Teria Ana Bolena envenenado Catarina de Aragão e Maria Tudor?

Catarina e AnaDurante o divórcio do rei e o curto reinado de Ana Bolena, o Embaixador Chapuys esteve obcecado com a idéia de que Ana teria envenenado Catarina de Aragão ou a Princesa Maria. Isso certamente teria deixado as coisas muito mais fáceis para Ana e Henrique, mas nunca houve qualquer evidência de que houvesse alguma tentativa de assassinato de Catarina ou Maria. Chapuys relatou todos os rumores de que Ana havia se manifestado contra Catarina ou Maria e ameaçado suas vidas; esses rumores acharam um caminho até a narrativa do reinado de Ana. Alguns historiadores acreditam que Ana, pelo menos verbalmente ameaçou enveneá-las, e possivelmente tinha um plano para fazê-lo. Um de seus primeiros biógrafos, Paul Friedmann escreveu:

Havia uma chance de que Ana poderia ser capaz de fazer isso quando Henrique partiu; pois ela esperava que se ele fosse para a França, ela seria capaz de tomar a direção do governo durante sua ausência. Ela foi ouvida dizendo ao seu irmão que, quando o rei estava fora e ela fosse a regente, teria executado Maria por sua desobediência.

Rochford avisou da ira do rei caso ela tomasse um passo tão ousado sem o seu comando, mas Ana respondeu veemente que ela não se importava e e que ela faria mesmo que fosse queimada ou esfolada viva. Chapuis, que conta a história, pode ter exagerado um pouco, mas não pode haver dúvida de que seu registro é substancialmente verdadeiro.

Substancialmente verdade? Com que base? Chapuys credita o rumor de um “cavalheiro digno de confiança”. Parece que o embaixador tinha uma rede de informantes que lhe trazia todos os fragmentos de fofocas negativas sobre Ana, que ele fielmente retratava como fatos em seus despachos.

Mas se Ana realmente tinha a intenção de matar alguém, por que ela dizia isso em voz alta, em público, para que pudesse ser relatado para sua vítimas ou ao rei?  Em janeiro de 1531, Ana falou, na presença de toda a corte, que “gostaria de ver todos os espanhóis no fundo do mar”. Depois, Ana respondeu enfaticamente que “não se preocupava com a rainha ou sua família”. Em outra ocasião, em abril de 1533, quando Ana estava esperando um bebê e aguardava sua coroação, disse que tinha o desejo de colocar veneno na comida de Maria. Um ano depois, em junho de 1534 (quando Ana também estava esperando um bebê), Chapuys relatou horrorizado que Ana “dizia às pessoas e para toda a gente que, quando o rei sair da reunião com Francisco I e ela será regente, vai usar seu poder para matar a princesa Maria”. O historiador Eric Ives concluiu que essas ameaças eram apenas “o resultado da auto-defesa” e que não tinham o real desejo de prejudicar. É possível que ela tenha falado apenas “por impulso”, mas também é possível que ela tenha realmente planejado o envenenamento de Maria. A partir das fontes, fica claro que ela ameaçava as duas na corte repetidamente – isso é mais do que falar algumas vezes “por impulso”. O último registro de uma ameaça de Ana é do ano de 1535, quando ela contratou uma vidente que previu que ela não seria capaz de conceber um filho enquanto Catarina de Aragão ou Maria Tudor estivessem vivas.

maria tudor e catarina de aragãoHenrique acarinhava seus filhos como prova de sua fertilidade, e é por isso que ele enriquecia seu bastardo com títulos de nobreza (se ele tivesse outros filhos ilegítimos, ele sem dúvida teria tratado-os bem, o que coloca a idéia de que os filhos de Maria fossem deles em aguardo). Apesar de sua raiva sobre a Princesa Maria e seu exílio da corte, Henrique monitorava o seu bem-estar. Quando estava doente, ele enviava seus médicos pessoais para ver com ela estava, mas depois descartava a doença como um fingimento histérico. Mas se ela estivesse em perigo, ele teria feito tudo o que podia para salvá-la. Henrique não teria tolerado que Ana tentasse matar sua filha, não importa o quão zangado ele estivesse por sua rebeldia. Ele considerava Maria uma bastarda, mas ela ainda era filha de um rei – sua filha – e uma princesa espanhola de sangue real.

Embora Chapuys visse Ana como uma prostituta imoral, Ana era uma mulher profundamente religiosa. Á sua maneira, ela era tão intensa em sua fé como Catarina na dela. Ana dedicou o seu reinado a promover a religião reformada na Inglaterra, com obras de caridade e educação. Escritores às vezes (talvez intencionalmente) fazem vista grossa para a fé religiosa e fervorosa de Ana, mas esta é uma parte importante de sua personagem, e crucial para a nossa compreensão dela como uma figura história. Teria essa mulher envenenado seus inimigos quando acreditava que Deus estava elevando-a para a posição de rainha para reformar a Igreja da Inglaterra?

Mesmo que estivesse disposta, Ana teria dificuldades em envenenar ou colocar em perigo Catarina e Maria. Em certo ponto da sua vida, Catarina começou a colocar seus servos mais confiáveis para cozinhar sua comida por medo de envenenamento. Para envenená-las, então, Ana teria que encontrar um servo voluntário, próximo o suficiente de Ana para que ela pudesse confiar neles e permanecer leal a ela até sua morte, e ao mesmo tempo, que fosse altamente classificado para chegar perto da Catarina ou da Princesa, mas não imediatamente identificável como sendo próxima de Ana, para não causar suspeita ou ser impedida de ficar na sua presença. Este servo também teria que ter um conhecimento prático de venenos, saber onde obtê-los, como usá-los – isso não era um conhecimento comum, uma vez que venenos eram complicados na época; era necessário várias conjecturas sobre sua força e da dosagem necessária. Caso contrários, as vítimas consultariam um médico e os envenenadores correriam o risco de serem descobertos.

O envenenador teria então que trabalhar como criado de Catarina ou da Princesa para ter acesso aos seus alimentos. Envenenar um lote de refeições seria mais fácil, mas o veneno muito diluído poderia ser pouco eficaz. Mais uma vez, a dosagem era complicada, uma vez que era difícil testar o quão forte um lote particular poderia ser. A intoxicação de uma única pessoa poderia passar despercebida, especialmente se essa pessoa estivesse com problemas de saúde – como era o caso de Maria e Catarina – mas envenenar uma casa inteira era uma maneira óbvia de ser pego. Envenenar os alimentos teria sido difícil – apesar de nós considerarmos que os Tudors tinham um frouxo padrão de higiene, a comida dos nobres eram preparadas com muito cuidado. Teria sido difícil conseguir um momento a sós com a comida. Depois que saísse da cozinha, a comida estaria nas mãos de funcionários confiáveis, que servissem Catarina e Maria por amor e não por status. A tentativa de subornar um deles seria imprudente.

E para quê? Nesse ponto, Ana já havia “vencido”. Catarina não era mais uma ameaça para ela. De fato, como foi provado mais tarde, enquanto Catarina estava viva, Ana ficaria segura, e sua morte enfraqueceu substancialmente a posição de Ana.

Durante sua última enfermidade, Chapuys foi autorizado a visitar Catarina de Aragão. Ela parecia estar se recuperando, então ele partiu. O biógrafo Paul Friedmann conta a história, usando as palavras de Chapuys:

Os cavalos foram selados e as mulas carregadas, mas antes de montar no cavalo Chapuis teve uma conversa série com Lasco [o médico de Catarina]. Ele perguntou ao médico se tinha qualquer suspeita de veneno. Lasco balançou a cabeça e disse temer que algo do tipo, pois depois que a rainha tinha bebido uma determinada cerveja galesa ela não se sentia bem. “Deve ser”, acrescentou, “alguma droga lenta e habilmente composta, para eu não perceber os sintomas de veneno comum”.

Esse rumor de envenenamento por cerveja foi tratada com ceticismo pela romancista Hilary Mantell em seu livro “O livro de Henrique”:

— Dizem os boatos — responde Rafe gravemente — que o veneno penetrou em seu corpo por alguma cerveja forte de Gales. Uma bebida pela qual, ao que parece, ela tomou gosto nesses últimos meses.
Ele encara Rafe e bufa, com uma risada reprimida. A princesa viúva, bebericando cerveja galesa.
— De uma caneca de couro — diz Rafe. — E imagine Catarina batendo a caneca na mesa. E rugindo, “Encha de novo”.

O tema de envenenamento apareceu no processo de Ana Bolena. As peças processuais não estão completos – muitos deles desapareceram inexplicavelmente. No entanto, o embaixador Chapuys, embora não estivesse envolvido pessoalmente no processo, tinha informantes que foram testemunhas oculares. Um deles era Thomas Cromwell, o homem que fazia a vontade de Henrique VIII. Chapuys então informou que Ana foi acusada de “envenenar a rainha Catarina e planejar livrar-se da princesa Maria da mesma forma”. Esta acusação não significa necessariamente que Ana envenenou Catarina, mas que as vária ameaças de orte foram utilizadas. Curiosamente, a maioria dos historiadores rejeitam os relatórios de Chapuys sobre esse caso, porque eles mostram claramente que Ana era capaz de tais atos. No entanto, os relatórios de Chapuys sobre o processo de Ana coincidem com as alegações que sobrevivem até nossos dias, por isso não há razão para acusar Chapuys de má conduta ou de mentir.

Na minha opinião, no entanto, Ana não envenenou Catarina, que morreu de causas naturais. Depois que Catarina morreu, seus embalsamadores encontraram uma mancha preta em seu coração. Hoje, sabemos que pode ser uma evidência de câncer, mas no momento ele foi visto como uma marca de veneno. Ana, é claro, era a principal suspeita. No entanto, Ana não teria esperado tantos anos para acabar com suas rivais. Ela certamente teria sido capaz de fazer isso antes, durante o divórcio de Catarina e Henrique. No entanto, Ana fazia repetidamente ameaças em relação a Catarina e Maria, e todos sabiam que ela desejava que elas morressem. Henrique apenas usou o que ele havia ouvido, assim como as outras pessoas.

Last DaysAna não sobreviveu muito depois da morte de sua rival. Apenas algumas meses depois que Catarina foi sepultada, Ana foi presa e levada para a Torre. Depois da prisão de Ana, Henrique convocou Henrique Fitzroy e a Princesa Maria, chorou enquanto os abraçava e disse que deveriam louvar a Deus porque escaparam de serem envenenados por aquela “maldita prostituta”. Henrique, ao que parece, decidiu fazer eco aos rumores para mostrar Ana sob a pior luz possível no momento de sua queda. Mas como aconteceu com as acusações de adultério e incesto, não parece que Henrique sequer acreditava nele mesmo, porque nunca ouvidos sobre uma investigação sobre os criados que teriam que ter ajudado Ana em um envenenamento. Desse modo, Henrique acusou-a de adultério, incesto e traição; ela riu de suas composições, tirou sarro de suas roupas… Se houvesse qualquer coisa para apoiar os rumores de que Ana tivesse matado alguém, certamente Henrique teria usado em seu julgamento.

Bibliografia:
BRYAN, Lissa. Anne Boleyn: A Murderer?. Acesso em 27 de Agosto de 2014.
ZUPANEC, Sylwia S. “Morderstwo i otrucie – czy Anna Boleyn dopuściła się takich czynów?“. Acesso em 27 de Agosto de 2014.

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12 comentários sobre “Teria Ana Bolena envenenado Catarina de Aragão e Maria Tudor?

  1. Não sei, não. Ela não era a única interessada no trono, sabemos. Acho que pode ter sido a mando da família, porém, se isso não fosse uma suposição e sim um fato, acredito que ela sabia de tudo, o que a torna cumplice. Sem dúvida obtinha uma índole ambiciosa.

  2. Sim,foi cúmplice,com certeza,embora sempre vai ser minha admiração,em outros aspectos foi uma grande mulher,😄

  3. Ela falou isso mesmo? kkkkkkkkkkkkk gente, e eu achando que isso foi apenas na série! Polêmica!

  4. Ana era una mujer de ” lengua larga” yo sinceramente creo que lo dijo en un momento de enojo pero dudo que lo pensara de verdad al menos con Catalina de aragon , ella hubiera salido perdiendo , Catalina no solo aun tenia fieles a ella que la ayudaban a manadar cartas a su hija , ella sirvió como diplomata por un tiempo y tenia muchos contactos en el extranjero .

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