Lady Shelton e a época em que Lady Maria serviu a Princesa Elizabeth

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Lady Shelton/Bolena era tia de Ana Bolena, e irmã mais velha de Thomas Howard. Apesar do parentesco, parece ter havido uma antipatia mútua entre as duas mulheres. Alguns especulam que foi porque Ana tinha incentivado a filha de Lady Shelton, Madge, a se tornar amante de Henrique VIII e deixá-lo longe de Jane Seymour. Apesar de sua fé para se inclinar para os reformadores, é possível que Lady Shelton desaprovasse a perturbação social que Ana fez ao suplantar a rainha Catarina de Aragão. Ou ela simplesmente poderia não gostar de sua sobrinha por motivos pessoais. Em todo caso, Ana diria mais tarde que “nunca amou” Lady Shelton.

Em 1533, depois que a princesa Elizabeth nasceu, Henrique decidiu acabar com o orgulho da teimosa princesa Maria, forçando-a a servir sua irmã. Ela não era exatamente uma dama de companhia, e nem uma criada – ela era, no final das contas, um membro de sua família, e outro motivo para mandá-la para a casa de sua meia-irmã foi para economizar as despesas por ter uma casa somente para ela. Apesar de não ser obrigada a servir Elizabeth, Maria tinha de pagar seus respeitos a recém-chegada, e era constantemente intimidade a reconhecer sua própria bastardia.  A governanta de Maria, Condessa Margaret Pole, foi demitida e Lady Shelton foi nomeada em seu lugar; seu marido, Sir John Shelton, foi colocado no comando da casa da Princesa Elizabeth.

Lady Shelton foi instruída a tratar mal Maria, para tentar induzí-la a admitir o casamento de seus pais era inválido e que ela era uma bastarda. Alguns historiadores afirmam que foi Ana que pediu isso, no entanto, Henrique era a autoridade final, e ele não era um homem de vontade fraca a ponto de deixar sua nova esposa maltratar sua filha, como alguns escritores sugerem.

A vontade de Maria era de ferro, e frustrou a todos. Ana Bolena escreveu cartas furiosas para Lady Shelton e, em ponto, ela mesma disse que, se não fosse filha do rei, expulsaria Maria de sua casa por causa de sua atitude. No entanto, na maior parte do tempo ela tentava tratá-la com respeito, como é  possível ver em alguns registros; como, por exemplo, uma vez em que o Duque de Northumberland irritou-se com Lady Shelton por causa do tratamento leniente que dava a Maria. Ela então respondeu que mesmo que Maria fosse a bastarda de um pobre cavalheiro, ela merecia um tratamento bom e honrado por causa de sua bondade e outras virtudes.

A saúde de Maria sempre foi precária e era propensa a doenças induzidas pelo estresse. Não foi muito tempo depois de se mudar para a casa de Elizabeth que ela adoeceu. Maria não podia comer na sala de jantar, pois seu prato era colocado junto dos outros empregados, e Elizabeth sentava-se no assento de honra como Princesa. Maria então levava seu prato para seu quarto, e Lady Shelton logo foi instruída a colocar um fim nisso e forçar Maria a comer em seu lugar resignado. Maria de fato foi, mas recusou-se a comer.

Embora pareça ridículo para nós que uma menina morresse de fome ao invés de comer um prato em que foi colocado em um locar inaceitável, para Maria esta era uma batalha mortal e séria sobre o seu futuro político e sua alma imortal. Aceitar um local inferior na casa era carregado com implicações reais. Se ela aceitasse, estava admitindo que Elizabeth tinha um status superior ao seu – ou seja, significava que o casamento de seus pais era inválido, que ela era ilegítima e que seu pai era o Chefe da Igreja e não o papa. Assim, ela estaria negando sua fé, colocando-a em um estado de pecado mortal.

Maria sobreviveu com seus poucos servos fiéis contrabandeando refeições ára ela. Incapaz de comer regularmente, cercada por pessoas hostis e sob enorme tensão, Maria ficou doente. Parte disso pode ter sido fingimento, pois enquanto estava de cama, não precisava pensar em cada movimento. No entanto, Maria tinha problemas médicos legítimos, sofrendo de enxaqueca, indigestão – provavelmente por causa da rica em gordura e açucarada dieta dos nobres Tudor, insônia, febre, depressão e problemas menstruais. O Doutor Butts, médico pessoal do rei, foi chamado para examinar Maria. Catarina de Aragão escreveu a Eustace Chapuys para que ele pedisse ao rei para que ela a visitasse e cuidasse dela. Com pouco de carinho Maria provavelmente teria melhorado, mas o rei não mudaria de idéia. Com rumores de que estavam tentando envenenar Maria, Lady Shelton tomaria cada vez mais cuidadosa em seu tratamento com a princesa.

Foi Lady Shelton que contou a Maria sobre a morte de sua mãe, em Janeiro de 1536. Após a morte de Catarina, a rainha Ana escreveu a Lady Shelton dizendo-lhe para desistir de forçar Mais a obedecer o rei na questão de seu casamento ou religião. Ela escreveu:”Não a vire-a para quaisquer cursos intencionais, porque ela não pode me fazer bem ou mal e faça seu dever para com ela, de acordo com as ordens do rei, como estou certa que você faz.’ A governante fez o possível para que Maria aceitasse a amizade da rainha.Como Chapuys escreveu, Lady Shelton disse a Maria que, se ela aceitasse a amizade com Ana, deixasse de lado sua obstinação e obedecesse seu pai, ela teria tudo o que quisesse, e nem mesmo precisaria segurar a calda do vestido de Ana quando fosse à corte. Além disso, Lady Shelton “não cessa suas lágrimas quentes” implorando que a princesa considerasse essas questões.

Embora as lágrimas possam ter sido de raiva e frustração, Lady Shelton parece ter realmente mantido respeito ou até mesmo carinho por Maria. Ela até mesmo concordou que Chapuys visitasse Maria, mesmo tendo recebido ordens que a proibiam expressamente de deixar que qualquer um que não tivesse uma nota ou símbolo do rei a visitasse. Maria, sempre obediente a seu pai, recusou-se a vê-lo, uma vez que ela não tinha permissão para tal.

Após a condenação de Ana Bolena, Lady Shelton foi enviada para ser uma das damas de companhia na Torre. Se Maria celebrou a queda de Ana e pensou que essa perseguição havia acabado, ela estava redondamente enganada, pois seu sofrimento só aumentou. O Duque de Norfolk visitou-a novamente, e gritou que se ela fosse a filha dele, ele esmagaria sua cabeça contra a parede até que seu crânio ficasse tão mole quanto uma maçã assada.

Mas logo o pior passou: Henrique casou-se com Jane Seymour, que tentaria mediar a paz entre pai e filha. Maria não aguentou mais, e finalmente assinou um documento em que aceitava que o casamento de seus pais era inválido, que ela era uma bastarda e que seu pai era Chefe da Igreja. Voltando ao favor real, Maria partiu para sua própria casa.

Lady Shelton e seu marido ainda comandavam a casa da Elizabeth, agora outra bastarda real. Ambos tiveram muitas queixas após a morte da mãe da criança, uma vez que os fundos para a manutenção da casa foram cortados. Seria em agosto de 1536 que a responsabilidades dos Shelton com Elizabeth acabaria, e eles voltariam para sua propriedade.

Maria n ão parece ter se ressentido de Lady Shelton, e durante seu reinado concedeu-lhe uma mansão, em que ela não precisava pagar o aluguel e uma pequena mesada. Talvez ela entendia como Lady Shelton estava dividida entre a emoção e o dever.

Bibliografia:
Lady Shelton. Acesso em 7 de Dezembro de 2014.
Where did Mary serve Princess Elizabeth. Acesso em 7 de Dezembro de 2014.
BARNHILL, Anne Clinard. “Lady Anne (Boleyn) Shelton“. Acesso em 23 de Junho de 2014.

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9 comentários sobre “Lady Shelton e a época em que Lady Maria serviu a Princesa Elizabeth

  1. me pergunto como as coisas teriam sido diferentes se o rei houvesse tratado suas filhas com carinho sempre, e não apenas quando era conveniente para os interesses dele.

    • Sem dúvida. Imagine só como seria se Maria tivesse se casado jovem! Acredito eu que muito de sua amargura vinha disso (casamento era uma das partes, se não a parte mais importante, da vida de uma mulher daquela época), e talvez ela não tivesse adotado políticas tão cruéis (ao meu ver) durante o seu reinado (isso se ela tivesse chegado a ser rainha, pois se tivesse casado com um estrangeiro, poderia ter mudado de país; ou ter morrido durante o parto, etc).

  2. eu não consigo acreditar no que esses produtores e escritores utilizem o estupro como algo “justificável’ ou para fins dramaticos tão pobres com tanta frequência, mas é assim infelizmente. Eu odeio, ODEIO essas representações, é pobre, rasa e injustificável. Bom artigo, eu odeio também essa “ficção” ou desculpa esfarrapada de que “não estávamos lá pra saber e poderia ter acontecido”, desde quando sem evidências se tornou fato?! arghhh, desculpe o desabafo.

  3. Haha, sem problema Jo! Entendi o seu comentário, que deveria ter sido publicado no artigo “O Estupro de Ana Bolena”. Infelizmente não posso mudá-lo, mas obrigada por socializar a sua opinião sobre o caso!

  4. Maria foi mais infeliz que a mãe….Não tem nenhum registro de como era a relação de Maria com Elizabeth Depois que elas cresceram?

    • Eu tenho um artigo sobrd isso, vou publicar em breve. Mas tudo indica que elas eram amigas até a ascensão de Eduardo :)

      • Mary era muito amoroso com Elizabeth quando ela era um bebê . Ela é conhecida por ter costurado roupas para o bebê e horas cantando para ela e que joga com seu passado . Era apenas uma vez Elizabeth cresceu e eles ficaram divididos pela religião e política que seu relacionamento azedou .

  5. Acho que Ana Bolena se sentia intimidada por Maria, tanto na beleza quanto no sangue real e queria de qualquer forma rebaixá – la

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