Elizabeth I e a varíola

A Rainha Elizabeth I contraiu varíola em outubro de 1562, durante um dos piores surtos na Inglaterra. Ela tinha apenas 29 anos de idade e estava no trono por quatro anos. A varíola causava febre alta, vômitos, sangramentos excessivos e crotas cheias de pus que deixam profundas cicatrizes. Seus médicos envoltaram seu corpo em um cobertor vermelho e a colocaram perto de uma lareira. Isso era chamado de ‘tratamento vermelho’, praticado desde o século 12 em países europeus e em algumas partes da Índia, Japão China, Turquia, Geórgia e até mesmo em na África e América Latina.

Acreditava-se que a luz vermelha era capaz de enfraquecer os sintomas da varíola, e assim a pessoa doente se vestia totalmente de vermelho. Curiosamente, Niels Ryberg Finsen, médico que ganhou o Prêmio Nobel de Medicina e Fisiologia em 1903 defendia que o uso de luz vermelha em pacientes com varíola diminuía, de fato, a severidade das cicatrizes.

No extremo da doença, Elizabeth ficou inconsciente e sem condições de falar. Ela lembrou depois quanto chegou perto da morte:

‘A morte tomara quase todas as minhas juntas, e por isso desejei então que o tênue fio da vida, que durou (acho) tempo demais, pudesse pela mão de Cloto ter sido silenciosamente cortado’.

Maria Dudley, Lady Sidney, atribuído a Hans Eworth, por volta de 1550-1555.

Maria Dudley, Lady Sidney, atribuído a Hans Eworth, por volta de 1550-1555.

A rainha era a última dos Tudors e a varíola já tinha se provado fatal para muitos de seus súditos. Se não fosse fatal, os efeitos eram duradouros, pelo menos na face: Maria Sidney, irmã de Lorde Robert Dudley, ficou desfigurada para sempre depois de se recuperar da doença. Ela havia pegado a doença ao cuidar da rainha, e se aposentou da corte por causa das cicatrizes e marcas escuras que adquiriu. Em gratidão, a Rainha Elizabeth passou a pagar a Maria uma pensão.

A saúde da rainha era uma questão de segurança nacional: se a jovem, solteira rainha protestante morresse em um herdeiro ou sem nomear um, a Inglaterra mais uma vez mergulharia no caos da guerra, com pretendentes rivais lutando pelo trono.

Após uma semana de febre violenta não se esperava mais que a raiha vivesse. A corte mergulhou em um turbilhão, pois a rainha morreria sem ter nomeado um herdeiro. Por sorte, a febre começou a ceder, e as primeiras palavras que ela disse, pensando que estivesse morrendo, foi que o Conselho nomeasse seu favorito, Robert Dudley, como protetor do reino, com um título e renda de vinte mil libras esterlinas.

Robert Dudley, atribuído a Steven van der Muelen, por volta de 1560-65.

Robert Dudley, atribuído a Steven van der Muelen, por volta de 1560-65.

Elizabeth entendia que seus súditos e o Conselho poderiam ver isso como prova de um relacionamento amoroso com Dudley, mas ela já havia declarado que, ‘A rainha protestou na época que embora amasse e sempre houvesse amado muito Lorde Robert, como Deus era testemunha, nada impróprio jamais ocorrera entre eles’. Dudley era uma escolha impopular dentro da Corte, do Conselho e até mesmo com o povo. Eles não o queriam como Lorde Protetor, muito menos como um Rei consorte. Como o Embaixador Espanhol observou: ‘Tudo o que ela pediu foi prometido, mas não será cumprido’.

Maria Stuart, prima da rainha e rainha da Escócia, lhe escreveria que estivera muito preocupada com os efeitos que a doença poderia causar em sua pele.

‘Agradeço a Deus de todo o meu coração, especialmente desde que soube do perigo em que vos encontráveis, e como escapastes tão bem, que vosso belo rosto não percais nenhuma de suas perfeições’.

Felizmente, Elizabeth não ficou desfigurada, tendo sobrevivido com poucas cicatrizes. A Rainha lidaria com as marcas da varíola de sua própria maneira, ao aplicar uma maquiagem branca e carregada de chumbo, para cobrir as cicatrizes e lhe dar a pele pálida e uma aparência jovem e virginal. A maquiagem provavelmente encurtou sua vida e fez seu cabelo cair, forçando-a a usar perucas. A maquiagem e a peruca se tornariam parte de sua iconografia como ‘A Rainha Virgem’.

Bibliografia:
DUNN, Jane. Elizabeth e Mary. Tradução de Alda Porto. Rio de Janeiro: Rocco, 2004.
TUCKER, Jonathan B. Scourge: The Once and Future Threat of Smallpox. New York, 2001.
JENSEN, Ashlie ‘On This Day in Elizabethan History: Queen Elizabeth Falls Ill‘. Acesso em 23 de Março de 2014.
SCHAJER, David B. ‘Queen Elizabeth I — Smallpox, Essex and Hamlet‘. Acesso em 23 de Março de 2014.
The red treatment‘. Acesso em 23 de Março de 2014.

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