Apagando Ana Bolena da História: Seus documentos e retratos

Pequenos vestígios documentais de Ana Bolena permanecem. Sabemos a maior parte de sua história por meio dos registros de outras pessoas – registros que são muitas vezes extremamente hostis. Foram seus registros destruídos intencionalmente, ou pela mão indiferente do Tempo? Com a destruição desses documentos, muitos rumores começaram a circular sobre ela, dizendo que tinha uma grande verruga em seu pescoço, que tinha seis dedos, entre outros. A falta de detalhes sobre ela e sua vida apenas serviram, no futuro, para que ela chamasse mais atenção pelo seu mistério.

Apenas algumas das cartas de Ana em sua própria caligrafia sobrevivem: uma escrita para seu pai, em 1514, e uma escrita para Wolsey. Temos textos ditados por ela, mas escritos pelos punhos de outros. Ana parece ter sido uma correspondente prolífica, então essa falta de cópias sobreviventes parecem indicar que foram intencionalmente destruídos. Isso não era incomum, e às vezes era feito pela própria pessoa, que não queriam encontrar as letras de um traidor condenado entre seus papéis. Nós também temos uma carta, supostamente encontrada entre os papéis de Cromwell depois de sua execução, o que pode ser uma cópia de uma carta de Ana Bolena na Torre. O historiador John Strype, que teve acesso aos registros que podem ter sido destruídos em um incêndio em 1731, diz que viu uma carta de Ana em que ela irritadamente rejeitava um acordo judicial que dependeria da sua “confissão” e que ela sustentaria sua inocência até a morte.

Há poucos registros do julgamento de Ana. Só as acusações picantes e os verídicos sobrevivem. Comparando isso com os inúmeros registros relativos a Catarina Howard, que incluem entrevistas com testemunhas, relatórios dos comissários que investigaram, transcrições dos depoimentos, e as confissões da acusada. E isso foi apenas a investigação – Catarina não foi levada a julgamento.

No entanto, nada do julgamento de Ana sobrevive. Sabemos que os registros existiam, porque eles foram examinados uma vez por William Camden, que teve acesso aos papéis de Estado do ministro de Elizabeth I, William Burghley. Foi Camden que confirmou alguns dos detalhes biográficos de Ana Bolena que ainda são objetos de debate pelos historiadores. Assume-se que estes documentos foram posteriormente destruídos, possívelmente pelo fogo que consumiu a Biblioteca Cottonian em 1731. O que foi perdido é impossível dizer. Mas a partir do silêncio dos primeiros historiadores, é assumido que os registros do julgamento já tinham sumido. Mas e se os registros foram intencionalmente destruídos, quem fez isso e por quê?

Um dos anéis de Elizabeth continham uma imagem sua e de outra mulher - possivelmente sua mãe.O historiador David Starkey é da teoria que os documentos nunca existiram, porque Ana foi condenada principalmente por testemunhos verbais que intencionalmente não foram transcritos. Por outro lado, a queda de Catarina Howard foi uma verdadeira investigação, que geral muita papelada com os investigadores tentando determinar o que aconteceu, ao invés de darem um veredicto apressado e pré-determinado.

Outra teoria diz que a Rainha Elizabeth destruiu todos os documentos sobre sua mãe quando subiu ao trono para tentar eliminar evidências de sua condenação. Mas porque ela deixaria o indiciamento lascivo intacto, se fosse esse o caso? Elizabeth parece ter tomado a posição de que passado era passado, e deixou tudo por isso mesmo.

Alison Weir é autora de uma teoria ainda mais fantástica: para ela, é possível que Ana Bolena estivesse grávida quando foi executada, e por isso os documentos foram destruídos. Mulheres grávidas não podiam ser executadas – elas poderiam ter sua condenação postergada ou até mesmo anulada. No caso de Ana, a criança não teria chance de viver, uma vez que o Rei não arriscaria seu reinado a um herdeiro (ou herdeira) que poderia ser fruto de um adultério. Assim, os registros do julgamento foram destruídos para que a gravidez de Ana não fosse descoberta.

Já outros acreditam que Henrique VIII e Cromwell haviam destruído calmamente os documentos de Ana porque estavam tentando encobrir a vergonhosa falta de evidência sólida contra a Rainha, esperando que as pessoas do futuro levassem a acusação e sentença pelo seu resultado. O expurgo supostamente ocorreu na mesma época em que Henrique destruiu os retratos e emblemas de Ana.

Todos sabemos que Henrique foi muito bem sucedido em destruir os retratos de sua segunda esposa, pois os únicos retratos contemporâneos que sobrevivem são uma medalha, um esboço feito para ela de sua festa de coroação e, possivelmente, um esboço de Holbein. As outras imagens que temos dela foram pintados durante a vida de sua filha, e muito possivelmente usando a própria Elizabeth como modelo.

A frama de Ana e a quantidade de curiosidade que ela inspirou significava que existiam muitos retratos dela. Considerando apenas o grande número de retratos feitos de Catarina Parr durante seu curto reinado, é quase certeza que Ana posou para muitos retratos. Não temos registros de uma pintura de Holbein, mas é altamente possível que ele tenha feito algum, considerando a preferência de Henrique por este artista.

Também poderiam haver miniaturas. Uma vez que a pintura do monarca era feito, os artistas frequentemente eram contratados para fazerem cópias para as famílias exibirem em suas próprias casas. Naqueles dias, exibir um retrato do monarca era uma maneira popular de demonstrar lealdade, e retratos também eram frequentemente dados pelos monarcas como presente a cortesões e diplomatas.

Então, o que aconteceu com os retratos de Ana? Depois de sua queda, a maioria das pessoas provavelmente o destruiu. Assim como os documentos e cartas, ninguém gostaria de ter o retrato de um traidor em sua casa, por medo de irritar o rei. Mas algum pode ter sobrevivido, e ainda pode estar escondido até hoje – existem rumores de que um retrato de corpo inteiro de Ana sobreviveu na coleção do Barão Lumley, um amante da arte que colecionava retratos, especialmente os de Holbein. Parece que após a queda de Ana, Lumley escolheu guardar o retrato ao invés de destruí-lo. Se ele foi realmente pintado por Holbein, essa pode ter sido a razão de Lumley ter decidido preservá-la – ou seja, preservar pelo artista, e não por quem estava sendo retratado.

Na década de 1590, Lumley teve uma disputa com a rainha Elizabeth sobre uma dívida, e toda sua propriedade foi inventariada. A pintura foi um dos itens observados no iventário. Infelizmente, das mais de 200 obras da coleção de Lumley, apenas 30 podem ser identificados hoje. Seu retrato de corpo inteiro de Ana pode ter sobrevivido até o final de 1700, quando desapareceu sem deixar vestígios. Presumivelmente, foi vendido, assim como as outras peças, mas é impossível saber quem a comprou e o que foi feito dela.

esboço AnaTambém é possível que outros retratos de Ana existem, mas não foram identificados ou foram identificados erroneamente. Nossa imagem de Ana pode não corresponder à realidade de sua aparência, e por isso podem haver retratos dela que nós simplesmente não reconhecemos. Por exemplo, o esboço de Holbein é claramente identificado como Ana Bolena na Royal Collection, mas as pessoas insistem que não pode ser ela, por causa do cabelo claro e avermelhado e queixo duplo que não coincidem com a nossa imagem de Ana.

Bibliografia:
Erasing Anne Boleyn From History: The Documents‘. Acesso em 23 de Junho de 2014.
Erasing Anne Boleyn From History: The Portraits“. Acesso em 23 de Junho de 2014.
DENNY, Joanna. Anne Boleyn: A New Life of England’s Tragic Queen. Great Britain: Da Capo Press, 2006.

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10 comentários sobre “Apagando Ana Bolena da História: Seus documentos e retratos

  1. Um dos atributos que o rei Henrique mais gostava dela era o seu pescoço….como assim uma verruga??? Pelo amor ….

  2. Concordo com você. Existe até um romance que cita esse retrato, e nele conta que Ana estava grávida quando ele foi feito, por isso seu rosto está mais redondo e ela está com um queixo duplo. Lógico que se trata de um romance, mas mesmo assim achei interessante a “explicação”; apesar de que não temos nenhum registro de que Ana era magra do jeito que é apreciado hoje.

    • já li que a ideia de magreza do retrato mais famoso poderia ser uma espécie de “photoshop” da época, retratando as mulheres mais magras, dava-se a impressão de maior delicadeza e de maior realeza, pois só as camponesas eram rechonchudas e “fortes”. Mas se não me falha a memória o retrato é póstumo então pode ser também uma interpretação pessoal do que o artista entende como “rosto fino e delicado”.

  3. Madame tussaid n sei se é assim q se escreve fazia imagens em cera das rainhas…vi o rosto de Maria Antonieta nariz fino rosto fino boca fina…

  4. Acho impossível que ela estivesse grávida…ela teria usado isso para se salvar…agora, sobre o retrato dela, acho que tem um em miniatura, o anel, e ela aparece loira. Talvez mudaram a imagem dela para uma mulher morena, como um sinal de obscuridade.

  5. Os artistas não pintavam as pessoas de acordo com a estética da época? Nesse esboço pode ser Ana Bolena, com o cabelo mais claro, para lhe dar um ar mais aceitável… E pelo que eu li, as pessoas eram pintadas no auge de sua vida, seus defeitos eram “maquiados”, então talvez nossa imagem de Ana seja a mais “endeusada” dela, nos impossibilitando de ver ela em outras figuras que supostamente se remetem a mesma.

    • Sim. Até mesmo Henrique, em um quadro desta época, da década de 1530, um raio-x descobriu que os seus ombros foram alargados para ele parecer maior do que realmente era… Então tudo era ‘photoshopado’ até chegar num resultado final aceitável.

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