças, com o príncipe Henrique e suas irmãs, a princesa Margaret, de 12 anos, de vestido dourado, e a princesa Maria, de 5 anos, com um traje de veludo com bordas de pele.

Abriu-se um espaço diante da mesa e espetáculos e danças foram feitas. Um navio pintado em tons brilhantes circulou pelo salão, manobrado por homens vestidos de marinheiros, falando em termos náuticos. No convés, havia duas figuras representando a Esperança e o Desejo, e ao lado delas apareceu uma bela mulher com roupas espanholas. Logo atrás veio uma montanha, com figuras alegóricas prestando homenagens à noiva. A apresentação mais esplêndida foi um castelo, trago para o salão por leões de ouro e prata (dentro da pele de cada leão havia dois homens – um na parte da frente e outro na traseira). Sentada no alto do Castelo, outra linda mulher vestida de espanhola era cortejada pela Esperança e Desejo.

Quando o navio, a montanha e o castelo juntaram-se no salão, os menestréis começaram a tocar; então lindas mulheres e belos homens saíram dos carros alegóricos e passaram a dançar no espaço vazio em frente à mesa do banquete. Quando essa dança terminou, os dançarinos fizeram reverência à família real e saíram do salão debaixo de aplausos.

Príncipe ArturAntes de os convidados começaram a dançar, a noiva e o noivo, seguidos de outros membros da família real, deram os primeiros passos no salão. Catarina e Artur não dançaram juntos. Catarina escolheu dançar com uma dama de companhia, e Artur dançou com sua tia, a Princesa Cecília.

Não apenas durante o próprio banquete, mas durante todo o período de celebrações oficiais que se seguiu, achou-se que Artur não tinha papel algum a representar. Estava claro que ele era imaturo demais para participar, de alguma maneira, das justas entre os cavaleiros que se seguiriam nos próximos dias.

Nunca se tinha visto tanto dinheiro investido em uma única ocasião. Foi uma celebração mais suntuosa do que havia sido o casamento do próprio rei, e mostrava ao mundo que o casamento Tudor à altura da princesa espanholas era um dos maiores eventos da nova era. Nas festas que se seguiram ao casamento, Catarina encantou os cortesões pela dignidade com que ela e suas brilhantes donzelas de companhia executaram danças que  transportavam à Corte inglesa todas as suntuosas cerimônias do Alabama.

O cortejo nupcial desfilou da sala dos banquetes em Westminster Hall ao quarto de dormir no palácio do Bispo de Londres, esplendidamente iluminado por numerosas velas, repleto de nobres e de clérigos, ressoante de latim. Não poderia haver leito conjugal mais público, a não ser que abrissem as portas para os cidadãos de Londres.

A jovem noiva e o noivo ainda mais jovem foram escondidos por detrás das cortinas do leito, e aí despidos completamente, antes de ajoelhar-se segundo um piedoso costume. Depois que lhes foi dada a última taça de vinho doce quente, um atendente enrolou-os com um robe e o leito nupcial foi abençoado, o povo que se aglomerava em volta do quarto debandou; os serviçais de Catarina e Artur – espanhóis e ingleses – permaneceram na antecâmara; a porta da câmara nupcial foi trancada e os noivos ficaram sozinhos.

Pintura moderna retratando CatarinaToda a cidade de Londres estava ansiosa para celebrar o casamento do Príncipe de Gales com a infanta. A cerimônia mais importante foi realizada em Westminster, para onde a família real foi de barcaça. O prefeito de Londres, os conselheiros e toda a corte acompanharam a barcaça real; e músicos tocaram quando os herdeiros do trono estabeleceram residência no coração de Londres.

O povo enfileirou-se ao longo das margens do rio para saudar a princesa. Em frente ao palácio tinha sido preparado um imenso pavilhão para as festividades. No lado sul, via-se um palanquete coberto de tecidos de alto luxo com fios de ouro e vários outros menos luxuosos para os espectadores. Era ali que se realizaria as justas, considerada a diversão perfeita, onde toda a nobreza inglesa se reunia. Catarina sentou-se no palanque entre vivas do povo e sentou-se nas almofadas forradas de tecido de ouro. Junto a ela, o rei, a rainha, seu noivo e toda a família real.

As celebrações prosseguiram por dias e dias e depois a corte se mudou para o recém construído Palácio de Richmond. As festas se concluíram em uma semana, quando o rei avisou a infanta de que estava na hora de seus acompanhantes espanhóis retornaram á Espanha. Ela ficaria com a pequena criadagem doméstica, suas damas de honra, seu camareiro, seu tesoureiro e criados mais próximos. O resto de sua comitiva teria  de partir.

Os jovens príncipe e princesa de Gales encerraram sua visita a Richmond e começara a estabelecer sua casa real no Castelo de Baynard. Os aposentos de Catarina ficavam nos fundos da casa, dando vista para os jardins e o reino, com as pessoas que trabalhavam para ela, suas damas de honra espanholas, seu capelão espanhol e sua aia. Os aposentos de Artur davam para Londres, com sua criadagem e parentes, capelão e tutor. O Castelo era administrado segundo as ordens de Lady Margaret, a mãe do rei.

Juana de Castilha e Filipe de Burgundy.Um último banquete foi realizado no grande Salão, com todos vestidos de cetim, rígidos brocados com pedrarias e veludos esplendidamente coloridos. Artur e Catarina estavam sentados numa extremidade do Salão. Finalmente, após dez dias de celebrações, os noivos  partiriam para o Castelo Ludlow, na fronteira entre a Inglaterra e o País de Gales, para brincar de rei e rainha, como treinamento. Quatro meses depois, Artur, com 15 anos e meio, estaria morto. Catarina seria uma viúva e Henrique, seu antigo escudeiro, o herdeiro do trono.

Bibliografia:
HACKETT, Francis. Henrique VIII. Tradução de Carlos Domingues. São Paulo: Pongetti, 1950.
GEORGE, Margaret. Autobiografia de Henrique VIII. Tradução de Maria Luíza X. de A. Borges. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1993.
PLAIDY, Jean. Catarina, a viúva virgem. Tradução de Vera Whately. Rio de Janeiro: Record, 2001.
GREGORY, Philippa. A Princesa Leal. Tradução de Ana Luiza Dantas Borges. Rio de Janeiro: Editora Record, 2009.
FRASER, Antonia. As Seis Mulheres de Henrique VIII. Tradução de Luiz Carlos Do Nascimento E Silva. Rio de Janeiro: BestBolso, 2010.

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3 comentários sobre “O Casamento de Artur Tudor e Catarina de Aragão

    • Provavelmente! Existe um romance que eu acho ótimo, daqueles bem água-com-açúcar, se chama “Sempre no meu coração”. Você pode ler sobre ele aqui e encontrá-lo no Estante Virtual para comprar: http://boullan.org/2014/09/11/sempre-no-meu-coracao/
      Ele conta justamente a história sobre como poderia ter sido se Arthur não tivesse morrido: como seria seu relacionamento com Catarina, como seria a vida de Henrique. O próprio personagem principal da história é Edmund Tudor, um filho de Henrique VII e Elizabeth de York, portanto irmão de Henrique e Arthur, mas que ‘na vida real’ faleceu ainda na infância.

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