O Funesto dia de Primeiro de Maio de 1517

'King Henry VII Fining the Citizens of Bristol Because Their Wives Were So Finely Dressed', por Thomas Edwin Mostyn em 1919.O custo da vida aumentara muito em 1517. Segundo cronistas da época ‘os pobres artífices ingleses mal podiam ganhar a vida; e a maior parte dos estrangeiros eram tão arrogantes que desprezaram, escarneciam e oprimiam os ingleses’. ‘Os artífices forasteiros em geral superavam de muito os ingleses, em habilidade, indústria e frugalidade’. E os estrangeiros eram poderosos. Os flamengos, que possuíam a técnica da tecelagem, eram cerca de cinco mil. Os franceses formavam outra colônia. Os italianos, banqueiros, importadores de seda, fabricantes de belas espadas e armaduras, trabalhadores em madeira e em pedra, eram ricos e  numerosos. A liga hanseática do Steelyar, que trazia o ferro, o couro, a madeira de construção, os pregos, o alcatrão, as mesas, as caixas, as cordas e a cera, era tão ciosa de seu monopólio e impopular como o pode ser um ente humano.

O primeiro dia de maio na Inglaterra Tudor era um feriado tradicional, normalmente reservado para festa e folia, mas naquele dia em 1517 a cidade de Londres explodiu em um motim que deve ter aterrorizado os cidadãos amantes da paz quase tanto quanto as suas vítimas. Naquela noite, uma multidão de jovens revoltados, de pelo menos mil pessoas, se reuniram na zona norte de St. Paul’s e tumultuaram a cidade por cerca de uma milha, destruindo propriedades e agredindo quem estava em seu caminho. A maioria dos insurgentes eram trabalhadores pobres, tanto barqueiros quanto artífices e aprendizes no curtimento da cerveja, apoiados por algumas mulheres e jovens clérigos. Eles foram para o leste da  St. Nicholas’ Shambles e invadiram a prisão de Newgate, libertando vários presos que haviam sido recentemente detidos por atacarem estrangeiros. O ímpeto da revolta parece ter sido temporariamente interrompido na St. Martin’s Gate, onde Thomas More tentou bravamente, mas sem sucesso, convencê-los ao voltarem de suas casas. No entanto, uma saraivada de pedras, tijolos e água quente jogado na multidão pelos moradores reacenderam suas iras.

Mais tarde, em Leadenhall, a fúria dos manifestantes se concentrou na casa de um John Meautysm, um comerciante da Picardia e secretário de Henrique VIII, que tinha uma reputação de abrigar batedores de carteiras franceses e cardadores de lã sem licença. Ele teve a sorte de escapar com vida. As casas e lojas dos sapateiros estrangeiros, que povoaram a região, foram saqueados e seus estoques jogados na rua. As autoridades pareciam impotentes diante da multidão. O motim começou a se esgotar depois de cinco ou seis horas e às três da manhã a paz tinha sido restaurada. Ninguém foi morto, mas muitos ficaram feridos e a destruição foi feita em uma faixa da cidade.

De acordo com o cronista Edward Hall, a culpa do motim, em primeira instância, é de um só homem: John Lincoln, que atribuiu os males da economia e da sociedade aos milhares de comerciantes estrangeiros, financiadores e artesãos que vivam em Londres. Licoln procurou usar os sermãos que seriam feitos na St. Paul’s Cross  como um modo de ventilar suas queixas. Standish, o pregador designado para a segunda-feira de Páscoa, rejeitou sua idéia, mas ele encontrou um aliado mais simpático em Dr. Bell, um cânone da St. Mary Spital, que tinha sido nomeado como orador na terça-feira.

Riot of the Apprentices, por Clive Uptton.Naquele dia, Bell começou seu sermão com um discurso inflamatório contra os ‘estrangeiros e peregrinos [que] comem o pão dos pobres órfãos, tomam a vida de todos os artífices e as relações dos comerciantes’. Ele continuou dizendo que ‘esta  terra foi dada para os ingleses, e como os pássaros que defendem seus ninhos, os ingleses devem valorizar e defender-se, ferir e afligir os estrangeiros para o bem público’. Este aparente apelos as armas, de acordo com Hall, deu coragem para muitas pessoas se rebelarem contra os estrangeiros.

Grande parte da culpa também se deve a uma falha do governo. Dois dias antes do motim, alguns jovens da cidade se envolveram em uma série de ataques esporádicos contra estrangeiros. ‘Alguns foram feridos, alguns levaram bofetadas e alguns foram jogados no canal’, reportou Hall. Como os malfeitores foram apreendidos e presos, abundavam rumores de ‘que no próximo dia de maio a cidade se rebelaria e mataria todos os estrangeiros’. Foi neste contexto que, na tarde de 30 de abril, Wolsey convocou o prefeito de Londres, John Rest, na sua casa em York Palace, e perguntou-lhe sobre as ameaças. Sobre a pressão do Cardeal, Rest prometeu manter a paz ou enfrentar as consequências caso não o fizesse. Durante três horas foi discutido se uma milícia ‘de pessoas honestas’ seria criada para resistir ao ‘malfeitores’, ou se uma ordem seria emitida para cada um fechar suas portas e manter seus servos com eles’? Sua propsota foi um toque de recolher durante a noite, que chegou a Wolsey em torno das 20hs e sua aprovação foi dada às 20:30hs.

Sem surpresa, a aplicação do toque de recolher mostrou-se impossível. Sir John Mondy, um vereador, enquanto estava voltando para sua casa através de Cheapside, às 21hs, viu dois jovens praticando esgrima com uma grande multidão assistindo. Ele exigiu que retornassem para suas casas e tentou fazer uma detenção. Todos defenderam os homens que estavam lutando e Mondy fugiu ‘em grande perigo’.

Henrique VIII, em 1520. Artista desconhecido.O rei Henrique fora avisado do tumulto iminente, e manteve-se a respeitosa distância.

‘Tendo tido notícia de que os londrinos estavam em armas, e assaltavam os estrangeiros, ele se levantou à meia-noite, e pôs-se a caminho com muita gente, e mandou mensageiros a Londres, anunciando a sua chegada com um numeroso exército; mas, na realidade, não deixou Richmond’.

Apesar das promessas de Rest, o governo da cidade perdeu o controle da situação com os tumultos. O Cardeal parece ter feito nenhuma preparação para o problema, apesar dos sinais de alerta. Apenas quando as notícias dos tumultos chegaram a ele entre 22hs e 23hs ele reforçou  as defesas de York Palace. As tropas reais só chegaram na cidade às 5hs da manhã, quando o Duque de Norfolk e seus homens começaram a fazer prisões, e em duas horas  a multidão começou a se acalmar.  Os aprendizes não mataram ninguém, mas aterrorizaram a todos. Os patíbulos foram erguidos por toda a cidade, e quarenta deles foram ‘cruelmente enforcados e esquartejados, de sorte que era horrível passar próximo das portas da cidade’. Quatro mil soldados em armas ocuparam os acessos, e centenas de obreiros foram lançados na prisão.

Em 4 de maio, 278 homens, mulheres e crianças, algumas com apenas 13 anos, desfilaram pelas ruas de Londres, amarrados com cordas, para comparecerem perante o prefeito, o Duque de Norfolk, e o Conde de Surrey na acusação não de revolta, mas de alta traição, com o fundamento de que um ataque aos estrangeiros constituíam uma violação de paz do reino. Para um maior impacto, 10 ou 11 forcas especialmente construídas foram posicionadas em vários locais ao longo do caminho e no dia seguinte 13 pessoas foram condenados e executados.

Oito dias depois o rei Henrique chegou em toda sua irada majestade, com o Cardeal e o Conselho, o Lorde Mayor e os vereadores, a Rainha Catarina, a Rainha Margareth da Escócia e a Rainha Maria, agora Duquesa de Suffolk, e tomou lugar sob um alto dossel erguido em Westminster Hall, em uma esplêndida cerimônia pública, diante de uma multidão de talvez 15 mil pessoas. ‘O rei ordenou que todos os prisioneiros fossem trazidos à sua presença. Apresentaram-se então os pobres rapazes e os velhos patifes desleais, amarrados em filas, todos em camisa e com um baraço ao pescoço, em número de quatrocentos homens e onze mulheres’.

Riot of the Apprentices, por Clive Uptton.O Cardeal pediu graça para eles. O rei recusou. Então os presos caíram de joelhos gritando: ‘Piedade, piedade!’.  As três rainhas, Catarina, Margareth e Maria, estavam tão comovidas que se ajoelharam também. Henrique continuou a recusar. O embaixador veneziano escreveu, em 19 de Maio de 1517, que os quatrocentos prisioneiros estavam destinados à forca, ‘mas que a nossa serenessíma e compassivíssima rainha [Catarina], com lágrimas nos olhos e de joelhos, obteve de Sua Majestade o perdão para eles, com o ato de graça sendo realizado com grande pompa’.

Na verdade, essa clemência abrupta foi quase certamente planejada por Wolsey e pelo rei para reafirmarem sua própria autoridade, dissuadindo outros rebeldes em potencial em curto prazo. A mesma estratégia seria usada pelo rei na Peregrinação da Graça, 20 anos depois.

Pelos padrões do continente, Londres não era uma cidade propensa a conflitos violentos no século XVI. De fato, como um motim racial, o ‘Evil May Day’ foi exclusivo para o período. Suas causas foram profundamente enraizadas na ansiedade e frustrações dos jovens pobres que viam, ou imaginavam que viam, os estrangeiros receberem privilégios injustificados.

Bibliografia:
NOBLE, Graham. ‘‘Evil May Day’: Re-examining the Race Riot of 1517‘. Acesso em 2 de Maio de 2013.
FRASER, Antonia. As Seis Mulheres de Henrique VIII. Tradução de Luiz Carlos do Nascimento e Silva – 2º Edição – Rio de Janeiro: BestBolso, 2010.
HACKETT, Fracis. ‘Henrique VIII’. Tradução de Carlos Domingues. Rio de Janeiro: Irmãos Pongetti Editores.

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