A história de Agnes Bowker, a mulher que deu à luz a um gato

Em 1568, Agnes Bowker, de 27 anos, solteira e trabalhando de empregada, encontrou-se em uma situação muito comum, mas difícil: ela estava grávida. Quando sua condição ficou evidente, ela foi demitida e parece ter vagado pelos campos até dar à luz no dia 16 de Janeiro do ano seguinte, no mercado de Harborough, após um período de gestação de aparentemente 53 semanas.

Tudo isso é aparentemente comum, mas Agnes não deu à luz a um bebê como todas as mulheres. Ela deu à luz ao que chamou de um ‘monstro’, que mais tarde os médicos viram como um gato.  Quando questionada, Agnes disse que havia sido abordada ‘por algo parecido com um urso, ás vezes como um cachorro, às vezes como um homem e [essa coisa] tinha o conhecimento carnal de seu corpo em todas essas formas’. Bowker mais tarde afirmou que essa coisa também veio a ela ‘na forma de um gato preto’ e novamente ‘conheceu seu corpo’.

As mulheres que cuidaram dela no parto no início fugiram, aterrorizadas, mas depois duvidaram que o gato realmente tivesse saído de Agnes. Estaria a parteira junto de Agnes, enganando todo mundo? Um grupo de homens locais, muito práticos, examinaram e estriparam o “bebê”, e encontraram um pedaço de bacon em sua garganta, que fez a maioria dos homens achar que aquilo era uma piada. No entanto, por causa da estranheza do caso, eles decidiram relatar o caso às autoridades.

Um oficial da igreja, Anthony Anderson, questionou Agnes e seus vizinhos. Embora ele não pudesse examinar todos os detalhes da história dela, ele investigou o “bebê” cuidadosamente. Contos selvagens do gato monstruoso ficaram populares rapidamente e já tinham sido impressos, mas Anderson se esforçou para acabar com os rumores. Para ele, nos depoimentos de Agnes ficava claro que ela tinha um amante humano. Parecia que Agnes tivera um filho que ela ou mandou para longe ou enterrou no campo; mas ela criou esta história de gato a fim de tentar esconder a verdade e, possivelmente, fechou um acordo com a parteira local.

Agnes estavam delirando? Ou estava só mentindo? Ela pode ter sido uma coisa ou outra, mas no século 16, as pessoas não tiveram tanta certeza. Uma mulher que desse à luz a um gato certamente não era normal, mas não se pensava que fosse impossível. Poderia ser obra de feitiçaria, ou uma mostra da ira de Deus. Na época, homens educados e meninas analfabetas consideravam a magia – boa e má – muito real. Nascimentos monstruosos, amuletos da sorte e atos maliciosos de magia eram creditados e com sentido sobrenatural. Assim, como os contemporâneos interpretaram o perturbador conto de Agnes? Provavelmente a primeira coisa que suporíamos é que a sua relação diabólica com animais levaria a uma acusação de bruxaria. Mas surpreendentemente isso não aconteceu.

A história acabou captando as atenções do Conselho Privado da Rainha Elizabeth e do Bispo de Londres. David Cressy, autor do livro ‘Agnes Bowker’s Cat – Travesties and Transgressions in Tudor and Stuart England’ aponta que ‘pouco importava…se Agnes deu à luz a um bastardo ou uma besta, ou se ela matou o seu bebê, mas tornou-se uma questão de interesse público quando pessoas viram ameaçadas por um presságio nessa aparente violação da natureza, e quando católicos crédulos ganharam terreno, explorando essa duvidosa história’. O uso político do bebê foi muito inesperado. O nascimento mostrou que algo estava errado na nação, e que Deus estava mandando um sinal.

Um Conde local fez seu próprio experimento, matando e esfolando um gato e comparando com a criatura que supostamente tinha saído do útero de Agnes. Ele escreveu os resultados, completados com um desenho presumido do monstro, e mandou o pacote para o Bispo de Londres. Após duas semanas, o Bispo respondeu em poucas palavras que ele não acreditava que Agnes tinha dado à luz a um gato, e que ele não via nenhum motivo para continuar torturando a ela as mulheres que a ajudaram no parto com perguntas para chegar à verdade.

É difícil não concluir que Agnes Bowker e sua parteira estavam de história combinada para mascarar um assassinato. Mas se foi isso, porque seus vizinhos as deixaram sem uma única acusação? Em qualquer outra cidade – ou década – a história de Agnes facilmente a teria levado a acusação de bruxaria. Mas nesta comunidade os cidadãos pareciam relutantes em perturbar a paz. Na Era Tudor, muitas pessoas foram executadas por menos do que isso, e, em seu próprio modo, Agnes Bowker foi uma mulher muito sortuda. Por pouco tempo ela segurou a atenção do país. Quando seu papel acabou, ela saiu do palco e ninguém nunca mais ouviu falar dela.

Bibliografia:
BENNETT, Natalie. ‘Not for cat-lovers‘. Acesso em 18 de Janeiro de 2014.
FUDGE, Erica. ‘Renaissance Beasts: Of Animals, Humans, and Other Wonderful Creatures‘. Acesso em 18 de Janeiro de 2014.
ULRICH, Laurel Thatcher. ‘Well-Behaved Women Seldom Make History‘. Acesso em 18 de Janeiro de 2014.
PATTERSON, Cathy. ‘No. 2081: A monstrosity and a Skeptic‘. Acesso em 18 de Janeiro de 2014.
Agnes Bowker’s Cat: Childbirth, Seduction, Bestiality, and Lies‘. Acesso em 18 de Janeiro de 2014.
Agnes Bowker’s Cat – Travesties and Transgressions in Tudor and Stuart England‘. Acesso em 18 de Janeiro de 2014.

Anúncios

Um comentário sobre “A história de Agnes Bowker, a mulher que deu à luz a um gato

  1. Não sei o que é mais incrível nessa história, a repercussão de uma “estória da carochinha” ou essa Agnes não ter sido acusada de bruxaria.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s