Christina de Milão e a rejeição de Henrique VIII

Henrique VIII em 1540, por artista desconhecido.

A busca por uma nova rainha na Inglaterra começou com intensidade no início de 1538. Havia a necessidade de o rei ter uma companheira em suas atividades – e na cama. Paradoxalmente, o rei, em fins da casa dos 40, gordo, sem probabilidade de ser um objeto de desejo, era muito mais difícil de agradar do que aquele belo rapaz de 1509. Na escolha de uma esposa, como em tantos outros assuntos, Henrique VIII se acostumara a ter as coisas a seu modo. Ele mesmo escolhera duas de suas três esposas, e isso não era comum.

Havia dois métodos convencionais para selecionar uma candidata a esposa, e nenhum deles envolvia um desfile em frente ao possível noivo. Um deles era uma visita pessoal de inspeção, feita por um enviado de confiança, ou o embaixador do país ou alguém especificamente encarregado desta delicada tarefa. O outro método era complementar: consistia em encomendar um retrato, a fim de compará-lo com os relatórios diplomáticos. Era uma prática que existia a muito tempo, e desse modo, Hans Holbein foi enviado para fazer vários retratos. Seu primeiro foi Christina da Dinamarca, a Duquesa de Milão.

O rei Henrique ficou extasiado. O retrato feito por Holbein ‘agradava-o sobremaneira’, confirmando a viva descrição de Christina, sorrisos, covinhas e tudo o mais, que ele já havia recebido. E depois, havia a modéstia dela (tons de Jane Seymour!). Claro que isso poderia ser devido a uma ‘simples ignorância’, o que seria uma pena, mas por outro lado podia ser uma prova de sua sensatez natural; e a julgar pela sua fama de jogar cartas, Christina seria classificada como ‘muito inteligente’. Sua altura estava sempre sendo salientada – ela era bem mais alta do que os enviados ingleses, segundo eles informaram em um tom de admiração.

Christina já era viúva. Aos doze anos, ela havia se casado com Francesco Sforza II, Duque de Milão. Ele morreu um ano depois, e eles não tiveram filhos. Com o seu vestido escuro de viúva, com o aspecto sério desmentido por uma boca travessa de lábios curvos, a duquesa parecia poder combinar a graciosidade régia de Catarina de Aragão com a vivacidade da jovem Ana Bolena.

A primeira vista, é difícil de acreditar que esta pálida garota de 16 anos se atreveria a insultar seu mais novo pretendente, o rei da Inglaterra. No entanto, esta é um história que tem sido muitas vezes repetida:

“Entre as candidatas, estava a belíssima Cristina de Milão, sobrinha do imperador Carlos. Ela se casara com o Duque de Milão, que morrera, deixando-a como uma viúva virgem de 16 anos. Henrique estava interessado nos relatos sobre ela (…). Mandou Holbein fazer um retrato de Cristina. Quando o pintor trouxe o quadro, Henrique sentiu-se atraído, mas não o bastante para desejar fechar negócio imediatamente. (…) Foi reportado que Cristina dissera que, se ela tivesse duas cabeças, uma estaria a serviço do rei inglês, mas tendo apenas uma, estava relutante em ir para a Inglaterra. Ouvira dizer que sua tia-avó Catarina de Aragão fora envenenada; que Ana Bolena tinha sido executada devido à sua incapacidade de engravidar novamente. Obviamente, ela estava sobre o comando de Carlos, mas esses relatos provavelmente despertariam a relutância do imperador em permitir a união.”

(PLAIDY, 2000, pág. 445)

Alguns relatos, entretanto, desmentem essa história completamente. Parece que Cristina estava realmente encantada, ou no mínimo curiosa, com a idéia de ser a próxima Rosa Tudor. Contos contemporâneos dizem que a atitude de Cristina para com Henrique era uma espécie de curiosidade confusa e uma aceitação submissa de seu destino.

Thomas Wriothesley, 1º Conde de Southampton, subiu ao poder na corte de Henrique VIII sob a influência de Thomas Cromwell, e foi enriquecendo com a dissolução dos mosteiros. Em 1538, ele foi enviado como embaixador para Holanda para propor o casamento entre Henrique VIII e Cristina, Duquesa de Milão. Ele foi recebido pela encantadora duquesa, admirando seus lábios vermelhos e faces rosadas em seu ‘maravilhoso rosto bem moreno’, e também o bom senso e o espírito. A tia dela, a regente, permitiu que ele perguntasse diretamente a Christina se ela estaria ‘disposta’ a se casar com o senhor dele – ele ouvira dizer o contrário. Mas a duquesa negou firmemente ter expressado tal opinião. ‘Quando à minha disposição‘, disse ela, ‘o que devo dizer? O senhor sabe que farei o que o imperador mandar‘. As palavras, sem dúvida, eram sinceras.

Wriothesley pode ter abusado da sorte: ele disse a Duquesa que, se ela se casasse com Henrique, ‘[iria] casar com o mais delicado cavalheiro que já existiu; a natureza dele é tão benigna e agradável, que acho que até hoje ninguém ouviu muitas palavras iradas passarem por sua boca’. Ao ouvir isso, a duquesa sorriu e, segundo Wriothesley, poderia até ter soltado uma gargalhada, se não fossem as exigências da dignidade: ‘portou-se como uma pessoa (achei eu) que tivesse sentido cócegas’.

'Holbein foi enviado para pintar Ana de Cleves', por Angus McBride.Alguns historiadores argumentam que o período de tempo que Cristina posou para Holbein (apenas três horas) é a prova de seu pouco interesse, mas Holbein nunca levou mais de quatro horas para completar seus esboços. Esse também foi o caso do infame retrato de Ana de Cleves, que mais tarde se tornaria a 4ª esposa de Henrique. Coincidentemente, Christina acabaria se casando com Francisco, Duque de Bar, em 1541: ele havia sido noivo de Ana de Cleves.

O real impedimento para o casamento, entretanto, não era a falta de atração de Cristina para com Henrique, e sim o fato que Cristina era a sobrinha-neta de Catarina de Aragão, e isso as colocavas nos degraus proibidos da afinidade. A única maneira de Henrique se casar com Cristina teria sido com uma dispensa papal do Papa Paulo III, e ele não estava prestes a dar nenhum passe livre para que Henrique se casasse: pouco tempo depois, Paulo III excomungaria Henrique. Carlos V não deixaria sua sobrinha se casar com alguém que o Papa negara publicamente o sagrado sacramento do matrimônio. Henrique não teve nenhuma escolha a não ser se casar com outra pessoa.

Embora Cristina tivera o bom senso de não ter feito essa famosa observação, é possível encontrá-la na maioria dos livros de ficção como verdadeira. O boato é um reflexo preciso da atitude do século 16 quando a Henrique estar procurando sua 4ª esposa: a maioria das pessoas achava que ele realmente precisava de uma esposa com duas cabeças.

Bibliografia:
BECCIA, Carlyn. ‘The Raucous Rumor of the Month: The sassy Christina of Milan snubs Henry VIII’. Acesso em 21 de Janeiro de 2013.
PLAIDY, Jean. Assassinato Real. Tradução de Sylvio Gonçalves. Rio de Janeiro: Record, 2000.
FRASER, Antonia. As Seis Mulheres de Henrique VIII. Tradução de Luiz Carlos do Nascimento e Silva – 2º Edição – Rio de Janeiro: BestBolso, 2010.
Thomas Wriothesley (1505–1550), First Earl of Southampton, Hans Holbein the Younger (German, Augsburg 1497/98–1543 London)‘. Acesso em 21 de Janeiro de 2013.

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20 comentários sobre “Christina de Milão e a rejeição de Henrique VIII

  1. É um destes momentos em que o folclore é mais interessante q o registro formal.
    Os produtores de The Tudors foram pelo dito popular; na série, a famosa fala da Duquesa de Milão foi muito bem pontuada.

  2. lembro dessa historia na serie the tudors. inclusive ela tinha parentesco com catarina de Aragão né? foi qd ele resolveu ficar com ana de cleves….

      • Ah, é mesmo. Tem até uma trovinha: “Divorciada, decapitada, morta; Divorciada, decapitada, viva.” :-)

        • Na verdade é : divorciada, decapitada, morreu, divorciada, de captada, sobreviveu. 😊 mas é tecnicamente cheia de erros haha.

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