O Reinado de Henrique VII

Henrique VII, por artista desconhecido. Governando ‘Após a moda francesa’

Em 1485, após as forças de Henrique Tudor terem desembarcado na Inglaterra e derrotado Ricardo III na batalha de Bosworth em 22 de agosto, Henrique, da casa de Lancaster, foi coroado sob o título de Henrique VII. Ele agiu rapidamente para consolidar seu poder, casando-se com Elizabeth, filha de Eduardo IV, da casa adversária, os York, com o objetivo de acabar com a disputa entre as duas casas opostas. Embora o casamento do rei tenha ocorrido por motivos políticos, esse provou ser um grande sucesso. Elizabeth ficava feliz em permanecer no fundo e nunca interferiu em assuntos políticos.

Os últimos anos de violência sanguinária foram esquecidos, e a vingança não desfigurou os primeiros meses de reinado. Depois da Batalha de Bosworth, Henrique perdoou praticamente todos aqueles que tinham lutado contra ele. O rei tinha motivos para estar feliz, afinal de contas, quase todos aqueles que poderiam reivindicar o trono haviam sido mortos nas batalhas. Um italiano escreveu para o Papa em dezembro de 1485 dizendo que ‘o rei mostra-se muito prudente e clemente. Todas as coisas parecem dispostas para a paz’. Assim, uma revolta no norte desmoronou depois que Henrique ofereceu perdão a todos que depusessem as armas.

O Embaixador Espanhol relatou que Henrique VII mostrava o desejo de governar ‘a Inglaterra após a moda francesa’, ou seja, a moda de Luís XI. Ele rapidamente consolidou a si mesmo cercando-se de um elaborado conselho de homens, na sua maioria de classe média, que compartilhavam do seu compromisso de estabelecer um estado-nação dedicado ao bem-estar geral da população, e não só da nobreza. Em nenhum período da história inglesa os nobres foram mais conspiciosos na corte, e em nenhum momento tiveram o menor favor real, do que durante o reinado de Henrique VII.

(c) Palace of Westminster; Supplied by The Public Catalogue FoundationJohn Morton, que desempenhou um papel fundamental na organização da conspiração para colocar Henrique Tudor no trono, foi um dos assessores mais favorecidos de Henrique VII ao longo de sua vida. Ele subiu aos altos cargos da Igreja durante o governo de Henrique VI e Eduardo IV, embora tenha sido preso por Ricardo III. Sendo um homem de grande integridade, inteligência e visão, Morton discordava muito das decisões de Henrique. Ao invés de ganhar o ressentimento do rei, este ganhou o favor real. Quando virou Bispo de Ely, ele drenou os pântanos entre Wisbech e Peterborough, construiu um dique e um canal para o mar para barcaças e embarcações de pequeno porte. Morton também ajudou a educar Thomas More, que viveu em sua casa.

Henrique também foi ajudado por Richard Fox, que se tornou um importante conselheiro. Nascido em cerca de 1448, Fox estudou primeiro em Cambridge, depois em Paris, onde se juntou a Henrique. Ele estava mais próximo de ser o ministro das Relações Exteriores do rei, onde ele negociava muitos tratados importantes.

Henrique VII rapidamente e firmemente assumiu os deveres da monarquia, restaurando a ordem. Ele levantou a coroa muito acima dos nobres, e formou uma aliança com a classe média, através de seus representantes na Câmara dos Comuns, que temiam a volta dos dias de guerra civil, e perceberam que sua sobrevivência e sustento dependiam da proteção do rei. Assim Henrique teve a lealdade das classes comuns, e não de nobreza feudal.

O rei introduziu uma mudança fundamental na concepção política da lei na Inglaterra. Ele agiu conscientemente para substituir a regra arbitrária da nobreza (tipificada pela Carta Magna), fazendo reformas em que todos fosse legalmente responsáveis por seus atos, independente de seu status. Apenas alguns meses depois de ser coroado, Henrique se moveu contra a ilegalidade da nobreza feudal, ordenando um juramento a ser feito no Parlamento, pelos senhores e membros da Câmara dos Comuns, em  19 de novembro de 1485, ‘para a reforma de diversos crimes e atrocidades’. De acordo com os termos do juramento, eles juraram não ‘receber, ou confortar, assassinos, criminosos ou foras-da-lei (…), não assinar nada contrário a lei (…) não impedir a execução de mandados reais”.

O rei também proibiu a manutenção dos exércitos privados, colocando um fim no banditismo da nobreza. Isso requeriu vários estatutos, uma vez que os senhores feudais não desistiriam facilmente da prática de guerra. Mas, no final do reinado de Henrique, o típicos inglês nobre tinha sido forçado a ter outras ocupações que não fazer tumultos e guerras.

Henrique criou um sistema centralizado judicial, com um sistema para apelação de casos. Uma lei aprovada em 1495 fazia com que os júris fossem estabelecidos, isso introduziu uma administração local muito eficiente, para o qual o rei recrutou membros da nobreza menor a seu serviço. Henrique também criou o Tribunal de Pedidos, onde os pobres poderiam processar sem o pagamento de taxas, e receberem assistência jurídica gratuita. Os estatutos foram aprovados para proteger os pobres contra a injustiça e penalizar os júris desonestos.

(c) Bristol Museum and Art Gallery; Supplied by The Public Catalogue FoundationEm novembro de 1487, foi criada a Câmara Estrela (Star Chamber), um tribunal de apelações para aqueles que não foram capazes de obter justiça nos tribunais controlados pelos nobres. Essa câmara permitiu que os membros do Conselho do rei constituíssem em um tribunal e realizassem sessões judiciais. A Câmara Estrela normalmente consistia de sete a oito bispos, juntamente com vários conselheiros. Praticamente um a cada trezentos processos julgados durante o reinado de Henrique foi iniciado por ação privada e não por processos do governo. A queixa mais frequente dirigida ao Conselho é que os réus tinham forçado o autor a sair de sua casa ou terreno. As sentenças eram notavelmente humanas. Este tribunal acabou por se degenerar em uma arma de crueldade e foi abolido em 1641.

As reformas de Henrique VII tiveram o efeito de transformar o sistema judicial, antes dominado pelos caprichos da nobreza, em um sistema baseado no direito e compromisso com o bem-estar geral. No entanto, ao contrário dos Estados Unidos, a Inglaterra nunca teve uma constituição escrita. Ao invés disso, a constituição inglesa consiste em um grupo de leis, costumes e interpretações judiciais, que é frequentemente chamada de constituição não-escrita. Consequentemente, muitas das reformas introduzidas por Henrique foram revertidas pela oligarquia financeira veneziana, que ganhou controle sobre a Inglaterra durante os séculos seguintes.

Desenvolvimento econômico para o bem comum

Sob Henrique VII, a Inglaterra experimentou uma mudança fundamental do feudalismo a uma política de desenvolvimento do governo dirigido econômico,  baseados em projetos para promover o bem estar da população. A reforma do sistema econômico feita por Henrique, embora não completa, lançou as bases para transformar a Inglaterra em uma nação moderna. Ele se esforçou para aumentar a produtividade da população através de melhorias governamentais de infra-estrutura, tecnologia e dos padrões de vida.

A descrição das políticas de Henrique como um ‘sistema mercantilista’, não transmitem adequadamente o compromisso real para com as melhorias da condição vida dos homens comuns. A coroa trazia para si mesma mais e mais poder, mas esta grande expansão do controle central foi quase uniformemente beneficente, como era intencionada. O autor Gladys Temperley aponta que “Não podemos apontar a um único estatuto comercial de Henrique VIII que foi projetado para qualquer interesse egoísta do rei um de seus assessores’.

(c) Fulham Palace Art Collection; Supplied by The Public Catalogue FoundationHenrique fez do governo centralizado do estado o árbitro de todas as decisões de política econômica. Por exemplo, uma série de Atos foram passados para controlar as corporações de guildas em casos particulares. Ainda mais importante foi o passo dado em 1504, quando as guildas foram trazidas sobre o controle da corte por um Ato declarando que nenhuma guilda regulamentada poderia ser obrigatória até que tivesse sido aprovada pelo Chanceler, Tesoureiro, os juízes principais do da bancada do Rei e do apelo comum, ou seja, dos juízes.

A concepção moderna de corporação, onde um individuo legal, cuja existência foi criada e determinada pelo governo, foi desenvolvida durante o reinado de Henrique. A emissão de patentes para novas invenções – um estímulo para o avanço tecnológico – foi iniciado neste período.

Outro dos primeiros atos de Henrique foi a de separar as despesas da casa real das receitas do Estado. O fato de que os reis anteriores não tinham feito esta distinção refletem sua visão de que o reino era, na verdade, seu bem pessoal. Henrique foi o primeiro rei inglês em um século a ser solvente, algo que ele alcançou através de uma gestão cuidadosa e limitando os gastos perdulários. Os reis da França e do Sacro Imperador Romano, Carlos V, tinham uma renda 10 vezes maior, mas desperdiçaram seu dinheiro em guerras dispendiosas.

Durante o seu reinado, Henrique VII implementou uma série de medidas de política monetária. A cunhagem foi emitida para segurar uma moeda padrão, e pesos e medidas foram padronizadas. Henrique também acumulou um tesouro de grande porte, fortalecendo-o contra rebeliões e invasões, já que os adversários potenciais sabiam que não teriam meios financeiros para se defender. Por uma lei de 1487, Henrique proibiu a usura.

O governo nacional também revogou a si mesmo o direito de controlar os preços e regular os salários. Não é exagero dizer que até o final de seu reinado, Henrique VII influenciou a vida todos os seus súditos em todos os pontos. A idéia de que o governo central tinha o direito e a responsabilidade de regular a atividade econômica com a finalidade de promover o bem comum tornou-se firmemente enraizada como o princípio governante da nação.

Regulação do Comércio Exterior

(c) Jonathan Eden; Supplied by The Public Catalogue FoundationHenrique fez mandatos sobre o controle estatal do comércio exterior com o propósito de promover o desenvolvimento econômico nacional. Grande parte de suas legislação foi concebida num espírito de proteção consciente. O desenvolvimento da marinha e da marinha mercantil foram fundamentais para a segurança militar e econômica do reino. A frota mercantil complementaria a marinha real, assim como permitiria a Inglaterra controlar seu próprio comercio.

O estado anterior dos assuntos, herdados por Henrique em sua ascensão, pareciam quase sem esperança. A frota mercantil, assim como tudo o mais, tinha decaído, e os navios estrangeiros carregavam o comércio marítimo da Inglaterra. Além disso, o comércio foi severamente prejudicado pela insegurança das estradas e do mar, bem como pela guerra constante.

Um dos primeiros atos de Henrique para controlar o comércio exterior do país foi a aprovação da Lei de Navegação em 1489. O preâmbulo da Lei observava que a frota estava tão deteriorada que  a Inglaterra não tinha o poder e a capacidade de se defender. Esta lei temporária proibia a importação de vinho ou madeira, assim como navios irlandeses ou galeses tripulados por seus marinheiros. A lei foi renovada em 1490, durante o intervalo que Henrique tinha conseguido obter uma participação no transporte do vinho italiano. Esta lei determinava que nenhum navio estrangeiro poderia ser carregado em um porto inglês, enquanto os navios ingleses permaneciam vazios. Embora os atos de navegação podem ter dificultado o comércio exterior na Inglaterra no início, até o final do reinado de Henrique a frota mercantil inglesa estava florescendo. Os direitos aduaneiros aumentaram em 28%.

A Indústria de Pano

(c) Bristol Museum and Art Gallery; Supplied by The Public Catalogue FoundationA política central econômica de Henrique VII foi sua promoção as fabricas inglesas. Embora muitas de suas leis tenham sido a continuação das leis de Eduardo IV, a política de Henrique foi conscientemente motivada por um princípio claro, a partir do qual ele projetou um plano coerente. Seus esforços tiveram um sucesso considerável.

O mais proeminente desses esforços foi o tratamento de Henrique com o comércio de lã e da indústria de pano. Henrique colocou um imposto de importação – em alguns casos, tão alto quanto 70% – sobre a exportação de lã, para incentivar o desenvolvimento de uma indústria de tecidos nativa. Enquanto isso, o imposto sobre o pano exportado nunca foi superior a 9% de seu valor. Um estatuto de 1489-1490 deu aos alfaiates ingleses o direito de comprar lã antes que pudesse ser exportado.

Transformação da Indústria  de Ferro

O exército de Henrique relatou ter tido um número significativo de canhões na vitoriosa Batalha de Bosworth, uma ênfase sem dúvida, aprendida com os franceses, que as usaram contra os ingleses, devastando-os com eficácia no final da Guerra dos Cem Anos. Entre 1449-1450, os franceses haviam realizado cerca de 60 operações vitoriosas em um ano, usando poderoso canhões para explodir os ingleses fora das suas explorações francesas. A fabrica destes canhões foram possíveis graças aos avanços na indústria do ferro franceses, de tal forma que, no final do século XV, os canhões franceses tinham adquiriu uma alta reputação internacional, devido a sua qualidade esplêndida, a rapidez do disparo e o uso de balas de ferro ao invés de pedra.

(c) Palace of Westminster; Supplied by The Public Catalogue FoundationA produção do canhão de ferro foi possível graças ao desenvolvimento de grandes fornos que eram capazes de aquecer o ferro acima de seu ponto de fusão, de modo que o metal pudesse ser vertido em moldes (nos métodos anteriores, o ferro era aquecido antes do seu ponto de fusão, um processo muito menos eficiente). Este novo método aumentou a produtividade em 15x e tornou possível uma gama muito maior de produtos, representando um grande avanço na tecnologia, o que foi fundamental para a expansão industrial.

Henrique VII foi o primeiro rei inglês a fabricar canhões de ferros, baseados em suas construções dos primeiros fornos da Inglaterra. Ao fazer isso, ele revolucionou a indústria de ferro inglesa, estabelecendo a base da economia inglesa nos séculos seguintes. O primeiro grande forno foi criado por Henrique em 1496 nas terras reais, destinado a fabricação de balas de canhão, como parte dos preparativos para defender a Inglaterra das invasões escocesas. Pouco tempo depois, os canhões de ferro fundido foram produzidos.

Henrique também aumentou o número de atiradores a serviço do rei. Eles contaram 30 em 1489, e em 1497 havia pelo menos 49 apenas somente na Torre de Londres. Muitos eram cidadãos estrangeiros, principalmente franceses. Estes atiradores não apenas disparavam os canhões, mas também eram experts em atirar e fundição de armas. Apesar dos canhões de Henrique tenham sido produzidos para defender a nação dos invasores estrangeiros, a existência de tal arsenal era capaz de reduzir qualquer castelo a escombros, servia como uma poderosa ameaça para a nobreza briguenta da Inglaterra feudal.

Criação da Marinha

'Henry Grace à Dieu', por artista anônimo em 1575.Henrique VII criou um exército nacional, centralizado o controle sobre os militares e acabando com o poder da nobreza de fazer guerra. O desenvolvimento da marinha teve uma importância central.

Quando Henrique subiu ao trono, havia apenas quatro navios de propriedade da Coroa, e os piratas percorriam os canais desmarcados. Henrique construiu três grandes navios de guerra, que se tornariam o núcleo da Marinha. O ‘Harry Grace a Dieu’ era um navio de mil toneladas, com quatro mastros, 40 armas e um tripulação de 700 homens. Muitas das armas foram fabricadas na Inglaterra. O governo também subsidiou a construção de navios mercantes, sobre um acordo que esses navios poderiam ser alugados para a marinha durante tempos de crises.

A cidade de Portsmouth foi desenvolvida como uma estação fortificante naval, capaz de atender as necessidades de uma marinha permanente. Sob Henrique VII, o primeiro dique seco nas Ilhas Britânicas também foi construído em Portsmouth, e estava pronto para uso em maio de 1496.

O centro do sucesso a longo prazo dos programas de Henrique VII foram o aumento da marinha mercante, encorajados pelos atos de navegação, pois  o aumento do comércio exterior exigia a manutenção de uma forte marinha.

Política Externa para a Paz

''Henrique VII''Henrique VII teve grande interesse em assuntos externos. Em 1497, o Embaixador Milanes informou que Henrique era tão bem informado sobre os acontecimentos na Itália ‘que nada que eu lhe disse era novo’. Mesmo os cortesãos sabiam muito sobre os assuntos italianos, e o embaixador disse que parecia estar em Roma.

Só uma vez Henrique lutou em uma guerra em solo estrangeiro: quando ele procurou conter as ambições de Carlos VII da França, que representava uma ameaça para a Inglaterra. No entanto, Henrique  assinou o Tratado de Etaples com Carlos em 1492, na qual ele declinava as reivindicações inglesas ao trono francês. Nunca mais Henrique foi à guerra fora da Inglaterra, e sua política sempre foi a de promover a paz entre as  outras nações da Europa. Isto foi um grande benefício para a Inglaterra, pois a nação podia se concentrar em seu desenvolvimento econômico, enquanto os governantes da França, Espanha e outras nações desperdiçavam enormes recursos em guerra, o que rapidamente os enfraqueciam.

Traduzido do artigo 'Henry VII's Reign'.
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7 comentários sobre “O Reinado de Henrique VII

  1. Eu li um livro sobre as bases da construção do Império Britânico, que cita várias vezes a obras de Henrique VIII, mas não me lembro de menções tão grandes a Henrique VII. Pelo texto acima, a visão deste último foi que abriu as condições para que a Inglaterra se torna-se a maior potência até meados do século XX.

    • Que livro era esse? Realmente, praticamente ninguém cita Henrique VII, apesar das grandes mudanças que ele fez na Inglaterra.

  2. Podemos o comparar com Henrique Plantageneta, pois ambos fizeram profundas reformas na Inglaterra, iniciaram poderosas dinastias e colocaram fim em um guerra civil – o primeiro, A Anarquia e o segundo, a Guerra das Rosas.

  3. os incríveis feitos de Henrique VII são normalmente eclipsados pelas polêmicas do reinado de seu filho. É uma pena que um rei que conquistou a coroa no campo de batalha, com tanta história, seja raramente sitado.

  4. Ele foi um grande político e rei. É uma pena que seja constantemente esquecido ou só lembrado como “aquele rei que era pão duro.”

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