A caluniada Frances Grey, mãe da Rainha de Nove Dias

Quadro de Maria Neville, antes identificado como Frances Grey, 1559. Poucas mulheres Tudor tornaram-se tão envoltas em mitos como Frances Grey (Brandon), Marquesa de Dorset e, mais tarde, Duquesa de Suffolk, mãe de Lady Jane Grey. São inúmeras as histórias de sua ganância, crueldade,  gula, violência contra sua filha e ambição desenfreada.

Frances Grey era filha de Charles Brandon, Duque de Suffolk, e Maria Tudor, irmã de Henrique VIII. Frances nasceu em Hatfield em 16 de Julho de 1517. Na primavera de 1533, Frances casou-se com Henrique Grey, Marquês de Dorset. Nascido em 17 de Janeiro de 1517, Henrique era apenas alguns meses mais velho do que sua noiva. Com a morte de seu jovem meio-irmão Frances em 1551, Henrique Grey foi feito Duque de Suffolk.

Uma mulher robusta, de um duplo retrato de Hans Eworth, ainda é usado para retratar a ilustre natureza de Frances (embora a mulher retratada tenha sido recentemente identificada como ‘Mary Neville, Baronesa de Dacre). ‘Fisicamente, ela tinha uma semelhança marcante com Henrique VIII’, observa Alison Weir. Aqui estava uma mulher determinada a ter seu próprio caminho, ávida por poder e riqueza, que governava o marido e as filhas tiranicamente e, no caso deste último, muitas vezes com crueldade.

‘A égua Grey, como a chamava Tom Seymour, era dois palmos mais altas que o franzino burro,seu marido, também mais gorda, porque tinha a propensão para engordar como a família Tudor. Para se livrar dessa obesidade ela procurava cavalgar nas caçadas, quasi furiosamente, sem prazer no esporte como o rei Henrique. Porém, os seus atos, iriam beneficiar outros. Ela tomava os freios da Ambição, como qualquer cavalo indômito, com evidentes planos acerca do futuro de Jane. Determinara casá-la com Eduardo, para fazê-la rainha da Inglaterra.

(IRWIN, pag. 42).

Provavelmente na primavera de 1537, Frances deu à luz a uma menina, Jane, em homenagem à última rainha de Henrique VIII, Jane Seymour. Frances tinha dezenove anos e Jane foi sua terceira criança:  dois filhos já tinham morrido.

Firmemente consagrado nas páginas de não-ficção populares sobre Lady Jane Grey está a noção de que seus pais se ressentiam dela por não ser um garoto. Hester Chapman escreve que ‘os Dorset estavam desapontados por não terem um filho’, e após o nascimento de Jane, Frances ‘não podia perdoar’ sua filha por causa de seu sexo. Alison Weir escreve que Henrique Grey ‘considerava Jane como uma pobre substituta para um filho que tinha morrido pouco antes de seu nascimento’. Em sua biografia, Mary Luke escreve dois parágrafos inteiros sobre como Frances ansiava em dar ao seu marido uma criança do sexo masculino, terminando com ela ‘soluçando dolorosamente’ quando ela descobre que deu à luz a uma menina. Mary Lovell, em sua biografia Bess of Hardwick escreve que após a morte dos filhos dos Greys, Frances deu à luz ‘a quem seus pais deixaram bem claro que foi uma grande decepção’. Nenhum desses autores citam fontes para suas reivindicações, pela boa razão de que ela não existe.

É verdade que Henrique e Frances Grey tinham perdido dois filhos, ainda na infância, antes do nascimento de Jane. Mesmo assim, não há evidências de que eles não aceitaram o nascimento de uma filha com felicidade, principalmente quando a criança sobreviveu a infância. Como Eric Ives aponta, Henrique e Frances Grey, os jovens Marquês e Marquesa de Dorset, não estavam nos olhos do público quando sua filha, que mais tarde seria famosa, nasceu, e nem sua data ou local de nascimento foi gravada, e muito menos a reação de seus pais quando chegou no mundo.

Henrique VIII morreu em 1547. Pouco depois, os Greys realizaram o ato para o qual a história os condenaria, concordando com o pedido de Thomas Seymour para que colocasse Jane Grey em sua tutela, na esperança de que Thomas intermediaria um casamento entre ela e o jovem rei, Eduardo VI. Isso foi tomado como uma prova da insaciável ambição dos Greys, mas qual o pai, dada a oportunidade de casar sua filha com um rei, deixaria a chance passar? Como qualquer outra garota rica, Jane também esperaria que seus pais fizessem o melhor para ela e a casassem com algum homem de alto status. Se Jane estava ciente desses planos não se sabe, mas não há nenhuma razão para supor que a possibilidade de casamento com o rei, seu primo, a teria desagradado.

Foi em agosto de 1550, no entanto, que Frances cometeria o maior erro de sua vida em termos de reputação histórica. Ela foi caçar com o resto da família, deixando Jane para trás com um visitante, Roger Ascham. Embora ninguém realmente saiba se Frances gostava de caça, ou se ela ia apenas por causa de um senso de obrigação social, isso não impediu que autores como Hester Chapman escrevesse sobre ‘seu prazer incansável de esportes ao ar livre e jogos de salão’, ou Alison Weir, ao garantir que Frances ‘não era mais feliz do que quando estava a cavalo’. Lady Jane Grey, por Lucas de Heere, 1555-60.Foi nesse momento que Jane fez uma famosa reclamação sobre seus pais, lembraria Ascham anos depois:

Porque, quando eu estou na presença de meu pai ou mãe, se eu falo, fico quieta, sento, levanto, vou, como, bebo, sou feliz ou triste, costurar, brincar, dançar ou fazer qualquer outra coisa; devo fazê-lo, por assim dizer, de tal forma, peso ou medida, perfeitamente como Deus fez ou mundo, ou então serei tão cruelmente ameaçara, às vezes até mesmo com beliscões, mordidas, ou pancadas

“Acho que encontro-me no inferno”, ela concluiu. As únicas vezes que ela esteve feliz, ela revelou, foram as vezes em que ela estava com seu tutor. O impacto da escrita de Ascham na reputação de Frances não pode ser subestimado. Os historiadores e romancistas usaram-o na construção de uma imagem de toda a infância de Jane. Qualquer possibilidade de que a Jane adolescente, assim com o qualquer adolescente inteligente, estivesse exagerando nas suas queixas, de que ela poderia ter falado com menos severidade de seus pais com o tempo e maturidade, ou que seus pais poderiam ter uma causa genuína para lhe disciplinar, tem sido ignorado por todos, com exceção de um punhado de escritores.

Não contente em extrapolar as queixas de Jane, escritores, mesmo aqueles que professam a escrever não-ficção, tem inventado casos de crueldade de Frances que simplesmente não tem nenhuma base histórica. A suposta biografia de Mary Luke traz histórias onde Frances sacudia Jane; Mary Lovell nos fala da crueldade de Frances para com seus servos, apesar do fato de que nenhum deles deixou nenhuma queixa registrada sobre ela (Na verdade, o único servo de Frances de que se sabe alguma coisa é Adrian Stokes, que se tornou seu segundo marido).

Mesmo a educação fina de Jane tem sido usada contra Frances e seu marido. Enquanto outros pais Tudor que deram a suas filhas educações clássicas são elogiados por suas noções esclarecidas em relação as mulheres, a educação de Jane Grey é tratada como parte de um plano a longo prazo para colocar sua filha no trono ou, de acordo com escritores mais generosos, como forma de compensar o fato de que eles não tiveram um filho vivo. Alguns escritores até mesmo descreverem os Greys como ressentidos das atividades intelectuais de Jane. Se isso fosse verdade, tido o que tinham de faze era tirar seus tutores e livros. Ao invés disso, eles permitiram que Jane se correspondesse internacionalmente e recebesse visitas de estudiosos.

Aqueles que acusam Frances de ser uma mãe cruel, é claro ,também apontam para a primavera e o verão fatídico de 1553, quando Jane se casou com Guildford Dudley e, quando Eduardo VI fez de Jane sua herdeira pouco antes de morrer. Estudiosos tem defendido incessantemente sobre se o casamento foi simplesmente aristocrático ou se fins mais sinistros estavam evolvidos, se foi Eduardo VI ou o Duque de Northumberland que originou o plano de colocar Jane no trono, mas nenhuma fonte contemporânea sugere que Frances, cuja pretensão ao trono era melhor do que sua própria filha, tenha influenciado esses eventos. Jane Grey, escrevendo na Torre depois que Maria tinha recuperado o trono, não coloca a culpa em seus pais. Embora algumas fontes italianas defendem que os pais de Jane forçaram-na a casar com Guildfort, fontes ingleses apontam que Jane nunca alegou ter sido forçada a se casar.

O sogro de Jane, John Dudley, fazia parte do Conselho. Desde que um governo feminino era considerado anormal, assumiu-se que o marido de Jane, ou seu srogro, assumiria o comando efetivo. Infelizmente para Jane, o amor de Eduardo para com os Dudley não era compartilhado com o resto do país. Lord Guildford Dudley, Lady Jane Grey, Henrique Grey, Marquês de Dorset e Maria Tudor. UK Magazine, 1975.De fato, John Dudley era amplamente odiado, considerado a raiz das políticas impopulares do Governo.

Um relato contemporâneo de Robert Wingfield registra que Frances articulou com a vitoriosa Maria Tudor de que eles foram vítimas das ambições dos Dudley, insistindo de que ela se opôs ao casamento de Jane. Sua proximidade com sua filha é sugerida pelos próprios comentários de Jane, que espelham sua mãe. Em um desabafo, Jane condena o sogro por ter ‘trago a mais miserável calamidade e miséria por sua demasiada ambição’.

Após a vitória de Maria I, Jane foi presa assim como seu pai. Frances viajou para uma hospedagem de Maria e convenceu a nova rainha a livrar Henrique Grey. Supô-se que Frances naõ fez nenhuma tentativa de pedir a liberdade de Jane, mas pode ser que Frances perguntou mas teve seu pedido recusado. Da mesma forma, não foi registrado que Frances visitou Jane na prisão, mas a Duquesa de Northumberland, que também é conhecida por ter trabalhado ativamente para obter a liberdade de seus filhos, também não os visitou. Frances parece ter tido um bom relacionamento com Maria, sua prima e madrinha, e talvez ela estivesse trabalhando silenciosamente nos bastidores, na esperança de convencer Maria a conceder a liberdade de Jane. Nós podemos apenas especular.

Qualquer chance de que Maria poupasse a vida de Jane, no entanto, evaporou-se quando Henrique Grey juntou-se à Rebelião de Wyatt, depois da qual Maria passou a acreditar que era necessário executar Jane e Guildford para a sua segurança e a do reino (a noção de que Maria executou Jane simplesmente para garantir que Filipe da Espanha se casassem com ela não é confirmado pela correspondência diplomática). Frances não estava envolvida na Rebelião. O fato de que nenhuma carta de despedida de Jane para Frances sobreviveu foi tomado como prova de que Jane não gostava de sua mãe, de modo que preferiu não escrever para ela. Entretanto, Michelangelo Florio, tutor italiano de Jane, afirmou que ela tinha, de fato, escrito para Frances. A carta pode ter se perdido ou pode mesmo ter sido destruída.

Jane foi executada em 12 de Fevereiro de 1554 e Henrique Grey em 23 de fevereiro de 1554. Frances se casou com Adrian Stokes, diversamente identificado como ou seu mestre de cavalo, ou seu mordomo ou seu escudeiro, em 9 de março de 1554. O casamento apressado de Frances, logo após a execução de seu marido e de sua filha tem sido tomado como uma prova de sua natureza cruel, mas William Camden, um biógrafo elisabetano, acreditava que Jane casou ‘para sua segurança’. Casar com um plebeu distanciava Frances e suas filhas sobreviventes da coroa, garantindo que Maria não as visse como ameaça.

Frances está em uma posição estranha, pois ao contrário de Ana Bolena, Frances não era uma figura controversa quando estava viva. Nenhum dos contemporâneos de Frances, até onde sabemos, não gostavam dela. Está registrado que Frances era uma mãe invulgarmente dura, mas mesmo Roger Ascham, tendo repetido os comentários de Jane, não vê o porque de critiar os pais de Jane. De fato, logo após a morte de Jane, Frances foi confiada aos cuidados da sobrinha de seu marido, Margaret Willoughby, cujos amigos comentaram aprovadamente o sucesso de Frances na introdução de jovens moças na corte.

Então o que aconteceu? O que fez Frances Grey uma das figuras mais intensamente odiadas na história Tudor? Certamente uma razão pela qual tornou-se uma figura tão detestada é sua própria filha, Jane. Consciente do dano que estava sendo feito para a causa protestante por sua associação com traição, Jane anunciou no andaime que,enquanto era culpada da lei de traição, tendo sido proclamada rainha, ela nunca tinha procurado o trono, mas simplesmente o aceitado. No século 17 e 18 sua história foi influenciado pela passividade feminina adequada em uma jovem. Frances era muito mais útil como um arquétipo sexista, a mãe poderosa, sexual, ambiciosa e masculinizada, ao ser confrontada com Jane, a filha indefesa, casta e feminina. Possível Frances Grey, cerca de 1560. Artista desconhecido.Frances foi reinventada, ‘governando o seu marido’. As qualidades masculinas associadas com Frances também foram aplicadas na rainha Elizabeth I. Rumores surgiram logo após a morte da rainha virgem de que seus órgãos sexuais eram deformados. Em 1985, um médico foi tão longe ao afirmar que Elizabeth era, na realidade, um homem.

Jane, a garota que preferia ler um livro a ir à caça com a família, é a heroína. Ela era o tipo de menina que odiava ir a reuniões de família, ter uma conversa com seus pais, e passava a hora do almoço se escondendo na biblioteca. Ela é o tipo de garota que se transforma em um leitor e, muitas veze, em um escritor. Quando as leitores do sexo feminino se depararam com as queixas de Jane para Roger Ascham, elas não retratam apenas Jane, mas elas mesmo. Nessa situação, a pobre Frances não tem chance.

Bibliografia:
IRWIN, Margaret. A Alvorada do Amor de Elizabeth. Tradução de Inah Ribeiro e Oliveira Ribeiro Neto. São Paulo: Editora do Brasil S/A.
HIGGINBOTHAM, Susan. ‘The Maligned Frances Grey, Duchess of Suffolk‘. Acesso em 22 de setembro de 2013.
HIGGINBOTHAM, Susan. ‘Did Jane Grey’s Parents Resent Her Because She Was Not a Boy?‘. Acesso em 22 de setembro de 2013.
LISLE, Leandra de. ‘Debunking the Myth of Lady Jane Grey‘. Acesso em 22 de Setembro de 2013.

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5 comentários sobre “A caluniada Frances Grey, mãe da Rainha de Nove Dias

  1. Eu acho que a figura maligna de Frances veio a ser construída na Era Vitoriana, no que consequentemente constituiu Jane como a “pobre donzela vitima de seus pais que recusou a coroa e morreu”. Claro, Frances Brandon era ambiciosa (e, como filha de sua mãe, como não poderia ser?), mas, logo depois do casamento de Jane com Dudley, ela acolheu a filha em seus apartamentos em Londres (o que levaria a acusações por parte dos Dudleys, ao dizerem que os Grey estavam indo contra a consumação do casamento de Jane). O filme “Lady Jane” já é romantizado tanto por conta disto quanto por conta do romance inexistente entre Jane e Guildford. Mas, no que se diz respeito a Frances, ela foi uma mulher forte de seu tempo que, para preservar depois até suas próprias filhas (Catherine e Mary) para sobreviverem na corte de Mary I, que as acolheu como damas de companhia, casou com um homem abaixo de seu ranque para que pudesse não sofrer mais com o fato de ser “a esposa do traidor”. Achei um artigo interessante visto que ninguém costuma falar de Frances, somente a tornar a acusá-la. (Eu também, confesso, não gostava dela justamente por conta deste filme, mas conforme vamos pesquisando, isso já diminui um pouco.)

  2. Quem não teve chance foi a pobre Jane, que entrou no negócio não por vontade e foi morta ainda jovem.

  3. O círculo que operou a assunção de Jane Grey ao trono perpassa em muito as possíveis ambições paternais. Como a jovem ao final foi sacrificada, cabe porém aos pais a responsabilidade maior pelas consequências.

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