Mitos sobre a execução de Jane Grey e Guildford Dudley

Jane Grey se preparando para a execução, de George Whiting Flagg.Em 12 de fevereiro de 1554, Lady Jane Grey foi executada na Torre Verde, pouco tempo depois de seu marido, Guildford Dudley, ter sido executado na Tower Hill. As trágicas mortes dos jovens têm gerado inúmeros livros e pinturas, vários filmes e uma série de mitos. Aqui estão algumas delas:

  • Filipe da Espanha, noivo da Rainha Maria, insistiu na execução de Lady Jane antes de se casar com a rainha.

A suposta insistência de Filipe sobre a morte de Jane antes dele se casar com Maria tem sido muitas vezes usado em novelas e em filmes para descrever Maria como uma patética e envelhecida mulher tão desesperada pelo amor que sacrificaria a vida de uma jovem para não perder a perspectiva de um marido.

O Conselho de Maria, de fato, queria que a rainha executasse Jane e Simon Renard, o embaixador imperial, estava claramente com a sua decisão de fazê-lo. Mas não há nenhuma evidência de que Filipe e seu pai, o Imperador Carlos, tenha exigido a morte de Jane como uma pré-condição para o casamento. Também existe a chance de que eles nem mesmo tiveram a chance de exigir algo, dado o curto período de tempo entre a Rebelião de Wyatt (levante que provocou a decisão de executar Jane e Guildford, que havia sido condenado à morte no ano anterior) em 7 de fevereiro e as execuções em 12 de fevereiro.

Na verdade, a decisão de executar o casal parece ter sido tomada antes da Rebelião ter terminada: Renard, escrevendo ao Imperador na quinta-feira 8 de fevereiro para relatar o colapso da Rebelião, disse que acreditava que as execuções de Jane e Guildford tinham sido encomendadas para o dia 6 de fevereiro, mas não sabia se eles tinham de fato sido executados. A carta de Renard para Carlos em 13 de fevereiro menciona as mortes de Jane e Guildford no dia anterior quase sem constrangimento:

‘Desde então foi descoberto que 400 ou 500 cavaleiros e outros tiveram participação na trama, de modo que os presídios não suficientes para prendê-los todos. Ontem, Courtenay, Chefe da Conspiração, de acordo com Wyatt, estava preso na Torre, e Lady Elizabeth começou a vir para cá. Sua chegada está prevista para amanhã com uma escolta de 700 ou 800 cavalos, e acredita-se que em breve será enviada para a Torre, onde Jane de Suffolk foi executada ontem, enquanto seu marido, Guildford, foi executado em público. Hoje 30 soldados, homens de algum status, foram executados como exemplo para as pessoas.’

Maria pode ou não ter sido relutante em executar Jane e Guildford, mas ela certamente foi capaz de resistir à pressão imperial, como podemos ver em sua recusa em executar sua irmã Elizabeth, apesar da urgência que Renard demonstra.

Jane e Mary

  • A Rainha Maria pouparia a vida de Jane se ela se convertesse ao catolicismo.

Maria enviou um padre, John Feckenham, para convencer Jane a aceitar a fé católica antes de morrer, e deu-lhe um indulto de três dias antes da execução, enquanto ele tentava convertê-la. O interesse de Maria, no entanto, era de salvar a alma de Jane, e não sua vida. Como Giovanni Commendone, um funcionário papal que estava na Inglaterra em 1553, relatou:

‘Uma vez que a sentença foi aprovada, foi enviado para ela um teólogo de grande reputação para tentar persuadí-la a libertar-se da superstição na qual ela tinha crescido, de modo que na morte do corpo, sua alma não seria perdida’.

Pode-se especular sobre o que poderia ter acontecido se Feckenham tivesse convertido Jane, é claro, mas existem poucas indicações de que Maria, que tinha executado o Duque de Northumberland no Agosto passado, apesar de sua dramática conversão ao catolicismo, teria oferecido qualquer barganha espiritual.

Aliás, Jane deixou que Fleckenham a acompanhasse ao cadafalso, onde ela despediu-se dele carinhosamente e disse-lhe que ‘durante esses poucos dias ela estava mais aborrecida com ele do que com medo da sombra da morte’.

  • Jane recusou-se a escrever para sua mãe antes de sua morte.

Jane escreveu cartas para seu pai e sua irmã Catarina antes de sua morte, mas nenhuma mensagem para sua mãe, Frances, sobreviveu, levando muitos a citar essa omissão por parte de Jane como prova das falhas de Frances como mãe. Na verdade, Michelangelo Florio, que serviu como o tutor de italiano de Jane, afirmou em ‘Historia de la vita e de la morte de la l’Illustrissima Signora Giovanna Graia’ que Jane escreveu para Frances antes de sua morte. Pode ter acontecido que a carta simplesmente se perdeu ou foi destruída.

'A morte de Jane Grey', de S.C. Goodrich em 1868.Em uma outra carta, Jane disse ter escrito duas mensagens para seu pai, uma das quais aparece em seu livro de orações; a outra é uma carta que começa com ‘Pai, ainda que aprouve a Deus apressar a minha morte por você, por quem minha vida deveria ter sido prolongada’. O livro de orações, é claro, sobrevive na Biblioteca Britânica, mas como Eric Ives observou em seu livro sobre Jane Grey, o original não está lá. Ele apareceu pela primeira vez na edição de 1570 do Livro dos Mártires de John Foxe. Como Ives aponta, o estilo das duas cartas diferem consideravelmente: Jane escreve a seu pai, o Duque de Suffolk, no inquestionável livro de orações, como ‘Sua Graça’, enquanto a outra carta começa abruptamente com ‘Pai’. Além disso, Ives também nota que a carta faz referência a prisão do Duque (ele foi levado para a Torre em 10 de fevereiro) e pergunta porque Jane acharia necessário escrever para seu pai duas vezes em um período tão curto de tempo. Assim, há uma boa razão para duvidar da autenticidade da carta.

  • Guildford Dudley chorou copiosamente durante seu caminho para o cadafalso e em sua execução.

Guildford Dudley tem sido retratado em livros de não-ficção e em romances históricos como choramingando todo o caminho no cadafalso, o seu comportamento indigno contrastando com a de sua calma, segura mulher. Na verdade, o único relato contemporâneo de sua morte indica que, enquanto ele caminhava para o cadafalso sem a companhia de um sacerdote – mas cercado de pessoas bem-intencionadas – ele estava calmo e digno. No cadafalso ele fez um breve e simples discurso que não foi registrado, sem perder o controle de suas emoções.

Lady Jane Grey vendo o corpo de seu marido sendo arrastado após a execução. Marcus Stone, gravura de E. Dalziel, 1862.

  • Jane estava grávida quando morreu.

Thomas Chaloner, escrevendo depois da morte de Maria I, escreveu que Maria ‘não estava agitada pela coragem, nem a proximidade de sangue e nem pela gravidez de Jane’. Seu texto foi traduzido por Dr. Stephan J. Edward, e ele observa que não há nenhuma outra evidência de que Jane estava grávida no momento de sua morte, fato que é confirmado de que Jane não esteve com Guildford desde Julho de 1553, de modo que sua gravidez estaria avançada em Fevereiro de 1554 e é altamente improvável que ninguém tivesse percebido.

Traduzido do artigo ‘Myths About Lady Jane Grey’s and Guildford Dudley’s Executions‘ escrito por Susan Higginbotham.

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4 comentários sobre “Mitos sobre a execução de Jane Grey e Guildford Dudley

    • Matheus, não existe nenhum filme ‘específico’ do reinado de Maria; geralmente os filmes mostram o começo do reinado dela (como é no caso dos filmes sobre Jane Grey) ou o fim de seu reinado (que é o caso dos filmes e séries sobre Elizabeth Tudor).

  1. Levando em consideração a religiosidade de Maria, talvez, se Jane tivesse se convertido e implorado o seu perdão, ela teria desistido da execução

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