A Rainha Viúva e a Última Vontade de Henrique VIII

Keith Michell como Henrique VIII e Rosalie Crutchley como Catarina Parr, na série 'The Six Wives of Henry VIII' em 1970.

Em 1544, ficou claro que a rainha Catarina Parr estava familiarizada com os termos do testamento do rei Henrique VIII para que ela fosse regente para o jovem príncipe Eduardo se o rei morresse enquanto estivesse guerreando na França. O fato de que Catarina teria sido nomeada regente no possível caso de morte do rei faz pensar qual era a última vontade dele quando morreu, em 28 de Janeiro de 1547. Durante três dias após a morte do rei, o conselho estava em reunião e o mundo lá fora não tinha conhecimento do que tinha acontecido. Mesmo os filhos de Henrique não foram informados.

Maria Tudor só seria informada da morte do rei muitos dias depois. O Conselho de Eduardo tomava precauções elaboradas para garantir que todos estivessem no lugar certo antes do anúncio oficial. Essa ação deixou Maria extremamente irritada, mas ela não podia fazer nada sobre isso. Embora fosse uma herdeira do trono, Maria ficaria agora com a rainha viúva, Catarina. Na época da morte de seu pai, Maria tinha 31 anos.

É bem possível que, durante esses três dias, os homens do conselho discutiram sobre como excluir a rainha viúva de qualquer poder ou influência sobre o menino-rei Eduardo. Essas teorias da conspiração foram examinadas na biografia da Susan James sobre a rainha Catarina. Uma teoria é que o testamento de Henrique foi originalmente criado para passar o reino para seu herdeiro e que o conselho de regência estava para ser liderado pelo Conde Hertford. Outra versão tem Sir Anthony Denny, Sir William Paget e Sir William Herbert (cunhado da Rainha) no comando para dar ao Conde o total controle; e outros vão tão longe a ponto de nominá-los os autores da queda de Gardiner a execução do Conde de Surrey. Esta teoria, claro, pode ser refutada pois o rei estava no controle de seu reino até as últimas horas de sua vida.

Embora as habilidades do rei tinham sido diminuídas, é verdade que Sir Anthony Denny e Sir William Paget tinham o controle que acessavam à câmara privada, mas não podiam contra a vontade do rei. Em dezembro de 1546, as reuniões do Conselho Privado não aconteciam em Westminster, e sim em Hertford e Somerset House. Então, se a rainha tinha sido convocada pelo rei em algum momento, a ordem teria sido obedecida, mas não é certeza que se a rainha tivesse exigido vê-lo que a ordem teria sido obedecida. Não é nem certo se o rei foi informado de que ela havia pedido para vê-lo.

Outra teoria para sustentar que a vontade foi adultera é o fato que a última versão do testamento não tem assinatura, mas que foi carimbada, mudada e registrada um mês depois. Antes de morrer, Henrique havia chamado Catarina e lhe disse:

‘É a vontade de Deus que nos separemos… e eu ordeno a todos os meus fidalgos que vos honrem e vos tratem como se eu fosse ainda vivo’.

(HACKETT, pág. 436)

No entanto, parece óbvio que os homens do Conselho não queriam depender da aprovação de uma mulher. As ações do rei e sua missão em produzir um herdeiro masculino ao invés de depender de sua única filha do primeiro casamento mostra que os homens ainda não estavam prontos para depender ou até mesmo aceitar uma mulher governante. A irmã de Henrique, Margaret, tinha atuado por um tempo como regente na Escócia, assim como a primeira esposa do rei, Catarina de Aragão, e sua última, Catarina Parr. Ainda assim, a idéia de ter uma mulher em uma posição de poder não foi aceita e, em alguns casos, as mulheres eram até mesmas expulsas ou presas para que não pudessem reinar.

Embora a rainha Catarina ainda fosse a primeira dama da Inglaterra, o cargo era puramente simbólico: ela não tinha outro papel qualquer no novo governo do país (…) embora sua posição e seu desempenho como regente em 1544 lhe dessem o direito de esperar sua inclusão’.

(FRASER, 2010, pág. 524)

Pensa-se também que, talvez, o senso de moral de Catarina pode ter sido o impedimento. As opiniões e interações da segunda esposa de Henrique, Ana Bolena, condenavam a forma com a qual as propriedades e o dinheiro da Coroa estavam sendo gastos. Catarina desaprovava completamente a gestão das terras e sua opinião foi registrada.

No entanto, apesar de tudo, o responsável pode de fato ter sido o próprio rei Henrique. A opinião do rei sobre a regência de mulheres – ele não acreditava que elas poderiam governar sozinhas. Uma coisa era usar Catarina como uma conselheira não-oficial, mas deixá-la reger um reino enquanto seu filho era menor de idade era uma coisa completamente diferente. Ele não queria uma esposa para lhe dizer o que fazer, por isso é compreensível que ele tenha afastado Catarina no final de sua vida. Ele obviamente não queria lidar com sugestões sobre como dispor a coroa.

O fato de que Henrique enviava suas mulheres para longe um mês antes de sua morte (delas ou dele) também pode ter influenciado suas decisões finais. Ao não tê-la por perto, ele não estaria propenso a lamentações e barulho feito pelas mulheres que poderiam ser incluídas na regência do reino após sua morte. Susan James afirma que a preferência de Catarina ao ficar perto de Henrique durante seu último mês foi devido, em parte, a suas motivações políticas – ela era muito protetora em relação a Maria, Elizabeth e Eduardo.

Nas primeiras horas do dia 28 de Janeiro, o rei Henrique VIII morreu. Durante três dias tudo continuou normalmente e, durante este tempo, o Conde de Hertford faria o Duque de Somerset nomear a si mesmo como Lorde Protetor do Reino – o que não era a vontade de Henrique. As portas que continham o poder e a regência foram fechadas para a Rainha Viúva, e mais uma vez Catarina ficou para lamentar a morte de um marido morto. Apesar do resultado, um pedaço de história pode fornecer a prova de que ela estava para ser (ou pretendia ser) chefe do Conselho Regente, pois pouco tempo depois da morte de Henrique Catarina assinou dois documentos como ‘Kateryn the Quene-Regent, KP’.

Bibliografia:
HACKETT, Fracis. ‘Henrique VIII’. Tradução de Carlos Domingues. Rio de Janeiro: Irmãos Pongetti Editores.
FRASER, Antonia. As Seis Mulheres de Henrique VIII. Tradução de Luiz Carlos do Nascimento e Silva – 2º Edição – Rio de Janeiro: BestBolso, 2010.
The Dowager Queen and Henry VIII’s Last Will‘. Acesso em 7 de Fevereiro de 2014.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s