Margaret Skipwith de Ormsby: a última amante de Henrique VIII

A vida amorosa de Henrique VIII foi notoriamente complicada, embora, ao contrário da maioria de seus contemporâneos reais, ele tendia a se casar com mulheres que poderiam ter sido somente suas amantes. A morte de Jane Seymour em 1537 o deixou sem uma candidata imediata para uma quarta esposa. Por alguns breves meses em 1538, parecia que sua escolha tinha caído sobre a quase desconhecida Margaret Skipwith de Ormsby.

A primeira tentativa de sugerir Margaret como uma possível amante de Henrique VIII foi na década de 1980, mas nunca foi considerada detalhadamente antes, pois evidências diretas do caso de Margaret com Henrique VIII são escassas. Em uma carta de 3 de Janeiro de 1538 a seu empregador, Lorde Lisle, John Husee, que morava na Corte, comentou que:

‘A eleição jaz entre a Sra. Mary Shelton e Sra. Mary Skipwith. Rezo a Jesus para enviar uma para que possa ser para o conforto de Sua Majestade e da riqueza do reino. Aqui não duvido mas vosso senhor irá manter silêncio até que a questão seja certamente conhecida’.

Muriel St Clare Byrne, em seus comentários sobre as cartas de Lisle, sugere que o rei recentemente viúvo, que já estava à procura de uma quarta noiva, estava lançado olhares apreciativos para ambas as senhoras, querendo fazer uma delas ou sua amante ou sua esposa. Isto é muito provável. Mary Shelton, que foi referida na carta, era uma prima de Ana Bolena. Há alguma confusão sobre sua identidade, uma vez que ambas Margaret e Mary Shelton residiam na Corte e o nome Margaret, quando escrito abreviado, assemelha-se com Mary. ‘Madge’ Shelton, que é geralmente identificada como Margaret, já tinha preenchido o papel de amante real durante o casamento do rei com Ana Bolena. Pode ser que a Mary Shelton de Janeiro de 1538 era a irmã de Madge, ou, mais provavelmente, as duas mulheres podem ser a mesma pessoa. O interesse de Henrique VIII na Sra. Shelton em 1538 era muito conhecido, e o embaixador de Bruxelas que estava na corte comentou que Cristina da Dinamarca, que o rei queria se casar, era parecida com essa senhora inglesa.Cristina da Dinamarca, por artista desconhecido em 1533

Há alguma evidência de que era Sra. Skipwith, ao invés da Sra. Shelton, que conseguiu ganhar a afeição de Henrique VIII. Em sua carta, John Husee indentifica Mary Skipwith como o objeto de interesse do rei. Como os Sheltons, havia também duas irmãs Skipwith chamadas Mary e Margaret que poderiam ser uma das Skipwith. As irmãs eram filhas de Sir William Skipwith de Ormsby e sua segunda esposa, Alice Dymoke. Eles vinham de uma família da pequena nobreza de Lincholnshire.

A mulher em questão é geralmente identificada como Mary, mas seria isto correto? Em um estudo recente, foi alegado que era provável que tivesse sido Margaret e não Mary, pois Mary tinha se casado com George Fitzwilliam de Mablethorpe por volta de 1550, sugerindo que ela era jovem demais para ter sido considerada como uma potencial amante real ou noiva em 1538. No entanto, evidências sugerem que a data de 1550 está errada.

O marido de Mary, George Fitzwilliam, foi descrito como mais e trinta anos pela Inquisição Post Portem, feita por seu pai, John Fitzwilliam de Skidbrooke em agosto de 1547, o que sugere que ele nasceu por volta de 1517. Mary Skipwith teve quatro filhos e quatro filhas. Em seu testamento de 13 de Janeiro de 1560, George nomeia todos seus oito filhos, com seu filho mais velho, William, sendo descrito como tendo menos de vinte e um anos. Nenhuma das filhas eram então casadas, embora amais velha, Frances, estava comprometida, com os termo do pai de William implicando que o casamento era iminente, o que sugeria que ela estava com ou quase quatorze anos – a data de consentimento de casamento para meninas. Embora seja possível para Mary Skipwith ter oito filhos em dez anos de casamento, dada a provável idade de Frances em 1560 juntamente com a mortalidade infantil do século XVI, é a data de 1550 é improvável – é mais provável que eles tivessem se casado alguns anos mais cedo.

Esta constatação também pode ser vista a partir de evidências sobreviventes das gerações posteriores da família. O filho mais velho de Mary, William, foi pai de oito filhos com sua primeira esposa. Enquanto o caçula foi batizado em 15 de maio de 1566, uma filha mais velha, Hester, foi batizada em 15 de maio de 1566. Isso sugere uma data de nascimento de seu pai no início da metade da década de 1540. A filha de William, Maria, casou-se em 12 de Outubro de 1590, enquanto sua irmã Bridget pode ter casado no início de 1587. Supondo-se que ambas as mulheres casaram-se por volta de seus vinte anos, esta apontaria uma data de nascimento mais cedo para seu pai e, portanto, uma data anterior de casamento para seus pais. Portanto, é perfeitamente possível que Mary Skipwith tivesse idade suficiente para ser considerada como uma amante potencial para o rei em 1538. Os pais de Mary e Margaret casaram-se em torno de 1520 (após a morte da primeira esposa de seu pai), e ambas as irmãs deveriam ser jovens em 1538, mas eram velhas o suficiente para atrair a atenção do rei.

A razão comum para desconsiderar Mary Skipwith como a amante de Henrique VIII em 1538 é, portanto, incorreta. No entanto, ainda há fortes indícios de que a amante real era na verdade sua irmã, Margaret. Com exceção da carta de John Husee, não há nenhuma evidência que coloque as duas irmãs na Corte em 1538, mas Margaret esteve lá por pelo menos os primeiros meses do ano seguinte.

Margaret permaneceu como residente na Corte pelo restante do reinado de Henrique VIII. Em uma biografia do século XVI de seu segundo marido, Peter Carew, foi registrado que ele viu Margaret pela primeira vez após voltar para a Inglaterra de Calais, onde ele tinha sido mandado. Na época ela estava acompanhada com o seu marido, George Tailboys, para dar as boas-vindas a nova rainha, Ana de Cleves.

Margaret permaneceu na corte após a morte de seu primeiro marido, em setembro de 1540, o que sugere que ela poderia ter relações de longa data com a Corte e que sua presença lá não devido apenas à posição de seu marido.

Com todas as probabilidades, portanto, a referência a Mary Skipwith por John Husee na verdade refere-se a Margaret. Agora é necessário considerar a evidência se ela pode ser considerada uma das amantes de Henrique VIII.

Cópia de um retrato de Henrique VIII originalmente feito por Hans Holbein. Artista desconhecido.Para um rei do século XVI, Henrique VIII teve poucas amantes. As duas mais conhecidas, e de mais longa duração, foram Bessie Blount e Maria Bolena, no início de seu reinado. Bessie Blount é particularmente interessante se a compararmos com Margaret Skipwith, pois, quando o rei se cansou dela, ele arranjou um casamento com Gilbert Tailboys. Menos de vinte anos depois, Margaret de Skipwith foi casada com o filho de Elizabeth Blount, George Tailboys.

A evidência mais forte que Margaret Skipwith era amante de Henrique VIII encontra-se nos arranjos para seu primeiro casamento. O caso obviamente durou poucos meses, pois o rei tomou medidas para casar Margaret rapidamente, Em 17 de abril de 1539, Sir Thomas Heneage, o tio de Margaret, escreveu a Thomas Cromwell confirmando que o rei tinha dado seu consentimento ao compromisso feito entre Margaret e George, Lorde Tailboys, de dezesseis anos. Significativamente, o rei mandou Sir Thomas que casasse o casal o mais rápido possível, algo que sugere que ele estava ansioso para que tudo fosse concluído. Os arranjos foram feitos com algum sigilo, com John Husee informando seu mestre em 26 de abril de 1539 que ‘foi me mostrado que a senhora Skipwith irá casar-se com o Lorde Tailboys. Isso deve agradar seu senhor para manter segredo até que ouça mais’. A razão para este segredo, ou mesmo o interesse de Lorde Lisle na trama é pertinente, sobretudo porque no dia 15 de maio de 1539 Husee considerou importante informar Lady Lisle que ‘o Lorde Tailboys está casado’, sem mais comentários. A sugestão que Margaret, o amor mais recente do rei, era o centro das novidades.

St Clare Byrne especula que a referência a Margaret Skipwith como uma potencial interesse amoroso para Henrique, juntamente com o interesse do rei em seu casamento e o sigilo com que tudo foi conduzido ‘talvez justifique a suspeite de que o jovem George estava feliz em seguir obedientemente os passos de seu pai pelo amor de uma jovem esposa atrativa e a felicidade de ter sua própria herança aos dezesseis, ao invés de ter que esperar que ele saísse da tutela aos trinta e um anos’. Isso é altamente provável, como a evidência do casamento dos pais de George mostram.

Em 1517, as terras do pai de Gilbert Tailboys, George, foram colocados sob a custódio do Cardeal Wolsey e oito curadores testemunharam que George era um lunático. Gilbert, que tinha atingido a maioridade, não tinha posição na sociedade. Como seu pai não morreu, ele passou para a custódia do Cardeal e ao mesmo tempo foi agregado como membro da de sua casa. Ele estava, portanto, muito convenientemente localizado no início de 1522, quando o rei decidiu descartar Bessie Blount, uma mulher que lhe deu um filho e talvez, também, uma filha durante um caso que durou cerca de cinco anos. O preço de Gilbert era a liberdade, e com apenas alguns meses de casamento, ele foi capaz de agir longe da influência do Cardeal, em Lincolshire, construindo sua própria base de poder. Ele pode ter conseguido um lugar no Parlamento naquele ano. Ele certamente era um membro do Parlamento em 1529, o ano em que ele foi feito Barão Tailboys de Kyme.

Além disso, Gilbert e Bessie receberam doações de propriedades do rei, como a mansão de Rugby como um presente de casamento. Mais importante, eles tiveram acesso a herança de Gilbert, apesar de seu pai ainda estar vivo. Em 1523, Bessie recebeu o usufruto das terras Tailboys em Londres, Lincolnshire, Yorkshire e Somerset. A concessão enriqueceu Gilbert e Bessie à custa de seus pais, com o valor das terras de Gilbert subindo rapidamente durante os anos de 1520: de £66 para £343: um grande aumento ,considerando que seu pai estava muito vivo. Além disso, houve uma alegação de que Gilbert e seu pai ‘receberam não somente grande somas de dinheiro, mas também muitos benefícios para seu direito e conforto’. As negociações devem ser feitas entre Wolsey, o rei e Gilbert, a fim de assegurar o consentimento do jovem no casamento. Que essas doações eram somente para o benefício de Gilbert e Bessie são claras, vindos de cartas sobreviventes escritas pela mãe de Gilbert reclamando que o casal estava tentando pressionar ela e seu marido incapacitado para abandonarem mais terras, com a suspeita da senhora que sua nora estava fazendo uma petição com o rei na Corte. Bessie Blount foi bem recompensada por seu relacionamento com Henrique VIII.

Os motivos seguiram um padrão semelhante com a provável antecessora como amante do rei, Elizabeth Carew, que mais tarde escreveu que ‘tudo o que eu já tive na minha vida veio de sua graça, e eu acredito que sua graça não faltará comigo, mas tudo o que sua graça ou vossa senhora me indicarem, eu gostarei e ficarei contente’. As propriedades que Elizabeth Carew menciona em suas cartas depois da execução de seu marido, Sir Nicholas Carew, em 1539, foram arranjadas pelo padrasto do casal na época de seu casamento. Parece que era comum para o rei prever doações de bens de família para sua ex-amante e seu novo marido. Isso pode ser comparado no caso de Margaret Skipwith.

Logo após seus casamento com o filho de Bessie Blount, o futuro financeiro de Margaret foi salvaguardado por uma lei do Parlamento, que ditava que o rei estaria na posse das terras de George enquanto ele fosse menor de idade, e que tinha concedido sua tutela a Sir William Fitzwilliam, Conde de Southampton. De acordo com a lei, o rei, a pedido do conde, que era um parente de Margaret, em gratidão para com o ‘bom e fiel’ serviço prestado por Gilbert Tailboys. Como resultado da lei, George e Margaret ganharam o uso de um parte de suas mansões em Lincolnshire, bem como as terras de Tailbiys em Somerset. George, como seu pai, foi capaz de burlar as leis pelo casamento. Este ato do Parlamento, assim como a lei anterior feita para o benefício de Bessie Blount e de Elizabeth Carew sugerem que Margaret Skipwith, assim como sua sogra antes dela, recebeu um rico casamento como recompensa por um relacionamento íntimo com o rei.

Embora nenhum detalhe do caso real sobreviva, Margaret permaneceu no favor real, uma posição parecida com a de Bessie Blount, que mesmo após seu caso acabar continuou no favor real. No Ano Novo de 1541, Margaret era parte de um seleto número de senhoras que deram um presente ao rei, e sua empregada que deu o presente ganhou a mesma quantia que a empregada de Bessie ganhou após entregar um presente ao rei no ano de 1529. As listas de presentes dados pelo rei não sobrevivem, é altamente provável que ele retribuiu. Além disso, em 16 de Julho de 1543, Margaret ganhou a tutela de Charles Tottoft, o filho de um grande proprietário de terra de Lincolnshire, tendo a custódia das terras dele até que ele ficasse mais velho. Cartas do rei do ano de 1546 confirmam que eram aderaçadas a ‘Lady Talboys’.

Outra evidência de que Margaret Skipwith foi amante do rei pode ser encontrado no que diz respeito ao romance que Peter Carew teve com ela. Quando a viúva Bessie Blount foi cortejada por Lorde Leonard Grey em 1532, seu pretendente pediu a Thomas Cromwell que pedisse que o rei intervisse em seu nome. Ele também tomou medidas para apurar que o rei não estaria contente de ele propor casamento a Bessie. Uma abordagem muito semelhante foi seguida por Peter Carew, que por um tempo tentou cortejar Elizabeth.

Embora nenhum retrato de Margaret sobreviva, data a afeição de Carew para com ela e sua relação com o rei, ela deve ter sido atraente. Em uma carta escrita em 4 de agosto de 1539, Margaret, junto de uma série de outras damas da corte escreveram ao rei para agradecer-lhe por organizar uma viagem para todas para ver sua frota em Portsmouth. As senhoras asseguraram ao rei que, embora elas estivessem desapontadas que ele não estivesse presente, os navios eram ‘tão agradáveis de se ver que em nossa vida nunca vimos (com exceção na sua pessoa real, e meu Lorde o Príncipe, seu filho) uma visão mais agradável’. O rei fazia muitos eventos e dava para essas senhoras muitos presentes e convites que deviam ser muito disputados. O fato de que Margaret era uma das dez mulheres convidadas dão uma dica de sua relação com o rei. Quando a quarta esposa de Henrique, Ana de Cleves, chegou à Inglaterra no final de dezembro de 1539, Margaret era uma das senhoras que iria recebê-la.

As evidências sugerem fortemente que era de fato Margaret Skipwith a quem John Husee se referiu em sua carta em 1538 e que, nos meses que se seguiram, ela estava envolvida em um caso amoroso com o rei. Se os comentários de Husee são confiáveis, parece que o rei até mesmo pensou em fazer de Margaret sua noiva, como ele faria com outras quatro mulheres inglesas durante seu reinado. Se as circunstâncias tivessem sido diferentes, a quarta esposa de Henrique VIII poderia ter sido Margaret Skipwith ao invés de Ana de Cleves.

Artigo escrito por Elizabeth Norton.

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