A Dinastia Tudor e o Zoológico Real

Erica Sturla, "The Menagerie in the Tower".Um cronista chamado William de Malmesbury, escreveu por volta de 1130 que o rei Henrique I “gostava muito das maravilhas dos países distantes, pedindo-os com grande prazer, como já observado, para os reis distantes, leões, leopardos, linces ou camelos – animais que a Inglaterra não produz. Ele tinha um parque chamado Woodstock que usava para colocar seus animais favoritos”. Infelizmente, o zoológico do rei não existe mais, pois foi destruído para que o Duque de Marlborough construísse sua mansão no século 18. Henrique não tinha elefantes, girafas ou outros animais grandes, mas em 110 o rei ganhou uma criatura chamada “porco-espinho”, que lhe foi enviada pelo cronista. Coberto de pêlos eriçados, a criatura lançava “dardos” contra os cães que o perseguiam.  O zoológico real de Henrique I mais tarde mudou-se para a Torre de Londres, onde permaneceria durante toda a Dinastia Tudor.

Embora o primeiro rei Tudor, Henrique VII, tivesse uma reputação de sovina, ele deu a Elizabeth de York, sua esposa, um leão que custou   £2.13s.4d. (por volta de R$5 mil reais), sem dúvida levado direto para o zoológico real da Torre.  Além disso, ele era generoso com os animais da Torre: existem registros de pagamento do rei a homens para cuidar das leoas, leões e leopardos que estavam na Torre, com o pagamento de doze pence por dia; além disso, o rei comprou um custoso leopardo por £13 6s 8d (pouco mais de R$30 mil reais).

Um elefante bordado por Bess de Hardiwck e Maria, Rainha da Escócia.O elefante era um animal muito popular na época. Ele deveria ter parecido tão misterioso quanto qualquer outra das criatura míticas medievais – como os dragões, unicórnios, sereias e ciclopes. Mas, estranhamente, ao contrário de muitos animais exóticos ou lendários, o elefante nunca foi adotado como um símbolo heráldico pela coroa ou qualquer família importante da Inglaterra. O animal era muitas vezes retratado como uma arma militar, ou associado com a Bíblia como “o maior animal na terra”. Talvez por causa dessas associações os elefantes eram presentes populares entre a realeza.

Henrique VIII ganhou um elefante e seus cuidadores, apesar de não se saber quem foi que o deu. Ele pode ter sido um dos poucos seres vivos a desobedecer seus desejos reais: em 1513, Thomas Horton escreveu que “existe um elefante, dado ao rei, mas ninguém consegue guiá-lo a não ser aqueles que vieram com ele”.

Elizabeth I também recebeu um elefante. Na verdade, o animal tinha sido dado para Henrique IV por um rei da Índia, mas quando descobriu quanto gasto o animal dava, o bondoso rei francês decidiu dar o elefante para Elizabeth.

Embora provavelmente não ficasse no zoológico, o macaco de estimação que a rainha Catarina de Aragão tinha era um símbolo de riqueza e poder, assim como um símbolo de piedade. Era dito que o animal lembrava sua terra natal, no sul da Espanha, que ela brincava com ele e o alimentava à mesa. Pelicano em um manuscrito medieval.Outro animal que Henrique VIII ganhou foi um pelicano, símbolo de Jesus, o Redentor. Certamente o rei se via nessa posição, na época como o Chefe da Igreja da Inglaterra. Um mito da época era que o pelicano perfurava o seu próprio peito com o bico a fim de alimentar seus filhotes famintos com seu próprio sangue – uma alegoria do sacrifício. Enquanto estava grávida, a rainha Ana se dizia muito incomodada com o barulho dos pelicanos, assim como os dos pavões. Os últimos foram doados; o pelicano foi movido para a parte de trás do castelo, longe do campo de visão e audição. Existem rumores que Henrique VIII havia ganho um crocodilo, no entanto, não existem fontes confiáveis que afirmem isso. Araras e papagaios também são citados em alguns livros.

Existem  vários registros das impressões que os visitantes tiveram quando viram o Zoológico real. Em 1544, Pedro de Gante escreveu que ele e seu mestre viram “quatro leões, muito grande e ferozes, dois leopardos, confinados dentro de trilhos de madeira”. Em 1548, Lupold von Wedel viu “leões, águia e um lince”. Em 1592, Frederick, Duque de Wurtemberg, escreveu “nesta Torre há pequenas casas separadas feitas de madeira, nas quais são mantidos seis leões e leõas… não muito longe dali, têm um lobo feio e magro, que é o único na Inglaterra, e por isso é mantido pela rainha”. leaoEm 1598, Paul Hentzner viu três leoas, um leão (“de grande tamanho chamado Eduardo”, por ter nascido no reinado de Eduardo VI), um tigre, um lince, um lobo, um porco-espinho e uma águia. Ele acrescentou: “todas essas criaturas são mantidas em um local remoto, presos com treliças de madeira, a custas da rainha”. Durante o reinado de Elizabeth I, o zoológico foi aberto ao público, e foi criada uma plataforma de observação para a rainha e seus amigos.

As espécies mais comuns nos zoológicos reais da Europa incluíam leões, ursos, leopardos, macacos, avestruzes e camelos, que vinham da Europa, do Oriente próximo e das Índias ocidentais. Os animais eram geralmente mantido em jaulas, às vezes perto de arenas (os ursos, principalmente, tinham esse destino) e às vezes em estruturas separadas nas terras da Coroa. Os zoológicos serviam para muitos propósitos, como símbolos de poder internacional, como entretenimento ou como objeto de estudos científicos. Os zoológicos existiam em quase todos os países europeus; a quantidade de animais geralmente dependia do sucesso do país no comércio internacional. A Itália, Veneza, Florença e Roma eram alguns dos locais que tinham grandes zoológicos. A França também tinha um grande zoológico, mas todos os animais foram mortos em 1583 quando o rei Henrique III sonhou que os animais o haviam atacado. Em 1664, o rei Luís XIV construiria na França o maior zoológico da Europa, em Versailles.

Bibliografia:
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APPLEBAUM, Wilbur (Ed.). Encyclopedia of the scientific revolution: from Copernicus to Newton. Routledge, 2000.
HUGHES, C. S. “Several Curious Monsters From A Medieval Menagerie“. Acesso em 18 de Setembro de 2014.
HUGHES, Olga. “Elizabeth of York and her Kings – Henry VII“. Acesso em 18 de Setembro de 2014.
STUART, Julia. “The polar bear who lived at the Tower… along with a grumpy lion and a baboon who threw cannon balls: Britain’s first (and most bizarre) zoo“. Acesso em 18 de Setembro de 2014.
Elephants and the royal menagerie….” Acesso em 18 de Setembro de 2014.
Henry VII – the man“. Acesso em 18 de Setembro de 2014.
Menagerie“. Acesso em 18 de Setembro de 2014.

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