Os pretendentes de Maria Tudor [Segunda e última Parte]

Don Luis de Portugal

Infante Luís, da Triptych of the Infantes; feito pelo Mestre de Lourinhã, 1516.

Em maio de 1537, Don Diego Hurtado de Mendoza chegou à Inglaterra como um enviado especial de Carlos V, encarregado de negociar um casamento adequado para Maria: ele sugeria Don Luis, herdeiro do trono de Portugal e irmão da esposa de Carlos V. Chapuys, após sair da presença do rei, apresentou uma calorosa carta do Imperador dirigida a rainha Jane Seymour que, de acordo com o embaixador, ‘mostrou-se grande prazer, e disse que sempre faria todo o possível para ajudar nos assuntos do Imperador e da Princesa [Maria]’. Logo ele comentou com Chapuys que havia tratado de persuadir o rei a abandonar sua antiga amizade com a França e buscar o Imperador.

Jane Seymour morreu em 24 de Outubro de 1537, apenas doze dias depois do nascimento de Eduardo, o herdeiro do trono inglês. Imediatamente após sua morte, houve uma caçada internacional para uma nova esposa para o rei. Começou a ser contemplada um duplo casamento: Henrique VIII se casaria com a Duquesa Cristina, sobrinha do Imperador, enquanto Maria se casaria com o cunhado do Imperador, Don Luis de Portugal. Por razões obscuras, o casamento não foi pra frente. Luís nunca se casou e morreu em 1555.

William, o Duque de Cleves

William, Duque de Jülich-Cleves-Berg, cerca de 1540 por Heinrich Aldegrever.

Os sonhos de casamento de Henrique VIII com a adorável Cristina e uma aliança imperial haviam distraído o rei da possibilidade de que o Ducado de Cleves poderia fornecer uma nova rainha. Em 1530, o Duque Juan III havia proposto um matrimônio entre seu filho e Maria; em 1532 seu camareiro havia ido para a Corte Inglesa. Em junho de 1537 foi proposto brevemente a idéia de um casamento duplo entre o William, Duque de Cleves com Maria e do rei Henrique com alguma parente não especificada. Como bem se sabe, Holbein foi enviado para Cleves e Henrique gostou muito do retrato de Ana de Cleves, com quem ele se casou em 6 de Janeiro de 1540.

Quanto a William, Duque de Cleves, seus olhos já não estavam em Maria. Outra princesa era uma possibilidade muito mais atraente como esposa: Jeanne d’Albret, de doze anos de idade, filha de Margarida de Angouleme de seu segundo casamento com o Rei de Navarra, não era apenas a herdeira do reino mas também sobrinha do rei da França. O casamento aconteceu, mas foi anulado quatro anos depois e William casou-se com Maria da Áustria, filha do futuro Ferdinando I.

Eduardo Courtenay, o Conde de Devon

Enquanto Eduardo Courtenay, cópia de um retrato feito por Steven Van Der Meulen. Artista anônimo, c. 1800.isso, o rei da Inglaterra se tornava cada vez mais paranóico. Não surpreendentemente, sua paranóia atacou seus primos de sangue real que viviam na Inglaterra: a família Courtenay, cujo líder era o Henrique Courtenay, Marquês de Exeter, e os De La Poe, liderados por Lorde Montagu.  Quanto a Exeter, Cromwell garantiu ao embaixador francês que ele tinha planejado casar Maria com o jovem Eduardo Courtenay, Conde de Devon (seu herdeiro), matar o príncipe Eduardo e ‘usurpar o trono’. Entretanto, não há evidências deste plano tão letal. Em novembro de 1538 Exeter e seus filhos, incluindo Eduardo, foram encarcerados na Torre de Londres. Henrique foi executado em 9 de Janeiro de 1539, e Eduardo só seria liberto da Torre em 3 de Agosto de 1553, menos de um mês depois que Maria Tudor ascendeu ao trono.

Durante o reinado de Maria I, Eduardo Courtenay logo se tornou um de seus favoritos. Ele foi feito Cavaleiro do Banho e recebeu os embaixadores de Carlos V, tendo atuado também no julgamento de Robert Dudley. Maria mostrava muito carinho pelo seu primo e Stephen Gardiner supostamente encorajou Devon a considerar-se um dos prováveis pretendentes. Sua casa foi organizada como uma pequena corte e muitos cortesãos se abaixavam diante dele. A rainha, no entanto, rejeitou-o em favor de Filipe II.

De acordo com David Loades:

‘Courtnay era o candidato nacional e atraiu muitos apoiantes influentes, mas era um jovem tolo e irresponsável que tinha passado grande parte da juventude na Torre de Londres. A culpa não era dele; mas tinha-o deixado sem qualquer experiência de vida e não existem indícios de que Maria tenha considerado seriamente se casar com ele.’

(LOADES, 2010, pg. 208)

Filipe, o Duque da Baviera

Filipe foi interpretado por Colin O'Donoghue na série The Tudors.Enquanto o rei Henrique estava esperando ansiosamente pela sua nova esposa, Ana de Cleves, sua filha Maria, de vinte e três anos, se encontrava em uma inesperada situação: ela havia recebido um pretendente. O Duque de Baviera, sobrinho do Eleitor Palatino (O Palatinado era o principado mais poderoso de Cleves) foi apresentado à Corte por sua própria iniciativa no dia 8 de dezembro de 1539. Se seu tio, o Conde Palatino, ficou sabendo disso na época, nós não sabemos. Nem sequer está registrado o que aconteceu entre ele e o Conselho até uma semana depois de sua chegada.

Maria, católica devota, não apreciava particularmente a religião luterana de seu pretendente, mas conversava graciosamente com ele em latim e alemão através de um intérprete. De acordo com o hábito de sua mãe e o seu próprio, Maria disse que seria submetida à vontade de seu pai, independente da religião de seu pretendente. O rei nomeou o Duque de Filipe Cavaleiro de Jarreteira e apresentou presentes que pareciam ser uma clara possibilidade de uma ligação luterana co a Inglaterra. De acordo com Linda Porter, Filipe parecia estar genuinamente interessado em Maria – afinal de contas, ela ainda era uma bastarda, não poderia reclamaro trono da Inglaterra e não tinha um dote muito impressionante.

De acordo com o Embaixador Marillac, Lady Maria e o Duque foram vistos se beijando nos jardins da Abadia de Westminster e quase todos na Corte inglesa esperavam um casamento dentro de poucos meses. No entanto, o rei Henrique não permitiu que as negociações continuassem devido ao fato de que o Duque era relacionamento a Ana de Cleves, de quem ele estava determinado a se separar. Filipe, porém, não se intimidou e visitou a Inglaterra mais três vezes. Filipe morreria 1545, seis anos depois de visitar a Inglaterra pela primeira vez. Ele não se casou e não teve filhos.

Thomas Cromwell

Thomas CromwellA confiança que o rei tinha na capacidade de Thomas Cromwell foi fatalmente enfraquecida pela questão do casamento de Ana de Cleves. Cromwell deveria ser sentenciado à morte sob a Lei de Proibição, sem julgamento. Ironicamente, este era um novo método de julgamento que o próprio Cromwell havia sugerido para ser usado com Margaret, Condessa de Salisbury. Uma das acusações era de que Cromwell tinha jurado se casar com a filha do rei, Maria, em 1538, para usurpar o trono, o que certamente deve ter deixado sem palavras até mesmo os cortesãos mais leais. “The Life and Letters of Thomas Cromwell”, de Roger Merriman, diz que já em julho de 1536 Cromwell tinha um anel de ouro com as figuras de Jane, Henrique e Maria com uma inscrição em latim elogiando as virtudes da obediência, e que ele tinha a intenção de presenteá-lo a Maria. O rei pegou o anel para si próprio, dizendo que ele mesmo queria dar o anel.

Thomas Seymour

Thomas SeymourO Rei Henrique VIII morreu em 28 de Janeiro de 1547. Thomas Seymour tinha sido um favorito do velho rei, e seu irmão havia sido nomeado Lorde Almirante da Inglaterra em 1544.

Para se casar com Catarina Parr, Thomas precisou da aprovação do rei. Conta-se que, ao ser questionado sobre quem Thomas deveria casar, Eduardo respondeu primeiro ‘com Ana de Cleves’, e depois de pensar um pouco, ‘com minha irmã Maria’. Pouco tempo depois, Eduardo finalmente deu a resposta ‘certa’: Catarina Parr.

A verdadeira fraqueza de Seymour era o ciúme doentio pelo seu irmão mais velho, que se distinguia por suas vitórias militares. Após ter caído em desgraça, Seymour sugeriu que ele tinha tentado se casar com Lady Maria e Lady Elizabeth antes de colocar seus olhos sob a viúva Catarina Parr. No entanto, não há nenhuma evidência nos registros do Conselho Privado de que Seymour tenha feito isso. Também é interessante salientar que Maria nunca foi vista conversando com Seymour.

Maria Tudor sofreu muito com sua sorte, mas no final da vida de Henrique VIII ela foi inserida novamente na sucessão. Seria um erro acreditar que a senhora de vinte e sete anos era uma solteirona feia e frustrada. Maria sempre teve suas diversões: ela amava jogar, gostava de roupas, jóias, música e dança.

Bibliografia:
LOADES, David. As Rainhas Tudor – o poder no feminino em Inglaterra (séculos XV – XVII). Tradução de Paulo Mendes. Portugal: Caleidoscópio, 2010.
Edward Courtenay, 1st Earl of Devon‘. Acesso em 27 de Novembro de 2013.
Duke Phillip of Bavaria‘. Acesso em 24 de Novembro de 2013.
Philip, Duke of Palatinate-Neuburg‘. Acesso em 24 de Novembro de 2013.
Mary Tudor and Thomas Cromwell‘. Acesso em 24 de Novembro de 2013.
Los Pretendientes de María Tudor‘. Acesso em 24 de Novembro de 2013.

Anúncios

4 comentários sobre “Os pretendentes de Maria Tudor [Segunda e última Parte]

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s