A educação de Ana de Cleves

Ana de Cleves, por Kristina Gehrmann

‘Enquanto Catarina e Ana Bolena tinham sido jovens sofisticadas, fluente em várias línguas e competentes nas artes cortesãs, e Joana Seymour tinha beneficiado de uma educação renascentista respeitável, Ana era uma campónia. Só falava alemão, não sabia música e só conhecia as danças de sua zona. Para um homem com necessidades não só físicas, mas também intelectuais, que esperava que a sua consorte brilhasse na corte e fosse patrona das artes, ela era um desastre potencial’.

(LOADES, 2010, pág. 122)

A mãe de Ana de Cleves, Duquesa Maria de Julich-Berg, era uma mulher rigorosa quanto á educação de suas filhas e não apreciava nenhuma das novas idéias da Renascença sobre a educação das mulheres. Ana tinha sido destinada desde muito jovem a se casar com Francis de Lorraine e, assim, sua família não achava necessário mandá-la para outro lugar obter educação. Muitas mulheres reais e nobres eram mantidas em casa até que fossem velhas o suficiente para casar. A própria Duquesa Maria parecia aceitar a visão contemporânea de que a natureza feminina era fraca e vulnerável; portanto, as filhas deveriam ser mantidas em casa, tendo mais atenção do que os filhos. Para proteger sua virtude, os pais e guardiões vigiavam as mulheres de perto e a mantinham ocupadas com devoções e trabalhos religiosos. As qualidades encorajadas nas meninas eram humildade, e a instrução feminina não era vista com bons olhos.

Como se sabe, Henrique era um músico talentoso, e também tinha grande amor pelo canto e pela dança. Não sabendo nem dançar, nem cantar, nem ler e escrever em outras línguas Ana ocupava grande parte de seu tempo livre ‘com sua agulha’. Isso sozinho não era ruim, uma vez que Catarina de Aragão também costurava muito. O problema é que a Corte inglesa estava acostumada com mulheres que faziam mais do que simplesmente costurar.

Duque Johan III de Cleve-Jülich-Berg adorando a Virgem Maria, feita com os traços faciais de sua esposa, Maria de Jülich-Berg.Elizabeth Norton, em seu livro ‘Anne of Cleves: Henry VIII’s Discarded Bride’ aponta que a educação de Ana foi controlada por sua mãe, uma católica devota, e que seu pai, embora ‘influenciado pela reforma religiosa’ era humanista, e não luterano, ‘mantendo-se perceptivelmente muito com um católico, embora reformado’. Norton continua que ‘a ausência de qualquer referência à sua religião durante o reinado de Eduardo suegere que ela conformada com a fé reformada’, mas que ela proeminente nos primeiros anos na Corte do reinado de Maria, estava feliz em assistir à missa e que ‘não há nenhuma evidência de que Ana realmente adotou o Protestantismo e que ela morreu confirmadamente como uma católica’. Como podemos ver, existe a possibilidade de que, para sobreviver, Ana ficasse ‘em cima do muro’ quando à religião.

Muito do que sabemos sobre a educação de Ana vem do comissário do Rei, Nicholas Wotton, que visitou-a em 1539. ‘Sua mãe’, narrou ele, ‘é seu guia; pode-se dizer que a filha nunca se afasta do seu lado. Sabe ler e escrever em sua própria (língua) mas não sabe nem francês, nem latim, nem qualquer outra língua; também não canta nem toca qualquer instrumento, pois aqui na Alemanha é tido como censurável e frívolo o facto das grandes damas aprenderem ou terem quaisquer conhecimentos de música. Mas, inteligente como é, certamente aprenderá o inglês em pouco tempo, desde que se decida a fazê-lo’. Os alemãs eram conhecidos por gostar de beber, mas não houve indícios de que Ana compartilhava deste gosto. ‘Outra coisa deveras consoladora’, escreve Wotton, ‘não gosta demasiadamente de cerveja’.

Hutchinson também escreve que ‘os sinais de aviso estavam todos à vista, para quem os conseguisse detectar’. ‘Ana não caçava, não sabia cantar, nem tocar instrumentos musicais – três dos passatempos preferidos de Henrique -, mas era uma costureira dotada. Era pouco sofisticada, desinteressada e pouco versada em assunto de homens e de amor.’

Henrique VIII e Ana BolenaAlguns escritores citam os comentários de Wotton sobre música e cerveja para criar um aspecto negativo de Ana. Pelas características da corte inglesa, era triste que ela não soubesse tocar ou cantar, mas a falta de  ensino não significava que ela ou sua mãe fossem incapazes de apreciar música. A corte Juliers-Cleves tinha uma orquestra de oito a dez músicos, assim como alguns cantores, e existem documentos sobre as favoritas músicas de harpa da Duquesa Maria. Desse modo, é possível que Ana não só gostasse de música como também é possível que ela soubesse admirar as habilidades musicais de seu marido. Com exceção de seu treinamento em música, a educação de Ana parece similar a de outras mulheres inglesas aristocráticas, inclusive Jane Seymour, pois não existe qualquer evidência de que ela soubesse qualquer língua que não a inglesa.

Bibliografia:
LOADES, David. As Rainhas Tudor – o poder no feminino em Inglaterra (séculos XV – XVII). Tradução de Paulo Mendes. Portugal: Caleidoscópio, 2010.
HUTCHINSON, Robert. ‘Os últimos dias de Henrique VIII’. Tradução de Gonçalo Praça. Portugal: Casa das Letras, 2010.
FRASER, Antonia. As Seis Mulheres de Henrique VIII. Tradução de Luiz Carlos do Nascimento e Silva – 2º Edição – Rio de Janeiro: BestBolso, 2010.
WARNICKE, Retha M. ‘The Marrying of Anne of Cleves: Royal Protocol in Early Modern England’. United Kingdom: Cambridge University Press, 2000.

Anúncios

8 comentários sobre “A educação de Ana de Cleves

  1. E eu estava aqui arrancando meus cabelos com um artigo sobre Ana em alemão! haha Gosto muito do seu trabalho!!

    • Obrigada! É exatamente por isso que pretendo escrever mais artigos sobre Ana de Cleves, é muito difícil achar coisas sobre ela, principalmente em portugês!

  2. Ola, Sora! Tenho acompanhado seu blog desde sempre, mas nunca comentei, embora eu tenha ficado MUITO propensa a faze-lo no ultimo artigo sobre a aparência de Ana Bolena, já que tenho algumas informações q não foram dispostas aqui e gostaria de compartilhar… Enfim, admiro a qualidade das fontes, que vc nos passa. Eu sou uma curiosa de hist medieval e estudo o tema há mais de 10 anos. Ana Bolena, tem sido uma grande paixão, além de outros personagens do sec 15 e 16. Acho q li sobre vc gostar de Philippa Greg., eu tb AMO! Ela é sem duvida a minha historiadora e escritora predileta, independentemente do quanto ela mude a história ;) Vc tem sido minha segundo historiadora predileta.
    Obrigada pela dedicação!

    • Olá! Não fui eu que escrevi o artigo sobre a aparência de Ana Bolena, eu somente traduzi (quem escreveu foi Susan Bordo e Lucy Churchill). Sobre Philippa Gregory, eu gostava dos livros dela antes de conhecer a ‘verdadeira’ história – agora sou muito mais fã de Margaret George! Sobre fieldade histórica, os livros dela são sem comparação, eu a recomendo muito, assim como Hilary Mantell.

      Obrigada pelo comentário! Eu me sinto muito mais motivada a escrever e traduzir quando leitores postam comentários :)

      • Oi, Sora! ADORO Hilary Mantell! Tb gosto de Margaret George. A versao dela sobre Cleopatra é a minha predileta,mas entre as 2 ainda fico com Philippa. Já leu algum artigo científico da Philippa? O trab dela como historiadora é ainda melhor q o de escritora… E eu nao gosto nada da Susan Bordo, desculpe …..acho q ela peca por palpitar demais e pesquisar de menos..mas quem sou eu?… amo msm o seu blog! Antes de encontrar o boullan eu me sentia uma solitaria
        ;)

        • Olá! Eu não me lembro de ter lido nenhum artigo da Philippa. Eu também não gosto da Susan Bordo, mas alguns dos textos que ela escreve são realmente legais – como você disse, fora aqueles que ela palpita demais, e também detesto o fato dela sempre criticar outros escritores (acho pura dor de cotovelo). Ah, que bom que você se encontrou aqui!

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s