De onde veio o cabelo ruivo dos Tudor?

A Rainha de Sabá em um manuscrito medieval, cerca de 1405.Um número notável dos Tudor tinha cabelos ‘vermelho dourado’. Embora a maioria dos ruivos venha da Escócia, Irlanda e outros países teutônicos, a cor pode aparecer em qualquer lugar, de modo que temos que assumir a fonte mais provável. Somos dependentes de descrições contemporâneas sobre a aparência dos Tudor e isso deixa em aberto a possibilidade de erro humano e preconceito.

O padrão de beleza medieval era cabelos vermelho dourado. A beleza na Idade Média era muitas vezes comparada com a coloração do norte da Europa. Por exemplo, representações medievais da Rainha de Sheba (célebre soberana do antigo Reino de Sabá) retratam-na de pele negra, mas de cabelos dourados, provavelmente numa tentativa de conciliar os dois padrões de beleza.

Os Tudors eram descendentes de um grupo de cavalheiros em ascensão que casaram com viúvas bem-nascidas ou, no caso dos Beauforts, uma viúva de nascimento humilde com a de um cavaleiro. Nós não sabemos a cor do cabelo ou até mesmo a aparência, mas a maioria desses primeiros indivíduos deve ter sido de acordo com os padrões da época.

É inútil ir muito longe nas gerações, pois o mais longe que você irá menor a importância estatística que o ancestral terá em qualquer gene. Por uma questão de brevidade, vamos começar com Elizabeth Woodville.

Efígie de Elizabeth Woodville usada em seu funeral, em 1503.Todos os Tudors após Henrique VII são descendentes de Elizabeth Woodville através de sua filha Elizabeth de York. Elizabeth Wooville é ‘bonita’, mas não é descrita de outra forma. Alguns retratos mostram Elizabeth Woodville com o cabelo vermelho e outros mais loura.

Elizabeth Woodville e os Tudors tiveram uma origem semelhante: uma princesa viúva de bom nascimento se casa com um humilde homem em seu serviço. Jacquetta de Luxemburgo, metade italiana e metade francesa, casou-se com Sir Richard Woodville, após a morte de seu primeiro marido, o Duque de Bedford. Como Sir Richard era só podemos sonhar, mas o fato é que ele não só conquistou a mão da duquesa, como também foi pai de pelo menos dezesseis de seus filhos, dos quais Elizabeth seria a mais famosa.

Elizabeth de York era ruiva, de acordo com o único retrato conhecido dela. Filha de Elizabeth Woodville e Eduardo IV, neta de Jacquetta de Luxemburgo. Se o gene ruivo veio do lado de seu pai é uma incógnita – ele tinha cabelos castanhos, era inglês, com um pouco de sangue espanhol e inglês mas, principalmente, inglês. Ele e sua esposa eram primos de segundo grau.

Muito pouco se sabe sobre Elizabeth de York. Nada sobre sua educação, opinião, tendencias políticas ou aparência. O que pode ser verificado pelo comportamento posterior de seus filhos nos pode dar uma idéia de como ela fora considerada por sua família, dando-lhes uma identidade familiar.

A geração de Henrique VIII era mista. Tanto Henrique quanto Artur tinham cabelos vermelhos. Margaret provavelmente tinha genes para isso – sua neta, Maria Stuart, embora os primeiros registros franceses mencionam que seu cabelo era castanho ‘quase cinza’, também foi referida como ‘ruiva’ e até mesmo loura.

Maria Tudor, Rainha da França. Artista desconhecido.Maria Tudor, a outra irmã de Henrique VIII, no entanto, tinha cabelos ruivos mais escuros, mas eles poderiam ser mais claros quando era jovem. Em seu livro ‘The Last Medieval Queens’ JL Laynesmith diz que havia uma expectativa cultural de que rainhas fossem louras:

‘Um atributo físico de mais significado simbólico que parece ter sido particularmente importante para rainhas do século XV era ter cabelos louros’.

No norte da Europa, por exemplo, a Virgem Maria era retratada de cabelos louros. Para rainhas medievais, o cabelo do louro provavelmente tinha similaridades com o ouro, com todo o simbolismo da realeza implicado. Não podemos saber se, quando se casou com o rei francês, era esperado de Maria Tudor ter cabelos dourados, mas existe essa possibilidade, especialmente proque Maria compartilhava do nome da virgem e tinha como irmão um dos reis mais ricos da Europa. Assim, os observadores podem ter descrito o cabelo de Maria como ‘louro’ ao invés de ‘ruivo’ ou ‘vermelho dourado’.  Em alguns retratos de Elizabeth de York, por exemplo, é possível ver cabelos ruivos, mas um cronista em sua coroação menciona que ela tinha cabelos louros.

Retrato Póstumo de Henrique VII, por English School em 1510-1520.A cor do cabelo de Henrique VII não é muito descrita, provavelmente porque era uma cor comum, e também porque o rei costumava usar cores mais escuras e chapéus – ele não era um homem pomposo. Henrique era 1/4 galês, sua mãe era uma Beaufort, de modo que ele e sua esposa eram descendentes de Catarina Swynford. Pode-se sem dúvida fazer a afirmação de que Catarina Swynford ou algum Beaufort tinha cabelos ruivos, já ambos os Stuart e Tudors tinham seu material genético. Pode-se imaginar que Catarina de Valois provavelmente não tinha a possibilidade de ter cabelo ruivo ou louro uma vez que nenhum dos seus parentes próximos eram ruivos.

Catarina de Aragão era uma princesa notavelmente linda para os padrões da época. Ela tinha cabelos dourados e pele clara, não era nenhum pouco morena. Sua aparência deixou tudo mais agradável para o sogro Henrique VII. Ela era uma descendente legítima de John de Gaunt, o famoso filho de Eduardo III, enquanto Henrique VII era produto de um caso de John de Gaunt com Katherine Swynford. Catarina de Aragão foi vista pelos ingleses como sendo inglesa de sangue.

Maria Tudor tinha cabelos vermelhos, uma vez que era filha de Henrique VIII e Catarina de Aragão. Ela, assim como sua mãe, era considerada linda quando criança. Mas quando crescia Maria se tornou ranzinza, assim como ambos seus pais. Ao contrário dos filmes, Maria nunca foi feia. Ela era uma criança bonita. Quando chegou aos seus trinta anos, alguns a consideravam ‘simples’, mas nunca feia.

O cabelo de Eduardo VI era mais louro, e Elizabeth Tudor louro-avermelhado. Após a geração de Elizabeth, a cor de cabelo dos Tudor tornou-se mais do que beleza ou aparência. Era visto como uma prova de que era um Tudor legítimo. Os comentários dos visitantes da corte estariam na coloração do cabelo de todos os filhos de Henrique VIII. Que Maria nasceu com os cabelos louro-avermelhados não é surpresa. Mas deve ter sido um grande alívio para Ana Bolena, de cabelos pretos, que seu único filho – apesar de ser uma filha – tinha os cabelos vermelho-dourados dos Tudor. Isso foi de fato observado: quando a paternidade de Elizabeth foi questionada, sua aparência pôs de lado todas as dúvidas.

O mesmo se aplica aos monarcas escoceses. James V, filho da irmã de Henrique VIII, Margaret, nasceu com cabelos ruivos. Quando Henrique excluiu a linhagem de Margaret de seu testamento, ele o fez sob a suposição de que os filhos de Margaret não eram filhos legítimos dela (embora eles obviamente fossem filhos de Margaret), mas isso era muito provavelmente falso. O primeiro marido de Margaret, James IV, não era realmente descendente de escoses.Seu pai era alemão e dinamarquês, com alguma ascendência nos Beaufort.

Jane Grey é mencionada como tendo cabelos ruivos. Ambos os pais diziam que tinham Elizabeth Woodville como antepassado. O pai de Jane era um Grey, produto do primeiro casamento de Elizabeth Woodville, e a mãe de sua mãe era uma Tudor.

Que o cabelo vermelho era popular na Inglaterra elisabetana é inegável. Mas era popular no continente? Nem tanto. Talvez porque os ingleses tentavam imitar seus monarcas, ou porque era visto como um fenônomeno inglês/escoeses. Os Habsburgo tinham uma grande proporção de louros, herdados, possivelmente, da mesma raiz que deu a Catarina de Aragão seu cabelo vermelho-dourado (que, ironicamente, pode ter sido os mesmos genes que deram aos Tudor seu cabelo vermelho-dourado).

Os Tudors, embora tenham origens galesas, não eram galeses totalmente. Henrique VIII era 1/8 galês. Ou seja, ele era principalmente inglês. Que quatro de suas seis esposas foram inglesas e que suas duas noivas estrangeiras ou eram de sangue real parcialmente inglês ou loura deve significar alguma coisa. Outra candidata para a mão de Henrique VIII após a morte de Jane Seymour foi Christina da Dinamarca, que era muito loura e também descendente de Lancaster.

O que todos Tudors louros e ruivos têm em comum é a descendência de John de Gaunt. Muitos deles também eram decendentes dos Beaufort via Catarina Swynford. Então, todos eram primos distantes. O surpreendente é que apenas de 1 a 2% da população humana é ruiva (obviamente, as estatísticas eram diferentes no século 16).

Bibliografia:
VIRAG, Melissa. ‘Where the Tudor Red-Gold Hair came from‘. Acesso em 13 de Janeiro de 2014.
Description of Mary Tudor Brandon’s exhumation‘. Acesso em 13 de Janeiro de 2014.

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4 comentários sobre “De onde veio o cabelo ruivo dos Tudor?

  1. Muito legal esse post! Eu queria saber, no livro da philippa gregory, A rainha branca, ela diz que Elizabeth acreditava na deusa Melusina. Existe alguma verdade nisso? Eu sei que era uma época perigosa para se acreditar em qualquer coisa não cristã. Mas a crença nessa deusa é real? Não só pela familia de Elizabeth, mas por outros?

    • Olá Andrezza! A família de Jacquetta/Elizabeth era ligada a Melusina, mas não existem evidências que indiquem que elas celebravam essa ligação, apesar do que diz o livro de Gregory. Eu concordo com você, acho que dificilmente elas ficariam se gabando disso, até porque ambas eram alvo de acusações de bruxaria. Evidências apontam que Jacquetta tinha um livro de romance sobre a história de Melusine, mas qualquer outra mulher do século 15 também poderia ter um :)

  2. Oi, sora! Otimo artigo!!! Nunca me ocorreu que o tudor ginger fosse material de especulacao, ate pq os motivos me parecem um tt qt obvios… So comigo isso? Apesardisso, sempre me perguntei como henry viii se sentia vendo o vermelho de sua familia nos cabelos da filha renegada…gosto de pensar q a cor dos cabelos de Elisabeth afrontavam silenciosamente o pai, numa ironia daquelas so o proprio destino pode criar. Seu blog eh fantastico!!!

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