A vida da criança nos tempos Tudor e Elisabetano

Hoje os primeiros anos de uma criança são valorizados como uma época de inocência e importantes experiências formativas. Existe um enorme mercado para roupas, móveis e brinquedos projetados especificamente para os pequenos, e as suas necessidades ditam as rotinas e as escolhas das famílias. Mas esse nem sempre foi o caso: o conceito de infância como um período separado, sentimental e ideal do desenvolvimento é uma invenção relativamente moderna. Embora agora as crianças tenham leis e direitos para protegê-los de trabalho forçado e para promover a sua saúde, segurança e educação, a sobrevivência dos jovens do passado eram menos certa, pois esperava-se que eles se adaptassem e estivessem de acordo com as expectativas dos adultos.

No período Tudor, a expectativa de vida era menor e a probabilidade de morte prematura por doença, infecção ou acidente colocava a mortalidade infantil em um quadro previsível. Quase 25% das crianças morriam antes do seu 5º aniversário e até 40% morriam antes do seu 16º aniversário. No entanto, a compreensão da assistência à infância era muito diferente. Pense em uma casa moderna, com borrachas e travas de segurança, com todos os objetos cortantes ou perigosos removidos. Quando lemos que os bebês Tudor passavam pelo menos o seu primeiro ano firmemente enrolado em seus berços, parece contrário às nossas crenças em suas necessidades de desenvolvimento e o processo de aprender a andar. No entanto, a criança sem supervisão que andasse livre sobre a casa Tudor, com suas superfícies irregulares, lareiras e panelas ferventes, ficava muito mais segura quando restrita à sua cama.

Registros de tribunais estão cheios de crianças pobres que se acidentaram quando se aventuraram para fora das portas e janelas, ou desciam a rua e caíam em uma vala. A triste quantidade desses casos parecem que seriam facilmente evitados se a criança fosse supervisionada da maneira que é hoje. Mas não sugiro que as mães Tudor fossem negligente – e dizemos mãe porque os pais não estavam diretamente envolvidos no cuidado de crianças pequenas; mas sim porque as mães pareciam ter diferentes idéias de prioridade, e menos opções do que temos hoje. Um conto perturbador conta a história de um bebê que foi deixado enrolado no berço sozinho enquanto a mãe saiu. Quando voltou, ela descobriu que seu bebê tinha sido mortalmente ferido por um porco selvagem que tinha entrado na casa.

A disciplina também era muito mais dura para as crianças pequenas na época Tudor. Castigos físicos, que hoje seriam considerados abusivos, eram comuns. Na verdade, a maioria dos livros recomendava esse tratamento, a fim de treinar os filhos. Embora hoje nós entendemos que o choro de um bebê é sua tentativa de se comunicar; que uma criança pode ter um acesso de raiva por estar frustrada, tais comportamentos eram prontamente atendidos com golpes. Estes nem precisavam vir dos próprios pais: vizinhos, professores e até mesmo estranhos entravam em cena para disciplinar uma criança no que hoje pode ser visto como mal-entendidos ou delitos menores. Isso não criava um sentimento de paternidade: ensinava a criança Tudor de que tinha que ter cuidado com todos e andar na linha. Sem dúvida, havia muitos pais amorosos e afetuosos, mas a disciplina física era vista como comum dentro do contexto da sociedade Tudor.

Os Tudors também reconheciam os diferentes estágios de desenvolvimento de seus filhos. Os elisabetanos acreditavam que os seres humanos progrediam a partir de um conjunto de fases, denominadas “idades do homem”, cada uma distinta da outra. Esse conceito é conhecido hoje graças a Shakespeare, no qual ele identifica sete idades em uma de suas peças: a do bebê, a da infância (caracterizada pela criança na escola), a adolescência e quatro adultas. Sabemos então que eles não eram vistos como pequenos adultos, entendia-se que havia certas tarefas que eles não podiam executar e ritos de passagens de que eles deveriam passar. A idade de 7 anos era a uma fase-chave. Até então, meninos eram cuidados por suas mães e eram vestidos e tratados da mesma maneira que as meninas. A partir do sétimo aniversário, a masculinidade do menino era afirmada, ele passava a usar roupas de homem e passava a ficar mais tempo com homens. Esperava-se que as crianças mais pobres começassem a trabalhar com essa idade: escavações arqueológicas mostram os efeitos que o trabalho duro teve nos ossos de crianças tão jovens. A próxima etapa era aos 12 anos, quando meninas eram consideradas a casar, embora os homens só pudessem se casar com 14. Obviamente, nas famílias aristocráticas os casamentos eram arranjados bem antes disso. Ricardo de York, por exemplo, se casou aos 4 anos com Anne de Mowbray, de 5, em 1478. Ás vezes esse casamentos não davam certo, e muitas vezes o casal só era considerado capaz de consumar a união na adolescência, como por exemplo, o príncipe Artur e Catarina de Aragão. Além disso, um noivado não tornava o casal necessariamente íntimo. Cada um viveria na sua casa até o momento em que os pais considerassem apropriado para que eles pudessem se casar e consumar a união. Podemos ver isso com Henrique Fitzroy, filho ilegítimo de Henrique VIII, e seu casamento com Maria Howard. Eles se casaram em 28 de Novembro de 1533, mas Fitzroy morreu em 1536, antes que eles tivessem permissão para viverem juntos e consumarem o casamento.

Quatorze também era a idade tradicional para que meninos e meninas pudessem se ligar a um mestre para aprender uma profissão. Eles ficariam 7 anos fazendo uma espécie de “estágio”, até que pudessem ser considerados aptos para exercer a profissão. Geralmente nessa época, os meninos eram mandados embora de casa e trabalhavam longas horas por dias, às vezes em troca de pouco de comida. Eles tinham que seguir regras rígidas de conduta, ou veriam a demissão e a punição. Bandos de aprendizagem indisciplinados causavam arruaças em Londres constantemente – era nada mais que um grupo de adolescentes reprimidos que viam na maldade e violência a sua liberdade nos dias de festa.

Também havia uma cultura própria da criança, caracterizada por meio de inúmeras referências em registros históricos de rimas, charadas e músicas de criança. Também existem vários cadernos escritos por elas mesmas – assim como hoje, os professores Tudor incentivavam as crianças a escreverem sobre seus assuntos prediletos, resultando em várias letras de músicas, charadas, trava-línguas e até mesmo comentários deselegantes sobre pessoas que eles não gostavam.

Os mais ricos poderiam pagar seus próprios professores particulares. Henrique VIII teve como professores alguns dos principais pensadores de sua época, como Bernard Andre e John Skelton. Existiam escolas de gramática para instruir os filhos das classes médias – Shakespeare frequentou uma dessas escolas – mas não havia um currículo universal. A disciplina também era rígida. As crianças Tudor costumavam ir à uma espécie de creche, e depois iam para a escola de gramática quando tinham por volta dos 7 anos. As aulas começavam ás 6h no verão e às 7h no inverno. O almoço era das 11h às 13h. As aulas terminavam por volta das 17h. Os meninos iam para a escola seis dias por semana. É claro que muitos não iam para a escola, pois tinham que ajudar seus pais nas tarefas doméstica ou nas plantações – nem que fosse para apenas ficarem assustando as aves quando as sementes estivessem sendo plantadas.

As meninas aprendiam em casa, com sua mãe, que as preparavam para sua futura vida como mãe e esposa. Um poema medieval “Como a Esposa ensina sua Filha” centra-se no comportamento desejável e moral, como a modéstia,  a caridade e religião que todas as moças deveriam aprender, incluindo princesas. Alguns manuais do século XVI também tinham como foco as maneiras à mesa e a interação da criança com os outros, como responder e como permanecer em silêncio.

Durante o século XVI, mais mulheres nobres aprendiam a ler para que pudessem regir suas próprias famílias. A sobrevivência de cartas, diários, poemas e livros de receita mostram que esta habilidade estava se tornando cada vez mais valorizada. Mais tarde, quando as mudanças religiosas significavam que as pessoas eram incentivadas a lerem a Bíblia sozinhos em inglês, houve um maior incentivo à alfabetização. Embora mulheres como Elizabeth I, Jane Grey, Maria Tudor e Maria Stuart tivessem recebido uma educação impressionante, até o final do reinado de Elizabeth I mais mulheres estavam lendo, escrevendo e compondo.

Nas famílias nobres, as crianças viviam em mini-casas dentro das propriedades de seus pais, com uma equipe de enfermeiros e cuidadores, ficando com seus familiares com pouca frequência. Isso era uma espécie de treinamento para quando eles fossem viver em suas próprias mansões e tivessem que administrar sua própria casa e seus próprios criados. Isso não significa que eles não fossem amados ou apreciados pelos pais, mas uma vez que não interagiam com eles com frequência, o desenvolvimento do afeto deve ter sido diferente. O velho equívoco que os pais Tudor não amavam seus filhos são refutadas pelos poemas sobre a perda deles, assim como cartas e registros de pais que viajaram longas distâncias para levar seus filhos doentes para alguma Igreja que fizesse milagres. As crianças nobres acabavam se acostumando mais com suas governantes do que com seus pais, que viam como seus deveres supervisionar os regimes das crianças, a hora de dormir, as refeições e aulas. Uma dieta contendo carne era considerado importante para o crescimento, mas considerava-se perigoso beber leite depois do meio-dia; ao invés disso, as crianças tomavam uma cerveja fraca (porque não era recomendável beber água na época).

Os nobres também tinham menos tempo para brincar. Ao três anos de idade, o Príncipe Artur tinha um regime de lições acadêmicas com apenas uma breve hora antes de dormir para desfrutar de seus jogos favoritos e brincar com seus animais de estimação. As brincadeiras das crianças simples Tudor consistiam em bonecos de madeira (chamados de Bartolomeu porque eram vendidos principalmente na feira de São Bartolomeu, em Londres), ioiôs, miniaturas de objetos domésticos (como pratos, vasilhas, jarros e chaleiras, obviamente destinado à meninas). Outras atividades registradas era corrida, salto, canto, brigas, lançamento de pedras, caça, pesca, escaladas em árvores para roubar frutas, futebol, hóquei, críquete, duas modalidades de dado, xadrez, gamão, entre outros. Havia até mesmo um calendário para as brincadeiras – em novembro e dezembro era época de se fantasiar e pedir prendas; o inverno era destinado a jogos com bola; e a quaresma era dedicada a jogos de pião.

A vida da criança nos tempos Tudor era muitas vezes brutal e cheia de experiências que poderiam horrorizar o pai moderno. Apesar de serem reconhecidos como diferente dos adultos, suas necessidades eram geralmente considerados secundários e a sua educação e formação era orientada pela conformidade. Os primeiros anos eram preenchidos com potenciais perigos de doenças, acidentes e violência, e embora as decisões podem parecer erradas para nós hoje, eram consideradas as melhores para os pais Tudor. Muita coisa mudou na psicologia e na pedagogia em 400 anos.

Bibliografia:
Pequenos na Idade Média. BBC História, Ano 1, Edução nº 4, p. 24-30.
LICENSE, Amy. “What was it like to be a child in Tudor times ?
LAMBERT, Tim. “Children in Tudor England“.

Anúncios

Um comentário sobre “A vida da criança nos tempos Tudor e Elisabetano

  1. Gostei bastante, bem rico e esclarecedor, ainda mais por essas imagens. Parece-me que a maior diferença entre crianças ricas e pobres era que estas estavam mais sujeitas a acidentes que outras, porque ambos tiveram uma “pseudo-infância”: muitas tarefas, rigidez, responsabilidades…

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s