Jane Seymour e seu papel na queda de Ana Bolena

Helena Bonham Carter como Ana Bolena e Emilia Fox como Jane Seymour no filme 'Henry VIII' em 2003.Jane Seymour casou-se com Henrique VIII apenas onze dias depois da execução de Ana Bolena. Teria Jane alguma coisa a ver com o colapso de sua antecessora? Ou ela não era nada maia do que uma vítima manipulada por pessoas ambiciosas?

Para entender melhor os motivos de Jane e sua influência – se é que ela tinha alguma – na queda de Ana Bolena, devemos primeiro saber sobre as crenças políticas e religiosas dela. Durante vários anos Jane Seymour foi dama de companhia de Catarina de Aragão. Como católica, ela era uma das apoiantes da rainha e não queria Ana Bolena em seu lugar. Ana Bolena e Jane Seymour estavam em lados diferentes do aspecto político: Ana promovia a reforma, era uma ‘política brutal’, inteligente e atraente, tinha carisma e era confiante. Jane Seymour, por sua vez, pertencia à facção católica, apoiava Catarina de Aragão e Maria Tudor. Apesar de não ser considerada muito bonita, Chapuys a descreveu como ‘um pouco arrogante’, pálida e muito formosa, na sua opinião ela tinha ‘mais de 25 anos’ – ou seja, era uma solteirona para a época.

Não se sabe exatamente quando Henrique VIII ficou interessado por Jane, mas certamente ele a conhecia, uma vez que estava no séquito de suas duas esposas. Em setembro de 1535, o rei e Ana Bolena visitaram a propriedade dos Seymour em Wolf Hall, mas não é certo se foi lá que ele desenvolveu sentimentos por Jane. Mesmo que Henrique tenha se interessado por Jane em setembro de 1535, nessa época Ana estava grávida e era pouco provável que o rei estivesse proposto casamento com Jane.

No final de 1535, Ana Bolena estava esperando outra criança. Infelizmente, em 29 de Janeiro de 1536, Ana abortou. O casal ficou chocado com a perda. A rainha culpou Henrique porque ele perseguia Jane e que ela tinha visto-a sentada em seu colo.

Em fevereiro de 1536, o público soube que Henrique VIII estava apaixonado por Jane. Sua posição se ‘fortalecia a cada dia’. Chapuys logo soube que Jane estava do lado de Maria Tudor, e confessou em uma carta que a apoiaria nessas atividades, mas ao mesmo tempo expressou seu ceticismo:

‘Espero que, sob essa doçura não esteja à espreita o escorpião’.

De acordo com Alison Weir, Chapuys percebeu que Jane poderia fingir ser uma mulher humilde e que isso não era menos inteligente ou ambicioso do que as ações de Ana Bolena. Para Elizabeth Norton, após o aborto de Ana, Henrique via em Jane ‘uma oportunidade tentadora’ para se casar.

Chapuys escreveu que Jane foi instruída por assessores próximos do rei, aqueles que não se submetiam a Ana, a deixar claro que o casamento de Ana Bolena nunca seria aceito. Jane também fez uso de outra tática: não aceitou ser sua amante, assim como Ana Bolena. Seguindo os passos da rainha, Jane Seymour aplicou as mesmas táticas para manter o interesse do rei. Elizabeth Norton acrescenta que Jane não era somente uma ‘observadora’, mas uma ‘participante ativa na estratégia para garantir sua posição ao lado do rei’. Levando em conta a amarga decepção que o casamento do rei com Ana estava sendo, cada palavra ruim sobre sua esposa era guardada em sua mente.

Jane Seymour era repetidamente regada com presentes e esta situação certamente não passou despercebida por Ana Bolena, que vigiava constantemente sua dama. Ela tinha razões para temer o sentimento do rei em relação a Jane, pois poucos anos antes seu marido adorava Catarina de Aragão. Emilia Fox como Jane Seymour no filme 'Henry VIII' em 2003.Agora, Ana era a mulher desprezava e Jane a adorada. Ela recebia presentes e sentava-se em seu colo, mas como uma futura esposa, Jane precisava desfrutar de uma reputação impecável. Henrique VIII deu os apartamentos de Cromwell a Jane, seu irmão Eduardo e sua esposa Ana Stanhope. Não é certo se Jane morava com eles ou se os apartamentos só serviam como ponto de encontro de Jane e o rei, onde eles eram ‘vigiados’ pelo irmão e sua mulher.

A primeira grande vitória dos Seymours foi a nomeação de Sir Nicholas Carew como Cavaleiro da Ordem de Jarreteira em 23 de Abril de 1536, no momento em que um outro candidato para este prestigioso título era o irmão da rainha, George Bolena. Ficou claro que alguma coisa estava acontecendo. Chapuys informou satisfeito que a ‘concubina não tinha suficiente poder para adular uma posição para seu irmão’.

Alison Weir diz que pode-se argumentar que Jane era impotente contra a vontade real, mas que ela não o fazia sem a sombra da ambição. ‘Ela começou sua campanha para seduzir Henrique VIII, então ela sabia o que estava fazendo e estava convencida da justeza de suas ações’. Como sabemos, Jane não agia sozinha e até hoje é uma controvérsia se ela era guiada pelo seu próprio desejo ou se era usada por sua família e amigos. Os partidários de Jane mantinham contato próximo com Chapuys, que escreveu que ‘mesmo antes da prisão da concubina, o rei falou com sua amante Jane Seymous sobre seu futuro casamento’.

Em 14 de maio, um dia antes do julgamento de Ana Bolena, Jane foi transferida para uma mansão em Chelsea, onde foi tratada com respeito e agraciada com belas vestes que marcavam seu novo status. Quando Ana Bolena ponderava sobre seu destino na Torre, Jane Seymous saboreava o doce sabor do poder. Infelizmente, os sentimentos de Jane Seymour em relação ao processo de Ana Bolena são desconhecidos. Na manhã do julgamento, Henrique mandou uma mensagem a Jane dizendo que ele enviaria uma notícia sobre a condenação de Ana. Mas como ele sabia que sua esposa seria condenada? Supostamente, o julgamento iria condenar ou absolver, mas assim podemos ver que o rei sabia desde o começo o destino de Ana. Compartilhando essa informação com Jane, pode-se sugerir que ela estava ciente da inocência de sua antecessora.

Apesar de Ana Bolena nunca ter ganhado reconhecimento e popularidade do povo inglês, a sua prisão e rápida condenação deixou muita decepção e descrença. Especialmente porque o rei não agiu como se tivesse descoberto algo dramático, muito pelo contrário. ‘Henrique tornou-se o corno mais feliz’, escreveu Elizabeth Norton. Chapuys informou que existiam aqueles que questionavam a forma que Ana Bolena  foi tratada. No momento em que ela rezava por sua sobrevivência, o rei viajava em uma barcaça festiva.

Apesar de Jane ser bastante popular, as pessoas ficaram surpresas que, enquanto a rainha sofria na prisão o rei se preparava para casar-se com outra.

De acordo com especulações, Henrique estava planejando uma coroação de luxo para sua terceira esposa. No entanto, Jane nunca foi coroada; a razão oficial é o surto de peste em Londres, mas é provável que Henrique estivesse esperando que Jane lhe desse seu primeiro filho.

Emilia Fox como Jane Seymour no filme 'Henry VIII' em 2003.No geral, Jane Seymour certamente teve sua contribuição para a queda de Ana Bolena, mas a única questão é o quanto ela de fato contribuiu. Jane era inteligente e sabia que após dois casamento com mulheres fortes o rei necessitava de uma esposa tranquila e humilde, que lhe daria um filho. Como rainha e mulher de sucesso – dando a Henrique seu filho tão desejado – ela pagou um grande preço, morrendo depois de um parto longo e cansativo. Se sobrevivesse, provavelmente o mundo teria visto sua verdadeira face, de uma mulher determinada e ambiciosa. Certamente como a mãe do futuro herdeiro Jane teria mais coragem de expressar suas próprias opiniões.

Traduzido do artigo ‘Jane Seymour i jej rola w upadku Anny Boleyn‘ escrito por Sylwia S. Zupanec.

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25 comentários sobre “Jane Seymour e seu papel na queda de Ana Bolena

  1. Sou tão apaixonada pela figura de Jane Seymour que me recuso a pensar em Jane arquitetando a queda de Bolena. Pobre Henry… Ele é que era doidinho mesmo!

    • na minha opinião ela era doce, delicada e a família ambiciosa. mas o que importa é que na minha opinião ela oi o verdadeiro amor dele.

  2. Laís, na verdade é impossível provar quais das esposas do rei tiveram “diversos amantes”. Isso é atribuído tanto a Ana Bolena quanto a Catarina Howard.

    • A Howard era uma piriguete maluca! Pelo menos assim foi retratada no seriado The Tudors. Mas Jane sempre foi lembrada como doce e meiga com as filhas de Henrique.

    • Laís Sperandei, não sei das outras. Quanto à Ana Bolena, antes de vir para a corte inglesa, era cortesã em Paris, mas acho que amou sinceramente o rei, que ainda era moço e cheio de vida quando a conheceu. Não acredito que o tenha traído. Embora meus parcos conhecimentos hoje se embaralhem com o seriado que foi deslumbrante.

      • Mas gente… Não se pode levar em conta nada nada do que apareceu no seriado The Tudors. Nem o próprio Jonathan Rhys Meyers era parecido com o rei. Não existe nada que comprove que Catarina Howard traiu Henrique. Tudo que se têm é uma carta que ela escreveu para Culpeper, que prova a “intenção” de trair. Nenhum dos dois confessou terem tido intimidades sexuais. Você pode ler mais sobre isso nesse artigo:

        http://boullan.org/2014/05/10/catarina-howard-culpada-ou-inocente/

  3. Mas que o tal Jonathan Rhys Meyers é bonito, ninguém pode negar! Se Henrique VIII fosse TÃO bonito, teria casado mais 8 vezes!!!!

  4. De todas as esposas de Henrique VIII, sem dúvida Jane é a menos controversa para os leigos, suas interpretações na mídia quase sempre se pautam em apresentá-la como dócil, mansa e ingênua ao contrário do furacão Ana Bolena meio como que uma tentativa de romantizar ainda mais a dramática Dinastia Tudor. É tão bom ver abordagens assim sobre ela, mais realistas, desmascarando o mito da esposa mais amada. Porque afinal, ela e Ana jogaram o mesmo jogo, só que com cartas diferentes.

  5. Creio que a noção de ambição e elevação social pela via do casamento deva ser sempre relativizada, ela passa pelo crivo dos observadores de época e se limita pelas então parcas opções femininas. É por isto que o mistério nunca se revela de todo, e retornamos a ele over and over again.

  6. Alguns detalhes estão iguaizinhos ao que foi mostrado seriado, mas essa outra face da Jane não mostrou lá …rsr

  7. E o mais ironico de tudo isso: Foi a filha de Ana Bolena a rainha mais sagaz, mais marcante e que teve um longo reinado que revolucionou a Inglaterra: O rei Eduardo sequer teve chance de governar e Mary Tudor, alem de ter sido um fiasco para a Inglaterra, se tornou uma das rainhas mais impopulares…

  8. Ana era crudelíssima e provou de seu próprio veneno. Henrique foi igualmente cruel, ingrato, destemperado é incapaz de ser fiel a quem quer que fosse. Seu reinado foi uma era de incertezas, despotismo e infelicidade geral…

    • Na verdade não. O povo não gostava de Ana por ela ter destronado Catarina de Aragão, mas ela doava muito mais para caridade (talvez para compensar isso mesmo, mas o fato é que doou), e inclusive uma das teorias de que Ana Bolena tenha sido decapitada é que ela queria que o dinheiro da dissolução fosse usada para criação de escolas, enquanto Cranmer e Henrique tinham outros planos menos ‘benéficos’ para o uso do dinheiro. De qualquer forma, Henrique também não pode ser acusado de ‘infiel’, uma vez que comparado a todos os reis europeus, ele foi o que teve menos amantes (de fato, ele tinha a ‘mania’ de transformar suas possíveis amantes em esposas :P ).

        • Cecilia Guimarães, em que senso você a considera “crudelissima”?
          De acordo com os relatos que temos ela não era muito popular entre os ingleses por ter “tomado” o lugar daquela que era já a rainha deles há um quartil de século, porém, fora isso, e sua mente sagaz e incontida que alçava vôos questionadores da religião à política, passando pelos caminhos da moda e artes, não conheço relatos de crueldade dela para com o povo inglês , ou mesmo com seus servos…
          Penso que ela buscava se afirmar e ocupar seu lugar na corte com o uso de todos os argumentos que lhe estavam à disposição…
          Com relação à Henrique, ele foi o mais eminente retratado do absolutismo, a marca da identidade política de seu tempo… não concordo que tenha sido um tempo de incertezas no sentido pejorativo, mas sim, um tempo de quebra de paradigmas e construção de novos valores… no tocante à sua fidelidade, me parece que o seu grande destaque vai para a “legitimação ” que ele dava às suas amantes, embora, seu coetaneo e primo François I , rei de França, tenha sido, reconhecidamente muito mais infiel que Henry… sem contar os Medici, seus também contemporâneos de Firenze, dos quais, Cosimo I suspeita-se inclusive que tenha matado a “adorável ” Leonora de Toledo e o próprio filho para restar com sua então amante…
          Ahhhhh a renascença, um período da história tão belo, delicado e intricado como a renda veneziana que leva o se nome… ;)

    • Muuuuuuuito, Camila Brenner!! Mordaz em suas colocações talvez… sua autonomia de pensamento, sua vasta cultura e sua sagacidade, a meu ver, foram os principais elementos para o encantamento de Henrique por ela, mas essa mesma sagacidade e autodeterminação, no século XVI, e, em certa medida, ainda hoje, são mal vistos em uma mulher e tomados por arrogância e soberba intelectual

      • Acredito que seja o caso de ela ter características desejáveis em uma “amante” mas não em uma esposa. Um rei esperava submissão e amorosidade de uma esposa, e não sagacidade e inteligência.

        • Concordo plenamente!!!
          Entre outras coisas, essa disparidade entre o que lhe causava encanto e o que como rei esperava de uma “esposa real” foi pedra angular para a desgraça e morte de Bolena…
          Sabemos que henry não admitia ser confrontado, contraditado ou questionado por qualquer pessoa, e isso era um elemento forte na personalidade de Nan, o que deve ter pouco a pouco, junto com a ausência de um herdeiro e as crises externas de seu governo agravadas pelo seu divórcio podem ter corroído paulatinamente o amor arrebatador dele…

          Aliás, me pergunto sempre: era mesmo amor??? Ou uma paixão arrebatadora por uma imagem idealizada?

  9. Eu não consigo gostar da Jane. Pra mim, ela não tinha nada de doce e fofinha não. Ela conseguiu o que as outras não conseguiram por sorte. Além do que, foi bem espertinha, fez o mesmo que a Ana pra conseguir o rei. Acredito que se a Ana tivesse tido o último bebê e fosse homem o Henrique ia pirar.

  10. Ana era uma mulher com muita personalidade , sendo assim exotica para sua epoca. Talvez Henrique possa ter ficado intimidado por sua esposa ser tao inteligente e com opiniao propria oque naquela epoca era inaceitavel para uma mulher. Ns minha opiniao apos o casamento Ans despertou a inveja de seu proprio marido por ser tao inteligente.

  11. Pergunto-me se Jane tivesse uma menina e se sobrevivesse, ou então se ela tivesse sobrevivido em vez de Eduardo, onde estaria o “amor” de Henrique, ou melhor a paciência… Ela teve influência… A sua indiferença…

  12. Não entendo quem condena a Jane, por apoiar Ana… Ana esteve no lugar de Jane, uma vez. “Gosto de Catarina, mas não consigo desgostar da Ana pelo que ela fez…” Mas não gostar de Jane parece mais sensato? Certamente, Ana usou de armas que Jane aproveitou, mas aperfeiçoou. Jane foi uma boa rainha, esposa e madrasta, não há razões para não gostar dela pelo que aconteceu a Ana, assim como não gostar de Ana pelo que aconteceu a Catarina. Tomar um posicionamento sobre estas mulheres não me parece inteligente, é preciso ter um ângulo mais amplo de tudo que acontecia na corte, para alcançar um esclarecimento imparcial. A culpa do mal vem daquele que o provocou, o próprio Henrique. Abram os olhos, parecem de procurar nestas mulheres alguma discórdia para elevar uma e diminuir outra, quando todas foram muito corajosas e notáveis.

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