O Bobo do rei: Os retratos de Will Sommers

Antes do termo Coulrofobia ser cunhado, os palhaços eram universalmente popular. Na antiguidade, eles – como atores cômicos, foram um marco no teatro grego e romano e, desde a época medieval, foram empregados como bobos na corte para a diversão da corte real. Um bobo tinha uma posição privilegiada: ele (ou ela) tinha licença para falar com todos, e uma crítica sobre o rei ou a política real que poderia custar a cabeça de um nobre era geralmente levada com bom humor.

Na corte de Henrique VIII, o posto de tolo foi ocupado por um William, ou como ele seria mais conhecido, William Sommers. Por mais de vinte anos, enquanto rainhas, ministros e reis iam e vinham, Sommers foi capaz de manter os afetos de seu mestre. Sua única falha foi um incidente em 1535, quando Sommers, talvez  fazendo luz da impopularidade do segundo casamento do rei, ridicularizou Ana Bolena e sua filha Elizabeth. Desta vez, o rei não riu e Sommers foi forçado a se esconder até a ira do rei ter esfriado. Recebido de volta na corte, Sommers sabiamente se absteve de tais observações, e manteve-se no favor real até o fim do reinado de Henrique. Como prova do afeto do rei por ele, Sommers foi retratado com Henrique em duas obras de arte muito pessoais.

O primeiro, provavelmente uma comissão real, foi um painel do rei e sua família. Pintado na velhice de Henrique VIII, ele é mostrado sentado com seu filho, o Príncipe Eduardo. Com eles, está a falecida Jane Seymour. Catarina Parr, atual esposa do rei, não teve lugar na pintura. Um pouco distantes trio real estão Elizabeth e Maria, legalmente ilegítima. Através das portas em arco, dois servos podem ser vistos. À direita, está Will Sommers com um macaco em seu ombro. Na esquerda está, provavelmente, a boba Jane, mencionada nas contas domésticas da Princesa Maria.

A segunda obra é um saltério, também dos últimos anos de Henrique VIII. Aqui, o rei toca uma harpa com Will ao seu lado. O instrumento é uma alusão a Henrique como o rei Davi. A identificação de Henrique como o monarca da Bíblia também pode ser visto em uma miniatura mostrando-o como penitente, ajoelhando-se diante do Senhor. No saltério, Henrique, como David, está lamentando seus pecados, mas desta vez através da música. Sommers ser seu único ouvinte diz muito sobre a intimidade de seu relacionamento.

Aparentemente, Sommers continuou na Corte após o reinado de seu mestre. Ele passou a servir o novo rei, Eduardo VI, aparecendo em muitos espetáculos da corte. Sommers foi menos ativo no reinado seguinte mas ele aparece em um interessante retrato de Maria I com seu falecido pai.

O retrato, provavelmente, é mais dinástico do que sentimental. Pessoalmente, Maria tinha um relacionamento difícil com seu pai e, espiritualmente, sua ruptura com a Igreja Católica Romana foi repugnante para ela. No entanto, aqui eles são mostrados juntos e não há nenhuma referência a Henrique como um cismático detestado – ele está na magnificência que Holbein o retratou. Com Maria ao seu lado, existe uma noção de que ela era de fato legítima – e rainha – é reforçada. A presença de Will Sommers continua a tradição de como ele era querido pelo ex-rei.

Depois de sua morte, por volta de 1560, a reputação de Sommers foi bem sustentada ao longo do reinado de Elizabeth I. Em um retrato, que lembra o de Maria I e Henrique VIII, Sommers aparece novamente com a família real. Desta vez, Eduardo VI e a jovem rainha, Elizabeth I, foram incluídos.

Cerca de trinta anos depois, a imagem de Sommers foi revivida em outro trabalho dinástico, uma peça de propaganda protestante intitulado: An Allegory of the Tudor Succession: The Family of Henry VIII, por um artista desconhecido. Baseado em uma obra anterior, atribuída a Lucas de Heere, mostra Elizabeth I como a portadora da paz e prosperidade, e sua irmã Maria e seu marido Filipe como os autores da guerra e do conflito. Entre todas as diferenças entre as duas obras, a mais divergente é a omissão de uma pessoa: o bobo do rei. Ele não está presente na obra original de Heere, mas está na obra do artista desconhecido é possível ver Will no canto esquerdo.

Mas não teria feito mais sentido posicionar Will ao lado de seu mestre, Henrique VIII? Ao invés disso, o bobo real foi posto ao lado do deus Marte – atrás de Maria e Filipe, o que é significativo. O rei e a rainha foram acusados de perseguir seus súditos protestantes e pela perda de Calais, a última posse inglesa no Continente. Coube a Elizabeth, acompanhada por Minerva (representante da paz) e Ceres (personificação da abundância) restaurar a estabilidade política e religiosa.

Maria estava morta a muito tempo quando a Allegory foi pintada, mas deve ter sido considerado algo insolente criticá-la tão abertamente. Maria, afinal de contas e apesar de sua impopularidade, tinha sido ungida por Deus e era a irmã de Elizabeth. Assim, a imagem simbólica e Sommers era mais que suficiente. Mesmo a versão anterior da Allegory cuidou para não condenar Maria abertamente. Os versos (em torno das bordas da pintura) descrevem-na simplesmente como ‘uma filha zelosa de sua espécie’. Quando a seus defeitos, nada mais precisava ser dito, como ‘o que mais o mundo têm conhecimento’.

SommersAté o final do reinado de Elizabeth, Sommers alcançou notável popularidade, considerando que sua vida e carreira foram gastas dentro dos limites da Corte dos Tudor. Ainda sim, a fama de Sommers se estendeu para além dos muros do palácio. Ele apareceu em peças de teatros e até mesmo foi o personagem principal de uma, intitulada Pleesant Comedie called Summers last Will and Testament, por Thomas Nash, sendo realizada pela primeira vez em 1592.

Como um tributo à sua popularidade, Sommers foi ainda representado em uma impressão produzida em massa no reinado de James I. Feita por Francis Deleram, o bobo é mostrado de corpo inteiro contra um fundo de acrobatas e crianças brincando. No seu peito estão as iniciais de seu mestre, Henrique Rex.

Traduzido do artigo 'Clowning Around – The Portraits of Will Sommers' escrito por Roland Hui.
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