Qual era realmente a aparência de Ana Bolena?

De acordo com o historiador Eric Ives, a Ana retratada na medalha comemorativa reconstruída na foto abaixo é ‘o mais próximo da verdadeira Ana Bolena que nós jamais seremos capazes de obter’. Feita em 1534, um ano depois do casamento de Henrique VIII e Ana e o nascimento de sua filha Elizabeth, a medalha original foi feita quando Ana estava novamente grávida, e celebra um momento alegre quando foi todos estavam confiantes que Ana presumidamente daria à luz a um filho. Isso não aconteceu – com consequências fatais para Ana. E quanto a medalha – ‘The Moost Happi’. Anno 1534′ – de alguma forma escapou da fúrio revisionista de Henrique (ele destruiu todos os retratos de Ana quando ela foi executada), os anos fizeram seu próprio dano, obscurecendo um dos olhos e achatando o nariz. Agora, depois de uma pesquisa histórica rigorosa e meticulosa, uma reconstrução da escultura Lucy Churchill a trouxe de volta para nós.

Você provavelmente esperava que Ana fosse um tipo de sósia de Natalie Dormer, mas o fato é que a linda Ana é uma criação da imaginação cultural. Assim, da mesma forma, é a Ana bruxa de seis dedos com as feições deformadas por Satanás. Natalie Dormer como Ana Bolena na série The Tudors em 2007A verdade é que, com as poucas informações que temos sugerem que pelos padrões da época, Ana era de fato, conforme ilustrada nesta medalha, nem linda nem feia.Na coloração, seu cabelo castanho escuro e pele de oliva não correspondem ao ideal medieval e renascentista de pele clara, loira de olhos azuis, uma idéia que conseguia combinar com a Virgem Maria e a poderosamente sexual Vênus de Botticelli. Exceto pelos olhos marcantes, as características faciais de Ana eram raramente comentadas, até mesmo pelos seus admiradores. ‘Razoavelmente de boa aparência’, disse John Barlow, um dos favoritos clérigos de Ana. ‘Não é uma das mulheres mais bonitas do mundo’, reportou o diplomata veneziano Francesco Sanuto, que elogiou seus ‘olhos negros e belos’, mas observou que não tinha ‘seios muito elevados’. Uma figura sábia, ela era mais magra do  que o ideal medieval voluptuoso.

E sobre a Ana Bolena de traços finos das representações penduradas em locais históricos e enfeitando as capas de biografias? Algumas lembram a Ana da medalha, com seu longo e pontiagudo queixo, com as maçãs do rosto salientes. Mas todos eles foram feitos após a sua morte, e muitas vezes refletem os ideais estéticos da moda e do tempo do artista, ao invés dos de Ana. A Ana de cabelos negros, por exemplo, é em grande parte uma invenção do século XX – a conversão de sua reputação sedutora em forma visual. Steven Russell, East Anglian Daily Times, 2009.As românticas, ao contrário, são quase sempre retratadas com sua pele clara e cabelos louros – a contrapartida visual para sua visão da Ana como vítima do apetite voraz de Henrique. A verdade por trás da beleza dos mitos e da beleza deslumbrante, e da aparência doentia que continham muitas pequenas imperfeições, que seus admiradores viam com insignificância e seus inimigos foram capazes de converter com grande êxito em deformidades. George Wyatt, neto de um dos primeiros admiradores de Ana, escreve que ‘foi encontrado, na verdade, ao lado de sua unha, em cima de um de seus dedos, algum pequeno pedaço de unha, a qual alguns relatórios dizem ter visto, que a ponta de um de seus outros dedos poderiam ser, e que era geralmente escondida por ela sem qualquer mácula a ele’. Wyatt também informou que ela tinha várias pequenas verrugas ‘coincidentes com outra compleição clara’. Nas mãos do propagandista católica Nicholas Sanders, escrevendo meio século após a morte de Ana, as verrugas a desfiguraram, sinais certos da obra de Satanás em seu nascimento. Sanders, que provavelmente nunca viu Ana vestida, quem dirá nua (ele tinha nove anos quando ela foi executada) também converteu o vestígio da unha extra em sexto dedo inteiro, assim como criou outras características desagradáveis. O sexto dedo ainda se apega em imagens populares de Ana atualmente.

Ana não era seriamente deformada – isso a teria desqualificado como uma candidata para dama de espera, muito menos para rainha. Mas ela também não era uma bela mulher convencional para os padrões de seu próprio tempo. Sua atração física, ao contrário, parece ter sido essa qualidade indescritível – ‘estilo‘ – que nunca pode ser qualificado ou permanentemente ligado a partes específicas do corpo, cor de cabelo, ou características faciais, e que podem transformar seios pequenos em um torso gracioso (Henrique chamou seus seios pequenos de ‘bonitos patinhos’) e uma marca de nascença em uma bela característica. Estilo não pode ser definido. Mas, na sua presença, as regras de atração são transformadas. Às vezes, as regras vigentes de atração estão prontos para mudança. Quando Ana voltou da França para a Corte Inglesa, a cultura inglesa estava à beira da Renascença, presa entre ideologia religiosa rígida e valores humanistas, o costume inglês e as descobertas de outras culturas que sabiam uma coisa ou outro, o amor cortês e o romance ‘moderno’. Talvez a Inglaterra – ou, no mínimo, Henrique – estava pronta para algo novo? Ana, cuja adolescência na corte de Francisco expôs a ela novas idéias progressistas atuais, tinha um raciocínio rápido que impressionava até mesmo seus inimigos; ela era ‘francesa’ em seu senso de moda; os pequenos fragmentos que sobrevivem de suas próprias palavras são marcados e ironia e habilidades políticas. Como Henrique disse,e ela ‘não era de barro comum’.

É impressionante que quando contemporâneos descrevem Ana, eles enfatizam as características que contrastam do prevalecente ideal inglês de loira e ‘esbranquiçada’. Os nativos da Ilhas Trobriand chamam os olhos de ‘portões do desejo erótico’, e passam mais tempo decorando-os do que qualquer parte do corpo; o uso de khol para enfeitar e acentuar eram comuns no Oriente Médio. Mas damas inglesas adequadas não provocavam descaradamente, enviando um convite sexual; eram omissas, com os olhos baixos. Mas não Ana, aparentemente. Quase todos comentaram sua arte de flertar com seus olhos escuros. E desafiando a moda de loiras, a quais muitas mulheres privilegiadas mas menos ‘esbranquiçadas’ tentavam alcançá-las com várias receitas para clareamento de pele e cabelo; Ana aparentemente era orgulhosa de seu cabelo longo, escuro – tão longo que ela podia sentar-se em cima – e parecia encantada em mostrá-lo, certamente em ocasiões-chave, usando-o solto, às vezes enfeitado com jóias.

A medalha ‘Moost Happi’, mesmo tendo em conta certas convenções artísticas que não eram tão precisamente representacionais como iriam se tornar mais tarde, não retrata uma especialmente glamourosa, feminina ou sedutora Ana Bolena. Por isso mesmo, é um convite para que possamos re-pensar, não só as nossas narrativas sobre Henrique e Ana, mas sobre nossas próprias concepções digitalmente dominadas sobre beleza. A medalha nos lembra que o corpo não é apenas um pedaço de matéria inerte que está ou não de acordo com uma fórmula cultural. É animada, que se move, falando sobre sua presença no mundo. Helen Mirren como Elizabeth I na série 'Elizabeth' em 2005E mesmo em nossa cultura de plástico, ainda há algo de mágico, indescritível e aberto sobre suas atrações. Pense em Helen Mirren, geralmente reconhecida como uma das mulheres mais sexy atualmente. Ela é linda? Sim, mas apenas se concedermos à palavra uma gama muito maior das variações de cirurgias plásticas feitas por cosméticos. Pensa em Michele Obama, cuja mandíbula proeminente desqualificaria-a imediatamente entre aqueles que insistem que a simetria e um queixo delicado são requisitos biológicos para um apelo feminino. Pense em Ana Bolena, uma jovem mulher apenas de ‘razoavelmente boa aparência’, que alterou o curso da história.

Traduzido do artigo ‘What Did Anne Boleyn Really Look Like?‘ escrito por
Lucy Churchill e Susan Bordo para o site The Huffington Post.
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8 comentários sobre “Qual era realmente a aparência de Ana Bolena?

  1. Parabéns adorei o post, hoje no mundo atual discutimos muito o assunto beleza, em minha opinião sempre admirei as historias da Ana Bolena acredito que ela foi uma mulher muito linda, por ser diferente da qual os homens naquela época estavam acostumados a saber sobre o padrão de beleza. Ate por ter conseguido conquistar o Rei Henrique. Admiro muito a Ana, no modo dela ter mostrado que uma mulher pode sim mudar uma historia.

  2. Ana é sem duvidas nenhuma uma das personagens historicas mais discutidas. Se formos olhar bem, nenhumas das mulheres atraentes da historia eram exatamente lindas, mas possuiam algo que as tornavam diferente, acho que esse era o caso de Ana. Na minha opiniao, talvez, Katherine de Aragão continua sendo uma das mais belas esposas de Henrique VIII

  3. Henrique não só matou a Ana como matou a memória dela, impediu que o mundo conhecesse a aparência dela e etc. Muito triste isso

    • Sempre que alguém diz que Henrique ‘matou’ Ana eu o imagino entrando sorrateiramente no quarto dela e esfaqueando-a ;) Realmente é triste, mas isso acontecia com a maioria das pessoas que eram condenadas por traição: todos os retratos e documentos eram destruídos porque outras pessoas não queriam ser vistas como gostando de um traidor.

  4. Ótimo artigo e excelente texto!! Sou fascinada pelas irmãs Bolenas, em especial pela Maria porque a vida dela permite que imaginemos coisas que pode ou não condizer com a realidade. A história da Ana, no entanto, tem de tudo um pouco: glória, traição e miséria (quando ela foi assassinada – é assim que eu vejo). E como vc falou, ela foi uma mulher que mudou o curso da história.
    Mas agora, com essa descrição física da Ana, me peguei pensando em porque acreditam que o aspecto físico de Maria Bolena tenha sido como uma mulher branca de olhos claros, aparentemente foi o que vi com os retratos que acreditam ser dela. Será que também romantizaram o físico da Maria? Isto é, ninguém realmente sabe como era Maria fisicamente, mas tendo por base o aspecto de Ana, Maria deveria ser morena também… é como eu falei, sobre a Maria dá para ficar especulando muiiito, rsrsrs… abraços!

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