O estupro de Ana Bolena

Em um dos filmes mais recentes sobre Ana Bolena, ‘A Outra’, de 2008, mostra uma cena de estupro bastante preocupante entre Henrique VIII e Ana Bolena. Não há nada, historicamente, que sugere que Henrique jamais tenha sido violento com Ana. Inclusive, na minha opinião, esse tipo de ação violenta é altamente fora de sincronia com o comportamento conhecido de Henrique VIII – ele se via e tentava se comportar com um nobre, respeitoso com as mulheres e seguidor das regras do amor cortês. Christopher Haigh, professor de História na Christ Church College, em Oxford, disse que, além de nunca ter ouvido falar de qualquer estupro por parte de Henrique VIII, também concorda que esta ação seria muito diferente do personagem de Henrique VIII. ‘Eu sei que ele tratou algumas de suas esposas muito mal, mas ele ainda obedecia à moda antiga de conduta cortês esperada dos homens daquele tempo.’  De acordo com Derek Wilson, historiador especializado no reinado de Henrique VIII,

‘Esse estupro aparentemente nunca aconteceu. Isso vai contra tudo o que sabemos sobre seu relacionamento e sobre o caráter de Henrique. Embora ele seja conhecido como um tirânico quando velho, quando jovem o rei era extremamente cortês e espirituoso, e ele respeitava as convenções de seu tempo. Incluir esta cena é apenas desnecessária, uma vez que a história original de Henrique VIII e suas seis esposa já é sensacional. Certamente este foi um movimento por parte dos produtores para obter mais espectadores – mas por que eles não percebem que uma história verdadeira como esta não precisa deste tipo de tratamento?’.

A virgindade de Ana foi a recompensa de anos de espera, e é altamente improvável que ele a tomaria desta forma tão violenta. No entanto, temos essa cena, em uma ficção histórica, e não pela primeira vez. Por quê?

Nos últimos anos, Ana recebeu um tratamento muito mais simpático dos historiadores do que de seus contemporâneos. Os historiadores modernos estão geralmente de acordo de que o rótulo de ‘grande prostituta’ era imerecido. Biografias recentes afastaram a idéia de uma mulher calculista, usando seu corpo para ‘prender’ o rei que foca em sua inteligência, perspicácia e ambição. Aqueles que a rodeavam admitiam, por vezes a contragosto, que o que faltava em beleza ela compensava em personalidade. George Wyatt elogiou seus talentos musicais, sua dança graciosa, sua educação e o modo que ela se conduzia em geral. Ana Bolena era, em essência, uma cortesã perfeita e, como tal, tornou-se uma das mulheres mais populares na corte.

No entanto, apesar do desejo moderno de considerar Ana uma mulher inteligente e brilhante, não podemos ignorar o fato de seu apelo sexual. Apesar de sua aparência morena não ser tão bela quanto as pálidas e loiras que os ingleses preferiam, não podemos negar que havia algo obviamente atraente nela. Apesar de sua inteligência e conhecimento ao manter o interesse do rei, isto deve ter se associado com algum tipo de atratividade física, fosse sua virgindade, sua sensualidade ou apenas sua alto-confiança. Ela não teria chamado a atenção do rei simplesmente por lhe indicar livros.

Nicholas Sanders, no século XVI, escreveu que Ana Bolena foi estuprada por um dos empregados de seu pai, em Hever, quando tinha sete anos. Embora seja muito curioso que o boato seja muito específico quanto à idade, localização e identidade do agressor, nunca houve nenhuma prova concreta, mesmo no meio de muita especulação desenfreada, que Ana nunca teve contato íntimo com ninguém, com exceção de seu marido. Sua fertilidade óbvia não teria permitido muito sexo ilícito antes de um casamento, deixando a teoria do abuso sexual como explicação para sua virgindade perdida. Apenas Alison Weir menciona esse rumor, descartando-o como falso e afirmando que Sanders foi o responsável por ‘algumas das selvagens imprecisões que ganharam circulação sobre Ana Bolena’, incluindo esta.

Apesar de seu fascínio sexual, temos todas as razões para acreditar que Ana era de fato virgem quando se casou com Henrique ou, pelo menos, quando dormiu com ele. Apesar da Corte estar cheia de insinuações, Eric Ives confirma que a tradição do amor cortês, apesar dos aspectos inerentemente sexuais, não teria envolvido (como regra geral, pelo menos) qualquer atividade sexual. Era, afinal, um lugar onde potenciais parceiros se conheciam uns aos outros sob as sanções da tradição cavalheiresca. Enquanto Ana certamente teve seu quinhão de pretendentes e rumores sobre um noivado com Henrique Percy, David Starkey descarta a ideia de que eles poderiam ter dormido juntos, alegando que Ana não teria jogando fora sua reputação por um marido em ‘potencial’.

Como, então, mudaram a imagem da virgem Ana para a vítima de estupro? Este não é, naturalmente, um tema comum, há poucos casos em que Ana foi retratada com violência, sexual ou não, embora uma imagem publicitária para a segunda temporada de ‘The Tudors’ tenha chamado muita atenção negativa: muitos descreveram a imagem como sugestiva de estrangulamento de conjugue, assim como também foi concebida como ‘um precursor da decapitação de Ana Bolena’. A violência na imagem é explícita: Henrique, retratado por John Rhys Meyers está com uma das mãos em seu abdômen e outra descendo pelo seu abdômen, ou seja, é uma imagem com fortes sugestões de estupro. A taça derramando vinho, embora tenha sido sugerido que pudesse aludir sua decapitação, muitos consideraram como o derramamento do sangue vaginal.

A primeira vez que a personagem de Ana Bolena foi estuprada por Henrique VIII foi no filme de 2003, ‘Henry VIII’. Mas poucos se lembraram de que isso já havia sido mencionado quase 40 anos antes: no filme ‘Ana dos Mil Dias’, em 1969, logo após ser coroada, Henrique carrega Ana até a cama e ela exclama: ”Vai violar uma mulher grávida?”, no que Henrique responde, atordoado: ‘Oh, Nan. Deus, perdoe-me’. Ana começa a rir, chama-o de ‘tolo real’ o puxa para si: essa cena não faz parte da história principal e logo é esquecida. ‘Henry VIII’ e ‘A Outra’ têm maiores semelhanças no roteiro, até porque estes foram escritos pelo mesmo homem. No entanto, a cena do estupro é usada para efeitos muito diferentes nos dois casos, e em diferentes momentos. Em ‘Henry VIII’ a cena é usada para demonstrar uma ruptura irreparável em seu relacionamento; Henrique a estupra ao invés de continuar uma discussão e ambos já estão casados a algum tempo. Como Ana é tradicionalmente representada como uma mulher voluntariosa e ardente, o estupro pode ser visto como Henrique deixando claro que não está disposto a aturar seu comportamento, preferindo uma esposa submissa. Depois de deixá-la, vemos que Henrique está decepcionado consigo mesmo, tentando entender o que aconteceu a ambos como casal.

Helena Bonham Carter, que interpretou Ana Bolena em ‘Henry VIII’, admitiu que a cena foi difícil de filmar, ‘muito desagradável’ e que chocaria os espectadores. Um porta-voz do canal onde ‘Henry VIII’ foi exibido disse:

‘Nós usamos a cena do estupro para ilustrar a rápida deterioração no relacionamento de Henrique com Ana, um meio para um enfatizar o quão furioso e sádico Henrique poderia ser. Dizer que é factualmente incorreto é impossível, pois ninguém poderia saber o que aconteceu em portas fechadas no casamento de Henrique e Ana. Todas as fontes históricas concordam que a relação entre Henrique e Ana se deteriorou a tal ponto que tornaram-se explosivos e antagônicos, cujo resultado poderia ter sido o estupro’.

A cena em ‘Henry VIII’ é completamente diferentes das outras representações ficcionais. No romance ‘The Reincarnation of Anne Boleyn (escrito por Nell Gavin, sem previsão de publicação no Brasil), Henrique a estupra porque não consegue pensar nela com outro homem. Seguindo uma temática semelhante, em ‘A Outra’ Henrique estupra Ana simplesmente porque não consegue mais conter-se de esperar o casamento. Em uma discussão, Henrique grita que rompeu com a Igreja, enviou Catarina, ‘uma boa mulher’ para longe e virou o país de cabeça para baixo para casar-se com ela, e portanto, ela deve consentir em dormir com ele. Quando se recusa, Henrique a toma para si de qualquer maneira. Em ambos os casos, Henrique a quer tanto que está disposto a estuprá-la. Uma descrição de um livro sobre Ana chamado ‘Brief Gaudy Hour’ (escrito por Margaret Campbell Barnes, sem previsão de publicação no Brasil), descreve seu corpo como ‘uma armadilha para qualquer homem’, e aqui temos uma confirmação na tela. Em ‘A Outra’, nos é dado a impressão de que Ana levou Henrique e a si mesma a isso por sempre provocá-lo, mas nunca aceitando seus avanços. Também é interessante que ambos os filmes mostram retratos contrastantes de Ana Bolena: Em 2003, Ana é mostrada como uma mulher articulada, independente, inteligente e, ocasionalmente, sentimental. Já em 2008, Ana é estridente, manipuladora, amoral, impiedosa e obcecada consigo mesma.

Mas talvez o que é mais preocupante é que Ana engravida e, como resultado do estupro, nasce Elizabeth. Até o final do filme Elizabeth é saudada como um dos maiores monarcas que a Inglaterra conheceu e esquecemos que sua mãe foi estuprada: com efeito, o estupro é plenamente justificado no filme, uma vez que Elizabeth foi o resultado e sua mãe era culpada por provocar Henrique.

De acordo com a escritora Jennifer Conner, o filme ‘A Outra’ escolheu o estupro como o veículo para a consumação do relacionamento de Henrique e Ana é porque este não lida com o comprimento de seu namoro: Henrique e Ana ‘namoraram’ por quase seis anos antes de se casarem e foi apenas poucos meses antes que tiveram seu primeiro contato sexual. No final do filme, quando Elizabeth e os filhos de Maria Bolena estão brincando, Elizabeth está muito próxima do tamanho e idade de Henrique Carey. ‘Uma vez que o filme eliminou o tempo e o esforço envolvido com a ruptura da Igreja Católica Romana, eles precisavam de um outro dispositivo para explicar a gravidez de Ana no momento de seu casamento e coroação’. ‘Henrique não era um santo, mas ele ainda merece um tratamento honesto’, conclui Jennifer.

Felizmente, o estupro de Ana Bolena é limitado na ficção e podemos esperar que assim permaneça. No momento, infelizmente, temos apenas pouco casos que retratam a cena como algo inevitável e Ana como culpada. O estupro é visto como o castigo por sua ambição e o troco que ela recebe ao colocar-se contra ao rei usando seu corpo como ‘armadilha’ para prendê-lo. Aparentemente, às vezes não é o suficiente que ela tenha pagado com a sua cabeça sua busca ao trono, mas ela também tem que ser estuprada durante a barganha – o preço que ela paga por tentar um homem.

Bibliografia:
CONNER, Jennifer. ‘The Rape of Anne Boleyn‘. Acesso em 03 de Novembro de 2013.
GAVIN, Nell. ‘Anne Boleyn and the Tudors: Miscellaneous Facts‘. Acesso em 03 de Novembro de 2013.
MCEWAN, Melissa. ‘Rape Is Normal: The Tudors Edition‘. Acesso em 03 de Novembro de 2013.
TV turns Henry VIII into a rapist‘. Acesso em 03 de Novembro de 2013.
The Rape of Anne Boleyn‘. Acesso em 03 de Novembro de 2013.

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19 comentários sobre “O estupro de Ana Bolena

  1. Se juntarmos o filme a outra e Elisabeth A era de Ouro, aprendemos mais de História do que na escola. Os dois são mravilhosos <3

    • Acho que isso depende muito dos seus professores de História, já que ambos os filmes possuem inúmeros erros históricos e não podem ser levados ao pé da letra (e nem levados a sério).

      • Mas por causa deles, muitos se interessam pelo assunto, indo procurar novas/verdadeiras/confirmar informações sobre. Eu mesmo aprendi mais com eles/sites da internet (como o seu) do que na escola. Até porque, no meu caso, a professora tentava ensinar o básico, já que nem o governo (com novos recursos) e nem os alunos a ajudavam. E história da Inglaterra/Ana Bolena/Era Tudor não são considerados básicos em escolas que seguem a mesma linha que a minha. Normalmente só fazem referências ao assunto e ”se você quiser saber sobre isso, pesquisa na internet. Eu posso até te ajudar, mas não posso dedicar uma aula sobre isso porque não está no programa” é isso que falam, e se a professora sai do programa, vem superior falar com ela. A culpa não é somente dos professores (eu sei que você não disse isso) mas é sempre bom lembrar

        • Sim, se vc for procurar gostar de História do jeito que a escola retrata (aquele modo bem tradicional)…vc NUNCA vai gostar de História…agora quem usa filmes e séries pra aprender…pode sim se interessar pra valer!

          • Eu entendo o ponto de vista de vocês, o problema é que quase nunca os professores que passam esse tipo de filme (os historicamente incorretos) explicam depois para os alunos o que é verdade e o que não é – na verdade, a grande maioria nem procura saber, apenas passando aquilo como se fosse verdade absoluta. Também acontece que os Tudor estão, sempre, nos livros didáticos, e todos professores “precisam” mencioná-los, mesmo que for Henrique VIII apenas pela Reforma e Elizabeth por causa do anglicanismo. Sem dúvida os professores não podem dar uma aula só de Tudor (muitos nem conseguem dar uma aula sobre um assunto básico, quem dirá um específico), mas esses dois tópicos sempre são mencionados, mesmo que só falados ‘por cima’.

  2. Não acredito que Ana tenha sido estuprada por Henry viii…porque eu acredito que eles foram felizes no começo do casamento…tanto que quando Elizabeth nasceu o rei disse que preferiria mendigar do que deixar Ana? (Acho que foi algo assim). Os problemas só vieram depois…
    O filme a outra é um romance e não um filme histórico.

    • Foi isso mesmo! Concordo com você. Mas eu acredito que mesmo depois que ele ficou desgostoso com ela que ele chegaria a esse extremo.

  3. Muito bom adoro esses relatos.É uma penas porque só ficamos imaginando e nunca saberemos a verdade ,O que torna ainda mas interessante.

  4. O filme ” A Outra” foi baseado num livro cuja a autora< Phillipa Gregory, ganhou doutorado devido á tese. Eu não li o livro e o filme pode muito bem não ter sido fiel ao que foi escrito. Também não acredito em estupro por parte do rei.

    • Ela pode ter ganhado um doutorado devido à uma tese, mas com certeza não foi “A Outra” (o livro foi publicado aqui sobre o título de “A Irmã de Ana Bolena”). É quase impossível dizer qual é mais infiel (se o livro ou o filme), e o livro e o filme tem diferenças (como por exemplo, o livro retrata Ana chegando da França, quando no filme ela foi “expulsa” para a corte francesa) , mas ambos são iguais ao tratar Maria como vítima e Ana como maquiavélica. De qualquer forma, não recomendo nenhum dos dois quando se trata de filmes historicamente corretos.

      • Obrigado pelo conselho, depois dessa acredito nunca lerei um livro dela e, pelo que encontrei na internet, são muitos.

  5. É a cena mais detestável do filme… Na verdade, o filme é um resumo de uma distorção! Eu gosto muito das atrizes que interpretaram as irmãs, a Natalie poderia ser uma Ana Bolena perfeita, se não fosse o roteiro!

      • As leis da época eram assim…várias pessoas foram condenadas a morte no reinado dele. De qualquer maneira na minha cabeça por mais que eu pense que ele nao a estuprou da forma como é descrita no texto, imagino que o sexo naquela época era “quase” um estupro, uma obrigação por parte da mulher, principalmente dentro do casamento.

    • Natalie Dormer? Acredito que não gostei dela por conta do roteiro e olhos azuis, mas acho que na adaptação certa e com um figurino Tudor condizente ela ficaria ótima.

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