Elizabeth, a Rainha Virgem, era mesmo virgem?

A monogamia, castidade e celibato deve ter sido praticado por alguns elisabetanos, mas estavam longe de ser uma regra. E ainda assim, à frente desta nação vibrante e emocionante – crescendo, ficando mais ricos, alcançando novos mundos – estava uma mulher que suprimiria seus próprios desejos. Ela não se casaria ou teria filhos, e permaneceria durante os 45 anos de seu reinado como a inalcançável Rainha Virgem.

A recusa de Elizabeth em se casar foi inesperado: ela poderia escolher qualquer homem. Como resultado de sua aversão ao matrimônio, ela passou a ser chamada de ‘Rainha Virgem’. Embora seja claro que ela nunca se casou, seu status como virgem é de uma dúvida considerável. Sexo estava longe de ser um tópico de discussão da época e seus romances não foram registrados com os mesmos detalhes esplícitos como poderiam ser hoje. No entanto, há fortes indícios que ela teve muitos casos. Ela certamente teve muitas oportunidades: ela estava constantemente cercada por homens, e estava em uma posição de poder sobre eles.

Aos 14 anos, Elizabeth tinha se envolvido com Thomas Seymour, casado com Catarina Parr. Ambos tinham uma energia sexual muito forte e Seymour era conhecido por ser mulherengo, mas não se sabe até que ponto chegou o seu envolvimento. Pouco tempo depois, surgiram boatos de que Elizabeth estava grávida, mas Elizabeth sempre negou ter tido relações sexuais com ele. É claro que não ia dizer outra coisa, mas de acordo com David Loades, ‘é possível que fosse verdade’. O que ficou claro a partir desse episódio é que Elizabeth descobriu que atraía sexualmente os homens.

Recentemente tem-se afirmado que ocorreram mesmo relações sexuais e que o facto de não ter engravidado convenceu Isabel de que era infértil. No entanto, trata-se de pura especulação, com base num comentário que a rainha proferiu em 1556, quando foi informada do parto bem-sucedido de Maria, Rainha dos Escoceses’.

(LOADES, pág. 228)

A relação da rainha com os homens eram muitas vezes expressos em termos românticos. Ela teve amizades provavelmente românticas com Sir Christopher Hatton, Lorde Chanceler de 1587-1591, Sir Walter Raleigh e, em sua velhice, com o jovem Robert Devereux. Mais que todos, seu caso mais divulgado foi com Robert Dudley. Durante a maior parte de sua carreira na corte Dudley viveu muito mais com sua rainha do que com su esposa. Escusado dizer que o fato de Robert ser casado com uma mulher que estava morrendo só fez mais fofocas na época. O favoritismo óbvio de Elizabeth para com Robert levantou algumas sobrancelhas, mas a maioria já estava bem consciente da situação entre os dois.

Tom Hardy como Conde de Essex e Anne-Marie Duff como Elizabeth Tudor na série "The Virgin Queen" em 2005.A afeição de Elizabeth para com Robert era tão grande que ela quase não se preocupava com as fofocas. Dizia-se que ela mantinha um quadro de Robert em seu quarto, e quando a esposa dele morreu, muitos especularam que Robert a tinha assassinado para que pudesse casar com Elizabeth. Outros teorizam que a própria Elizabeth encomendou o assassinato, embora a maioria dos estudiosos descarte essa idéia.

‘Conheço-a melhor do que qualquer homem vivo, desde que ela tinha oito anos de idade’, afirmou Robert. Em 18 de Abril de 1559 o embaixador espanhol relatou ao Rei da Espanha:

‘Durante os últimos dias, Lorde Robert tem estado tanto no favor [real] que faz o que quiser e ainda disse que Sua Majestade visita-o em sua câmara de dia e de noite.’

Se isso era ou não verdade, o fato é que a rainha dificilmente teria engravidado sem que ninguém soubesse. Por isso, é possível supor que eles fossem amantes, mas sem chegar a uma intimidade completa.

Em uma carta, Maria, Rainha dos Escoseses, dizia que Elizabeth ‘não era como as outras mulheres’, e de algum modo era fisicamente incapaz de consumar um casamento. De acordo com o dramaturgo Ben Jonson, o problema da rainha era uma má formação congênita que a tornava incapaza para o ato sexual. Para Jacques Chestened, a verdade é que, dos traumas sofridos, a rainha conservou um complexo físico-psíquico que lhe fez, ao mesmo tempo, desejar e temer o contato íntimo do homem.

A vida sexual de Elizabeth continua a ser um tema de interesse e debate hoje. No período elisabetano, a questão era uma fofoca constante, e embora não haja nenhuma evidência nesse sentido, a Inglaterra sussurrava sobre a possibilidade de Elizabeth ter filhos bastardos. No entanto, as razão reais para o estado de Elizabeth eram, provavelmente, muito mais prosaicos: ela gostava de seu envolvimento direto com o governo da nação e não queria diminuir  seu poder político ao partilhar-o com um marido.

Hugh Dancy como Conde de Essex e Helen Mirren como Elizabeth I na série "Elizabeth I" em 2005Elizabeth levava seu dever como rainha e como chefe da Igreja muito a sério. Ela estava plenamente consciente de que qualquer assunto romântico poderia prejudicar seriamente sua credibilidade; uma aventura romântica não significaria somente uma perda da face de Elizabeth aos olhos da nação, mas a perda de uma face da Inglaterra aos olho do mundo – uma situação inaceitável para uma mulher para quem a honra significava mais do que a própria vida.

‘Não vi sinais de uma vida indecente, mas vi muitos sinais de castidade, virgindade e da verdadeira modéstia, de modo que eu apostaria minha própria vida de que ela é muito casta…’

Nils Gyllenstierna, Barão de Lundland, para Eric,
rei da Suécia, 4 de abril de 1561.

Bibliografia:
LOADES, David. As Rainhas Tudor – o poder no feminino em Inglaterra (séculos XV – XVII). Tradução de Paulo Mendes. Portugal: Caleidoscópio, 2010.
DUNN, Mary. ‘Elizabeth e Mary: primas, rivais, rainhas’. Tradução de Alda Porto. Rio de Janeiro: Rocco, 2004.
CHASTENET, Jacques. A vida de Elizabeth I de Inglaterra. Tradução de José Saramago. São Paulo: Círculo do Livro S.A., 1976.
WILSON, AN. ‘Virgin Queen? She was a right royal minx! The outrageous flirting, jealous rages and nightly visits to a courtier’s bedroom of Elizabeth I‘. Acesso em 7 de Março de 2014.
A “Virgin Queen”?‘. Acesso em 7 de Março de 2014.
KREILER, Kurt. ‘Was Queen Elizabeth 1st a Virgin?‘. Acesso em 7 de Março de 2014.

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17 comentários sobre “Elizabeth, a Rainha Virgem, era mesmo virgem?

  1. Ela só ficou com esse título pq nao se casou com ninguem, e para aquela epoca isso era um sinal de virgindade e dava mais popularidade a ela…

  2. Para mim não há nenhum problema se a Rainha Virgem de virgem só tivesse o nome (e o signo). É até legal pensar que ela não fosse porque isso deixa ela mais carne e osso, menos mito e consequentemente, ainda mais admirável: ser uma mulher com todos os desejos e paixões e ainda governar uma nação. Quero dizer, não ter que abrir mão de nada e conseguir conciliar as duas.
    É claro que não era nenhum pouco fácil sendo constantemente vigiada e acompanha, mas não consigo evitar de pensar que ela e Dudley atravessaram a linha. Na minha opinião ele é bem mais do que qualquer outro favorito que ela teve, ele foi o mais próximo que chegou do trono. Enfim, esse é um pensamento muito subjetivo de qualquer modo.

  3. “Elizabeth, a Rainha Virgem, era mesmo virgem?” => gente pfvr, a Liz era belíssima, com certeza teve muitos amantes, se bobear teve uma vida sexual mais ativa que a das mulheres de hoje #atoron

  4. suponha que Elizabeth tivesse tido um envolvimento íntimo com Robert dudley( ou na verdade, inúmeros deles) o fato dela não ter tido nenhum filho não indica que ela não teve relações sexuais com Robert, naquela época já existiam alguns métodos contraceptivos, como o preservativo, feito de tripa de porco ou carneiro. naquela época já existiam as meretrizes, elas tinham meios de evitar filhos, se ELIZABETH tivesse tido algum filho, ela saberia que ele não poderia assumir o seu trono após a sua morte pelo fato de que ele seria um bastardo( filho gerado fora do matrimônio)

  5. Se ela de fato não era virgem, provavelmente era estéril, pois assim como diz o texto, uma possível gravidez seria quase impossível de se esconder. Agora, mito ou verdade, é uma das rainhas mais fascinantes da história da monarquia inglesa. :)

  6. Por que não podia ser mesmo virgem? Hoje há um reconstrucionismo histórico muito forte, mas houve épocas e épocas. Em determinadas culturas e momentos históricos, a sexualidade não era tão estimulada quanto é na nossa cultura brasileira contemporânea. Por que não poderia ter sido virgem?

    • Mas é claro que poderia. Diversos escritores e historiadores têm discutido que ser virgem e manter-se no celibato no século XVI ainda era visto como um sinal de religiosidade e pureza. No entanto, o que faz a virgindade da Rainha ser tão discutida é a presença constante de seus ‘favoritos’ na sua corte.

  7. Gostei bastante da matéria, estava pesquisando sobre como era a Inglaterra antes da revolução insdstrial e de repente algo me chamou atenção, o fato de saber a origem do nome Virginia que era uma das colônias da Inglaterra nessa época. O nome desse país é uma homenagem a rainha Elizabeth, a rainha virgem. E então eu comecei a me perguntar “Como? Por quê?”, aí eu fui pesquisar e acabei encontrando nesse site a matéria que matou a minha curiosidade. Bom em relação a rainha ser virgem ou não, para mim não tem muita importância, talvez ela tenha feito isso por motivos religiosos, talvez tenha escondido isso de todos. Mas acho que a sexualidade dela não diz respeito a ninguém. Só queria saber a justificativa dela ser conhecida assim.

    • Ah, a chance de exumação é mínima. Quando morreu, ela já exigiu que não fosse feito nenhum tipo de exame no corpo dela. Se Henrique VIII, cuja morte é tão misteriosa, eles já não aprovam; nem dos supostos corpos na Torre de Londres que poderiam ser os Príncipes da Torre, Elizabeth então nem se diga ;) Mas que seria interessante seria.

      • A morte de Henrique VIII foi misteriosa? Não sabia…vou pesquisar. Acho que a família real gosta de manter um mistério dos seus ascendentes.

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