A questão da nova Abadessa de Wilton

A questão da nova Abadessa de Wilton, na primavera de 1528, mostrou que apesar de Henrique VIII estar loucamente apaixonado por Ana Bolena, ele ainda era o rei. Talvez tenha sido uma lição para Ana Bolena sobre os limites de seus domínios sobre Henrique VIII, embora isso tudo possa ser facilmente ignorado em vista da extravagante promessa do rei de elevá-la a Rainha.

Em 24 de Abril de 1528 morreu a velha Abadessa de Wilton, Cecília Willoughby. Havia cerca de cinquenta freiras em seu convento e alguns escândalos relacionados a ela. As freiras tinham delegado o Cardeal Wolsey para eleger a nova Abadessa e ele estava, naquele momento, no favor do rei, e escolheu como candidata para a posição Lady Elizabeth Jourdain, uma mulher ‘velha, sábia e discreta’, irmã da Abadessa do Convento de Syon, esperando que ela tivesse uma boa influência sobre as freiras de lá.

Mas a facção Bolena tinha outros planos. William Carey, marido de Maria Bolena, parece ter sido o principal instigador do que aconteceu: ele propôs que sua irmã, Lady Eleanor Carey, que era freira na Abadia, fosse escolhida como Abadessa ao invés de Lady Elizabeth. Em 23 de junho, Thomas Heneage escreveu para o Cardeal Wolsey que ‘o Sr. Carey implora a misericórdia por sua irmã, uma freira na Abadia de Wilton’.  Esta foi a última vez que William Carey apelou para o favor real, uma vez que ele morreria da doença do suor poucos dias depois que a carta chegou a seu destinatário. Carey, como muitas pessoas, aparentemente assumiram que sua sorte na Corte continuaria e não investiu em nada: após sua morte, Maria Bolena e seus filhos não ficaram com nada exceto uma pequena pensão de Thomas Bolena, seu pai.

O rei Henrique decidiu analisar a questão e escolher uma das duas candidatas, fazendo com que o Cardeal Wolsey entrevistasse as duas mulheres para revelar qualquer impedimentos para que elas se tornassem Abadessas.O rei Henrique  ficou sabendo que Eleanor era uma freira com um passado obscuro que causou o descrédito na Abadia. Nesse ponto, o rei Henrique parou de patrocinar Eleanor. Sua carta a Ana Bolena sobre o assunto – apesar de estar entre suas cartas de amor e chamá-la de ‘minha querida – é muito firme sobre isso. Contando os detalhes da confissão de Eleanor – ‘ teve dois filhos de dois padres diferentes, e ainda, que tinha sido escondida por um servo de Lorde Broke, e não muito tempo atrás‘ – Henrique enfatiza a questão de sua consciência:

‘…Eu não iria, por todo o ouro do mundo, embaraçar a sua consciência nem a minha para fazer dela governadora de uma casa, sendo que têm um comportamento tão terrível; estou certo de que você não iria querer que por um irmão ou uma irmã eu desprezasse assim minha honra ou consciência’.

Um vez que ficou claro que Eleanor era imprópria para o cardo de Abadessa, a irmã mais velha de William, Ana Carey, que também era uma freira em Wilton, foi apresentada para a posição. A família Carey apontou que Lady Elizabeth Jordain, a candidata de Wolsey, também não estava apta para o cargo, pois ela também tinha levado uma vida sem castidade e que, em seus anos mais jovens, também tivera filhos ilegítimos. Entretanto, o rei Henrique recusou-se a dar a posição tanto para as mulheres Carey quanto para Elizabeth Jourdain. Na mesma carta para Ana Bolena, o rei escreve que ‘alguma outra mulher boa e bem-disposta’ deverá ter o cargo.

Mas ao invés de procurar uma nova mulher, Wolsey concluiu que Elizabeth Jordain deveria ser a nova Abadessa e Eleanor Carey deveria ser a nova Prioresa. As freiras que se opuseram a esta nomeação foram presas sobre a ordem do Cardeal Wolsey, e foi assim que ele conseguiu que o convento aceitasse suas escolhas. Ao fazer isso, Wolsey estava mostrando um desrespeito à vontade do rei  e desafiando sua autoridade.

Henrique escreveu uma carta censurando a atitude de Wolsey, em um tom incrivelmente majestoso:

‘Senhor, peço-vos acrediteis que nenhuma mágoa me leva a escrever-vos isto’, concluía soberbamente. ‘É só por meu descargo perante Deus, estando na posição em que me acho; e em segundo lugar pelo grande interesse que nutro por vós e que mereceis. Peço-vos, por isso, que tomeis neste sentido; e assevero-vos que, quando tiverdes reconhecido o vosso erro, não restará em mim sombra de desgosto; confiando que de ora em diante corresponderás à minha benevolência com uma escolha que seja para mim mais aceitável.’

Essa carta deixou claro para Wolsey que eles não eram mais aliados. O rei estava falando ao súdito, o chefe estava falando ao seu servidor. O Cardeal respondeu-lhe humildemente:

‘Proponho-me, com a ajuda de Deus e o vosso gracioso favor, regular o resto da minha pobre vida de modo que Vossa Majestade fique convencido de que eu amo e temo a Deus e também a Vossa Majestade.’

Por um curto tempo, a candidata do Cardeal, Elizabeth, continou como Abadessa. Entretanto, em 1534, ela foi substituída por Cecily Bodenham, cuja nomeação foi feita não pela escolha das freiras, como sempre foi o costume, mas pela indicação do Tribunal. Essa nomeação foi estranha porque a Abadessa anterior ainda não tinha morrido e porque Cecily não era da Abadia, mas sim de um pequeno convento em Kingston St Michael. Ela era, no entanto, conhecida tanto do rei Henrique quanto de Ana Bolena. Claramente, ela era uma escolha compatível com os desejos do Rei e de sua amada.

Cecily Bodenham, a última Abadessa de Wilton. Artista desconhecido, 1550.

Estando em conformidade com as políticas do rei durante a dissolução dos monastérios, Cecily voluntariamente entregou a Abadia aos comissários do rei em 25 de Março de 1539.  Reclamando da aquiescência da Abadessa com os atos do rei, uma das freiras registrou em seu diário:

‘Parece-me que a Abadessa tem um coração fraco… Mestre Richard Neville informou-me que os comissários de Sua Majestade o fizeram com a finalidade de recompensá-la com uma boa casa em Foffount e uma boa mesada.’

De fato, Cecily foi amplamente recompensada com uma generosa mesada de £100 e uma grande propriedade em Wiltshire. Cerca de 10 freiras foram morar com ela. As outras freiras receberiam uma pensão anual, variando de cem libras com uma propriedade em Fovant até uma anuidade que variava de £7 mil libras e £2 libras para as freiras mais jovens.

Bibliografia:
HACKETT, Francis. Henrique VIII. Tradução de Carlos Domingues. São Paulo: Pongetti, 1950.
EVELYN, Danielle. ‘A scandalous Carey nun‘. Acesso em 22 de Novembro de 2013.
REYES, Elizabeth. ‘El asunto de la nueva abadesa de Wilton‘. Acesso em 22 de Novembro de 2013.
Wilton Abbey. Acesso em 22 de Novembro de 2013.
Cecily Bodenham. Acesso em 22 de Junho de 2014.

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2 comentários sobre “A questão da nova Abadessa de Wilton

    • Sim, mas nesse caso devemos ‘relativizar’ a miséria. Ela foi expulsa da corte e se casou com um cara não muito rico, mas ela nunca passaria fome ou algo tipo, privações que eram comuns para os miseráveis ‘de verdade’ da época. Essa ‘miséria’ dela é apenas se comparado com a vida luxuosa que ela tinha na corte

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