O casamento de Catarina de Aragão e Artur Tudor foi consumado?

Wives of Henry VIII Part 1 - Catherine of Aragon

A razão pela qual esta questão profundamente pessoal tem sido debatida durante cinco séculos é porque o segundo marido de Catarina, Henrique VIII, baseava sua histórica missão de anulação de seu casamento com Catarina baseado na ‘legalidade’ de seu primeiro casamento. O rei não tinha nenhum filho para sucedê-lo, e depois de quase vinte anos de casamento ele disse a Catarina que havia quebrado a lei de Deus, casando-se com a viúva de seu irmão. O papa forneceu uma dispensa para o casamento de Henrique em 1509, mas mais tarde o rei alegou que foi errado fazê-lo, e procurava que o papa fizesse um julgamento e que o casamento fosse anulado, deixando Henrique livre para tomar uma nova esposa, e ter filhos.

Se um casamento não foi consumado, então não é juridicamente vinculativo. Em algumas religiões, isso é motivo para anulação, até mesmo hoje. E é isso que Catarina disse após quatro meses de casamento com Artur Tudor. Uma mulher extremamente piedosa jurou sobre o sacramento a um legado papal que isso nunca aconteceu. Catarina, aos 16 anos, casou-se com Artur em 14 de Novembro de 1501. Foi uma aliança diplomática, ligando a nova família Tudor à antiga família real espanhola de Isabel de Castela e Fernando de Aragão.

Após a cerimônia de casamento os noivos foram em procissão para sua cama nupcial. Preparar a cama real envolvia vários participantes, homenageados por tal atribuição. O casal foi colocado juntos na cama na noite de núpcias. Na época, os tribunais da Inglaterra e da Espanha assumiram que eles tiveram relações sexuais. O arauto diz: “E assim, essas pessoas dignas concluíram e consumaram o efeito e o complemento do sacramento do matrimônio.’ Foi decidido que, quando Artur retomasse sua residência em Ludlow, no País de Gales, Catarina iria acompanhá-lo.

Artur morreu logo, e depois que foi constatado que Catarina não estava grávida. Para manter e aliança e reter o grande dote de Catarina, Henrique VII fez planos para casar seu segundo filho com a viúva de seu primeiro filho. Dona Elvira, criada de Catarina, jurou que a princesa nunca teve relações com Artur. Caso um exame fosse feito e provasse que estava mentindo, Elvira nunca teria sido capaz de enfrentar a rainha Isabel ou até mesmo Henrique VII, ou voltar para a Espanha novamente. É difícil pensar em porque ela contaria uma mentira tão arriscada. A dispensa papal foi concedida. O rei Fernando escreveu em 1503: “É bem sabido na Inglaterra que a princesa ainda é virgem”.

Embora seja sempre dito que Artur era uma pessoa fraca e doente, o fato é que não existe nenhuma evidência contemporânea que apoie isso, e nunca houve qualquer menção de sua fragilidade, se é que ele teve alguma. Seria somente em 1531, quase trinta anos depois da morte de Artur, em um tribunal realizado na Espanha, que um atendente espanhol disse que ‘os membros [de Artur] eram tão fracos que ele nunca tinha visto um homem cujas pernas e outras partes de seu corpo fossem tão pequenos’; Francisca de Caceras, uma mulher responsável de vestir e despir a princesa, a quem ela gostava e confiava muito, “estava parecendo triste e contando a outras senhoras que nada tinha passado entre o príncipe Artur e ela, que surpreendeu a todos e fizeram rir dele’.

No entanto, o casamento era político, feito em um esforço para formar uma forte aliança entre Inglaterra e Espanha. Será o que rei Fernando realmente concordaria em casar sua filha com príncipe fraco e doente? Improvável, considerando que o noivado durou por toda a infância de Catarina e Artur. Também vale a pena mencionar que na maior parte do casamento de Artur e Catarina, eles viveram em Ludlow Castle – conhecido por ser escuro, isolado e frio, cheio de correntes de ar. Certamente não era o lugar apropriado para um príncipe doente.

Uma testemunha desconhecido registrou ter ouvido de um dos servos de Artur que, em 8 de Fevereiro de 1502, “ele tinha deitado com Lady Catarina, e nunca foi tão vigoroso de corpo e coragem até sua morte, na qual [ele] disse que foi porque ele se deitou com Lady Catarina’. Curiosamente, a doença de Artur foi descrita por um arauto como ‘a doença mais lamentável e triste que, com grande violência dolorosa tinha lutado e conduzido, em suas partes singulares e para dentro [por isso] tão cruel e fervoroso inimigo da natureza, a corrupção mortal, tinha absolutamente vencido e superado o sangue puro e amigável’. Muitos historiadores acreditam que a doença de Artur era tuberculose ou a doença do suor, no entanto, a frase ‘as partes singulares’ pode se referir a câncer testicular.

Muitos comentam que Catarina de Aragão, sendo tão devota e religiosa, nunca diria uma mentira tão grande. No entanto, as pessoas do século XVI viam as coisas um pouco mais diferente do que agora: os membros da realeza e os nobres se consideravam “destinados ao trono” por vontade de Deus, e fariam o que tivesse de ser feito para isso. Mesmo após ter sido expulsa da corte, Catarina se recusou a ser reconhecida com qualquer outro título que não fosse ‘Rainha da Inglaterra’; e quando os enviados do rei se referiam à ela com seu novo título, Princesa Viúva, ela corrigia-os dizendo que morreria como uma rainha legítima e ungida por Deus. Quando há questões de sua culpa por ter (ou não) mentido, há evidências de que perto de fim de seu último casamento ela havia começado a usar camisas de cabelo – uma forma de penitência pelos pecados da fé católica (essas camisas eram usadas por baixo de outras roupas, roçavam o corpo de forma dolorosa, lembrando de seus pecados e sua indignidade diante do perdão de Deus). Embora possam existir outros motivos pelos quais Catarina quisesse se punir, o fato de isso ser registrado em seus últimos anos na corte nos faz pensar se foi a época em que ela protestava veemente contra o rei, bispos e cardeais que seu casamento não tinha sido consumada, sendo esse o motivo de uma consciência culpada.

O próprio Artur, na manhã após sua noite de núpcias, disse a seus servos para buscar-lhe um copo de cerveja dizendo: ‘Pois esta noite estive no meio da Espanha!”. Mais tarde, o príncipe também disse abertamente: “Senhores, é um passatempo ter uma esposa”. Algumas pessoas veêm essas declarações como Artur estava tentando encobrir o fato de que não havia consumado seu casamento, dizendo mentiras e agindo excessivamente animador com sua nova esposa. No entanto, era e ainda é comum que homens se gabassem sobre suas novas esposas, a excitação de seu quarto.

No dia seguinte após as núpcias, Catarina passou o dia sozinha, recebendo apenas o mensageiro do rei que lhe entregou sinceras felicitações do soberano sobre a consumação do casamento. No dia seguinte, ela foi ver seu marido e sogro, agradecendo a Deus para que ‘desse louvável [casamento] seja velado à sua conclusão mais louvável [a obtenção de filhos]’. Obviamente, caso nada tivesse acontecido na noite anterior, Catarina poderia ter apenas seguido a maré, sabendo o que se esperava dela, sem pronunciar uma palavra do que havia realmente acontecido.

Sendo Artur um príncipe e Catarina uma princesa, ambos tinham obrigações com a coroa da Inglaterra – a procriação de um herdeiro para o trono. Artur era o futuro rei, de modo que um herdeiro era algo esperado por todos na corte, sendo ainda muito comum e desejável que uma noiva engravidasse rapidamente após seu casamento – isso provava que era fértil e que o casamento seria um sucesso. Com isso em mente, por que Artur e Catarina não teriam consumado seu casamento, quando seria considerado normal fazê-lo? Nenhum impedimento para o consumo foi registrado.

Bibliografia:
BILYEAU, Nancy. ‘Did Arthur, Prince of Wales, consummate his marriage to Catherine of Aragon?‘. Acesso em 21 de Maio de 2014.
TRACY, Stephanie. ‘Was Katherine of Aragon’s Marriage to Arthur Tudor Consummated?‘. Acesso em 21 de Maio de 2014.
Did they or didn’t they? The brief marriage of Katherine of Aragon and Arthur, Prince of Wales‘. Acesso em 21 de Maio de 2014.

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9 comentários sobre “O casamento de Catarina de Aragão e Artur Tudor foi consumado?

  1. Henry VII had his eye on the remaining portion of Catherine’s dowry, which was not yet due, and he was well aware that part of it comprised the plate and jewels she had brought with her from Spain, which were not for her personal use but to be given to the King when Ferdinand so directed. Henry, however, preferred hard cash. He conceived a plan where by Catherine would be forced to use the plate and jewels; then, when the time came, he could refuse to accept them, and could ask for their value in money. Arthur and Catherine established their household at Ludlow Castle. Arthur had been growing weaker since his wedding, and although Catherine was reluctant to follow him, she was ordered by Henry VII to join her husband. Prince Arthur, the King had decreed, would pay their salaries out of his own privy purse. King Ferdinand was informed by Pedro de Ayala, that Henry had given nothing to Arthur with which to furnish his house, nor any “table service”; this was a significant omission, for it meant that Catherine would be obliged to use her plate.

    http://onthetudortrail.com/Blog/2013/11/04/arthur-tudor-katherine-of-aragon-was-their-marriage-consummated/

  2. Maria, primeiramente parabens, o blog esta cada vez melhor. E segundo ate pesquisar da Mary Del Priore, o coito em si nunca aconteceu, Catarina continuou intacta ate a morte de Arthur. Mas nesse caso, nao sei se a Mary tem propriedade para falar.

    • Obrigada Marília! Então, essa é uma daquelas questões que ninguém pode saber nem afirmar. Eu, particularmente, concordo com Gregory nessa questão: acredito que o coito ocorreu sim, e ela escondeu isso por baixo de sua imagem religiosa e ‘correta’.

  3. Nao sou historiadora, só curiosa,mas os dois eram crianças,nao se conheciam ,sinceramente acredito que o casamento nao se consumou.

    • Não era em nenhum lugar pelo que eu saiba. Só tinha um costume de levar os noivos até o quarto e deixá-los de camisola. Depois, pela manhã, havia a visita matinal dos empregados, onde era visto e declarado se o casamento tinha ou não sido consumado (pelo avistar de um lençol com sangue :p ).

      • Já vi alguns filmes que mostravam dessa maneira, mas era França, ainda bem então q é coisa de filme hahaha

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