O casamento da rainha Maria I e Filipe de Espanha

Maria I, por artista desconhecido no seculo 16.Maria Tudor foi coroada Maria I, Rainha da Inglaterra em 1 de Outubro de 1553. Aos 37 anos de idade, Maria voltou sua atenção para encontrar um marido e produzir um herdeiro, evitando assim que Elizabeth, sua meia-irmã protestante e sua sucessora, nos termos de Henrique VIII e do Ato de Sucessão de 1544.

Na monarquia, o casamento de uma mulher reinante é inevitável, mas politicamente controverso. As mulheres do século XVI deveriam obedecer os homens: no casamento de uma rainha, a mulher necessariamente deve ser sujeita a seu marido, sendo ele rei ou não. Para Maria, assim como para qualquer rainha reinante, a escolha era de um marido estrangeiro ou não. Ainda havia os perigos inevitáveis de quaisquer gravidez subsequente. A morte após o parto não era incomum, e a morte de uma mulher com mais de 35 anos após um parto era mais do que comum. De qualquer forma, o marido da rainha, quem quer que fosse, precisava ter recursos políticos particulares e poder militar independente para manter os direitos de seus herdeiros no caso de morte da rainha.

Seus primos, Eduardo Courtenay, 1º Conde de Devon (bisneto de Eduardo IV da Inglaterra) e o Cardeal Reginaldo Pole (neto de George Plantageneta, 1º Duque de Clarence, irmão de Eduardo IV) foram mencionados como possíveis pretendentes, mas seu outro primo, Carlos V, sugeriu que ela se casassem com seu único filho, o infante Filipe da Espanha. Ele já tinha um filho de um casamento anterior e era o herdeiro de vastos territórios na Europa Continental e no Novo Mundo.

O casamento era a oportunidade para criar uma aliança contra a França. Em agosto de 1553, quando o embaixador Simon Renard abordou a questão pela primeira vez, Maria ‘começou a rir, não uma, mas algumas vezes, e olhou para mim como que a dizer que achou o assunto muito de seu agrado’.  Filipe II da Espanha, por Ticiano em 1551.Renard foi bombardeado de perguntas sobre o príncipe e, como parte das  negociações do casamento, ela pediu uma foto do seu provável futuro marido. Uma retrato esplêndido de Filipe, feita por Ticiano, foi enviado. Desde o início Maria deixou bem claro o que ela esperava e não esperava de seu casamento:

‘Se Filipe será inclinado a ser amoroso, este não é o meu desejo, pois eu estou na idade que Sua Majestade já sabe, e nunca alimentei pensamentos amorosos. Mas se ele deseja interferir no governo do meu país, eu não poderei permitir tal coisa’.

No dia 29 de outubro, na sua capela particular e somente na presença de uma dama de companhia e Renard, Maria jurou aceitar Filipe como seu marido. Filipe não estava nem um pouco apaixonado por Maria, vendo o casamento como um assunto totalmente político.

Filipe chegou a Shouthampton em 19 de Julho de 1554. Imediatamente, Stephen Gardiner traz um presente pessoal da rainha: um anel de diamanete. Ele também trouxe notícias da adesão de Filipe nos tronos de Nápoles, Sicília e Jerusalém. Filipe ficou lá por alguns dias, chegando a Winchester no início da noite do dia 22. Logo depois, participou de uma missa na Catedral e retirou-se para a casa de Dean, mudou de roupa e foi para o Palácio de Wolvesey para conhecer Maria pela primeira vez. A proximidade de Winchester e Shouthampton, assim como o explendor da Catedral, tornou o local ideal para o casamento. Além disso, eles seriam casados pelo bispo da diocese – Stephen Gardiner, o Lorde Chanceler.

No dia 23 de Julho de 1554, o casal se encontrou pela primeira vez. Vestida com um manto branco bordado de prata, Filipe seguiu para o com uma grande comitiva. Maria estava esperando em uma plataforma construída para a ocasião, e beijou-o na presença de todas as pessoas. Depois do que teve ter sido um primeiro encontro muito desconfortável, uma vez que foi testemunhado por uma multidão, o casal retirou-se para uma câmara com os principais senhores e senhoras. Filipe instruiu seu pessoal a se ajustar os costumes ingleses ‘que todos nós temos que aceitar como se fossem nossos’. Ainda para não ofendê-los, Filipe bebeu cerveja morna. Um embaixador comentou que ele ‘demonstrou tal doce temperamento que seria impossível superá-lo’.

Um dos primeiros desafios foi descobrir como se comunicar. Quando jovem, Mara era influente na língua de sua mãe. Agora, ela já não era tão confiante no sue espanhol. Então Maria falava em francês, enquanto Filipe respondia em espanhol. Eles conversaram por cerca de 15 minutos, depois Filipe voltou para onde estava hospedado. Antes de ir, ele virou-se para os nobres e disse, em inglês: ‘Boa noite, meus senhores’. Essa foi a primeira e última vez que ele falaria inglês. Um de seus companheiros disse depois que Filipe voltou para o Palácio ás dez da noite, onde o casal ficou conversando, dessa vez com menos testemunhas.

O Casamento de Maria I e FilipeNo dia 25 de Julho (uma data auspiciosa, pois marcava o dia da festa de São Tiago, padroeiro da Espanha), apenas dois dias após seu primeiro encontro, Filipe, de 27 anos, e Maria, de 38, casaram-se na Catedral de Winchester. O noivo vestia branco e  dourado, enquanto a noiva usava roxo e branco. A roupa de Filipe foi um presente de sua noiva, que tinha passado um bom tempo preparando o próprio vestido. Claramente ela estava determinada a ver Filipe – o novo Rei da Inglaterra – tão bem vestido como ela era. Surpreendentemente, durante a cerimônia Maria foi colocada à direita e Filipe à esquerda, uma inversão de um casamento tradicional. Maria apresentou-se como a monarca, e Filipe como seu consorte. Naturalmente, isso causou murmúrios. O Bispo Gardiner continuou com o sermão, então perguntou a congregação se alguém sabia de qualquer impedimento legal para que o casal não pudesse casar-se, o que, logicamente, ninguém respondeu. Anéis foram trocados – Maria pediu um simples anel – e Filipe deu a Maria moedas de ouro, as quais ela entregou a Margaret Clifford.

Filipe não falava inglês e a missa do casamento foi feita em uma combinação de francês, espanhol e latim. A segurança no local foi bastante elevada, considerando o alvoroço no país e a recente rebelião contra o casamento. Só podemos imaginar como Maria se sentia após finalmente se casar com o homem que tinha esperado por tanto tempo.

Esta foi provavelmente a maior reunião pública pacífica de toda a história da monarquia Tudor. Cerca de 30 mil pessoas foram as ruas de Londres, o sermão do Bispo foi aplaudido e, mais notavelmente, toda a multidão se ajoelha em um silêncio devoto para receber a absolvição do Papa.

Em uma carta após seu casamento, Filipe contou a sua irmã Joana que tinha sido recebido na Inglaterra com ‘grandes demonstrações de afeto e alegria geral’. OO banquete e as celebrações após a cerimônia ocorreram no palácio de Wolvesey. Maria passou seus primeiros dias de vida conjugal em reclusão (como era apropriado) e é provável que tenha permanecido dentro do Palácio. As coisas pareciam estar bem para os recém-casados, eles foram de barco para Westminster em 18 de agosto e, em seguida, passaram vários dias em Londres antes de irem para Hampton Court para o resto do verão. Pintura alegórica da sucessão Tudor, Mary Tudor e Filipe de Espanha. Sudeley Castle.Agora, todos os olhos estavam em Maria: um herdeiro era algo crucial em um casamento real e, especialmente para Maria, era absolutamente necessário suprir a Inglaterra com um bom herdeiro católico. Infelizmente, em sua idade, as chances de ter um herdeiro eram mínimas.

Apesar da crença popular, não há nenhuma evidência de que Filipe queria correr para longe de sua esposa o mais rápido possível, de modo que ia para a Espanha visitar seu pai. Talvez ele não tivesse sido tão frio com ela quanto pareceu. Muitos relatórios mostram que Filipe mostrava grande bondade para com Maria, mas certamente há uma diferença entre ‘bondade’ e ‘amor’ ou mesmo ‘carinho’.

Na corte, o clima era de tensão e hostilidade. ‘Estamos em boa terra, mas entre as piores pessoas do mundo’, escreveu um deles. Em Londres, houveram inúmeros incidentes nas ruas, e ocasionalmente os espanhóis eram atacados e roubados. O veredicto do povo inglês era: ‘A união da rainha Maria com o rei Filipe ficou tão longe de enriquecer a Inglaterra, que jamais um príncipe a deixou mais endividada, ao mesmo tempo em casa e no além do mar’. Os espanhóis acharam as damas da corte ‘muito feias’. Um nobre espanhol comentou que não sabia porque encontrara tantas mulheres bonitas fora do Palácio, e não dentro dele. A opinião que os espanhóis tinham de Maria era clara: ‘A Rainha não é bonita, nem um pouco, é baixa, de frágil estrutura ao invés de gorda, com poucos cabelos brancos e louros, não têm sobrancelha, é piedosa, se veste muito mal’.

A rainha foi sincera e dedicada em suas relações com Filipe, enquanto ele era generoso e cortês para com ela. Ambos os lados tinham aceitado que o amor não fazia parte do contrato. Ruy Gómez, aristocrático português, notou que:

‘A Rainha é uma mulher de qualidade, mas mais velha do que pensávamos, mas Sua Majestade têm se comportado tão bem e dá tantos presentes que tenho certeza que ambos estarão muito satisfeito uns com outros. O rei está tentando ser o mais amigável possível, ele acredita que o casamento não foi pela carne, mas pela restauração desta área e preservação daquele estados.’

Retrato de Filipe II da Espanha e Maria da Inglaterra, por Hans Eworth em 1558.Um fato interessante sobre o casamento de Maria e Filipe é que Filipe governou ao lado de Maria, ao invés de estar abaixo dela. Uma vez que eles foram oficialmente unidos em matrimônio, ele foi feito ‘Rei da Inglaterra’. Claro, ele ainda precisava da permissão de Maria antes de agir (algo que ele sempre detestou) mas eles eram, para todos os propósitos, governantes conjuntos – e Maria estava bem com isso. Ela era uma mulher tradicional, que acreditava que a esposa deveria ser obediente ao marido, e Filipe deveria ter todo o privilégio e respeito que ela tinha como monarca. O casal concordava na maioria das coisas: ambos queriam trazer Roma de volta para os ingleses, tornar a Inglaterra uma nação católica e, ambos concordaram que, a fim de fazer isso, os protestantes deveriam ser punidos.

Infelizmente, Filipe não estava na Inglaterra quando Maria morreu em novembro de 1558. Ele estava em Bruxelas, depois de saber da morte de seu pai, e enquanto estava lá foi informado da morte de sua esposa. Ao ouvir a notícia, ele escreveu ‘Eu senti um arrependimento razoável pela sua morte’. Não é exatamente uma declaração sincera de que você espera de um viúvo, mas foi tudo o que Filipe disse. Ele viria a se casar mais duas vezes, e Maria seria lembrada como uma vilã da monarquia inglesa.

Bibliografia:
A guide to Winchester‘. Acesso em 18 de Outubro de 2013.
The Marriage of Queen Mary I and Philip II of Spain‘. Acesso em 18 de Outubro de 2013.
Queen Mary and her Marriage To Philip II of Spain‘. Acesso em 18 de Outubro de 2013.
The marriage of Queen Mary I and Philip of Spain‘. Acesso em 18 de Outubro de 2013.

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7 comentários sobre “O casamento da rainha Maria I e Filipe de Espanha

  1. coitada da Maria…se tivesse casado mais nova talvez não fosse tão rancorosa….mais aí tbm seria tudo diferente. Ela poderia ter tido filhos e Elisabeth não chegaria ao trono. Melhor foi como aconteceu mesmo….

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