Como as dama da corte de Henrique VIII se vestiam?

As roupas usadas durante o reinado de Henrique VIII e Eduardo VI foram bem diferentes das roupas do reinado de Henrique VII e Elizabeth I. Aqui, irei explicar o mais detalhadamente possível as fases da vestimenta de uma dama nobre Tudor da corte de Henrique VIII (1509 – 1547), ou seja, na Inglaterra da primeira metade do século XVI. A elite da sociedade usava as roupas como uma declaração de sua riqueza e posição. Essas pessoas eram sujeitas às leis suntuárias, ou seja, leis que delimitavam que tipo de tecido um homem poderia ou não usar. Isso permitia reconhecer a classe social do indivíduo. Por exemplo, a pele de arminho, a cor roxa e o pano de ouro eram restritos à realeza. A seguir, veremos como uma dama nobre se vestiria para uma importante visita à corte, onde ela seria vista por todos e até mesmo pelo próprio rei!

Chemisechemise do século xviA primeira parte da vestimenta era um traje chamado de chemise, uma espécie de camisola que era usado tanto por homens quanto por mulheres por baixo das roupas. Na maioria das vezes eram bordadas nas mangas e na gola. Sabe-se que tanto os ricos quanto os pobres usavam as mesmas roupas por semanas e por isso tem-se a idéia de que eles fediam muito, mas na verdade eles trocavam de roupa diariamente (ou várias vezes por dia) eram a chemise, que ficavam em contato direto com a pele. Era geralmente feitas de linho ou seda, mas atualmente é feita de algodão. Caso você vá participar de um evento e não queira gastar dinheiro com uma chemise, pode comprar simplesmente uma camisola branca de manga comprida.

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petticoatpetit 2Após a chemise, algumas damas usavam o chamado petticoat (anágua, na língua portuguesa). Ela poderia ser usada por homens ou mulheres, mas no último caso ele tinha uma saia e podia ou não ter um corpete. Atualmente, poucas reconstruções de vestidos Tudor não-profissionais usam o petitcoat, porque ele é facilmente substituído pelo kirtle. Quando se vai a uma feira renascentista, por exemplo, quanto menos tecido menos pesado será o vestido, e qualquer parte do vestido que pode ser tirada é tirada. Nas imagens, vocês podem ver um petitcoat com corpete  (notem que o ‘corpete’ não é nada mais do que uma amarra na cintura). O petticoat sem corpete seria apenas mais uma camada de saia atada na chemise para dar mais volume.

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Farthingalefarthingale 2A segunda parte da roupa era o farthingale. Criado na Espanha, foi uma das várias estruturas usadas pelas mulheres européias no século 16 e 17 para deixar as saias na forma desejada, que no caso Tudor era em forma de sino, dando ao traje uma forma triangular quando terminada. Conta-se que o farthingale chegou à Inglaterra no início de 1500, introduzido à corte inglesa por Catarina de Aragão, futura rainha de Henrique VIII. Apesar dessa referência, foi apenas na década de 1540 que o farthingale começou a ser reconhecido em documentos e retratos da época. Embora em alguns locais o farthingale era feito para ser visto, na Inglaterra ele era escondido sobre o kirtle. Mesmo assim, eles eram feitos de tecido de seda, como cetim ou tafetá, com aros cobertos de veludo ou desses mesmos tecidos. Atualmente, os farthingale são feitos de plástico, mas na época eram feitos de materiais diversos tais como madeira, corda ou ossos de baleia.

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kirtlecolocando o kirtleA terceira parte da vestimenta Tudor era o kirtle. Infelizmente não existe nenhum “manual” de vestido Tudor, então existem duas versões mais utilizadas para ilustrar como ele era, sendo que ambas influenciam na parte final do vestido. A primeira versão (a esquerda) mostra que o kirtle era listo na frente, tendo uma amarração de fitas ou cordas atrás do vestido ou ao lado. A segunda versão (da direita) mostra que o kirtle era amarrado na frente. A cor da parte de cima do kirtle não é necessariamente da cor do vestido, e ele tem apenas um pedaço de tecido rico, pois a saia Tudor é dividida em duas: a interna e a externa. Essa, que vem com o kirtle, é a saia interna, e geralmente é da mesma cor das mangas, e como a saia externa cobre toda a volta da saia com exceção da parte da frente, só é necessário um pedaço de tecido que fique na frente.  Aparentemente a parte de cima do kirtle era de alguma forma endurecido. Ao contrário do que se imagina, o kirtle não era feito da mesma forma de um espartilho moderno e não foi concebido com o objetivo de apertar a cintura.

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mangasEm seguida, vêm as mangas, que eram literalmente um pedaço à parte. As mangas Tudor não eram presas ao vestido – elas eram amarradas com fitas, podendo ser trocadas sempre. Esse era um dos truques das damas Tudor: trocando o kirtle e as mangas, poderia-se ter um vestido completamente diferente. Também existiam diferentes tipos de mangas, embora no final da década de 1530 e até o reinado de Eduardo VI as mangas mais populares eram as que podem ser vistas no retrato de Jane Seymour (parecidas com a imagem à esquerda; esse tipo de manga mostrava o forro, que poderia ser de cetim, seda, ou outro tecido caro).

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v1corpete de the tudorsDepois, finalmente, vinha o vestido. Até hoje, o traje completo de uma dama Tudor é motivo de discussão simplesmente por causa de duas coisas: o corpete e as amarras. Como se pode ver em pinturas Tudor, o vestido não tem nenhuma amarra aparente (ou seja, naqueles filmes em que o vestido de uma dama é amarrado atrás por fitas é provavelmente mentira). Geralmente em feiras renascentistas ou trajes Tudor feitos por pessoas não-profissionais o vestido é amarrado atrás simplesmente por ser muito mais fácil. Isso, no entanto, leva a uma consequência: o vestido amarrado atrás inevitavelmente tem a parte do corpete presa à saia ou o corpete é um forma solta, e esse corpete invariavelmente é duro de uma aparência não-renascentista.

Corpete tudorIsso leva a dois pontos: o vestido final de uma dama Tudor era dividido em duas partes: o vestido e o corpete. No entanto, o corpete não é o que imaginamos que seja um corpete – duro e com amarras. Ele era apenas um pedaço de tecido endurecido que era afixado no kirtle. Como era afixado? Com alfinetes e fitas – por isso que podemos ver em algumas adaptações que o corpete é meio solto e não endurecido.

corpete catarina parrTambém é interessante notar que nesse momento o corpete Tudor não é completamente triangular (como seria no reinado de Elizabeth I), e sim arredondado, na parte de baixo. Geralmente o retrato de Catarina Parr é usado para mostrar a forma do corpete, mas além de ser do final do reinado de Henrique VIII, a parte de baixo de seu corpete está sendo escondido pelo seu cinto, e por isso temos a impressão de que ele é triangular quando não o é. Notem por exemplo na réplica profissional feita desse vestido (imagem á esquerda), que o corpete não foi recriado em forma  de V como poderíamos imaginar, mas sim com uma forma arredondada.

Outra parte do vestido Tudor que trás muita discussões são os enfeites colocados no decote do corpete (que era quadrado ou levemente arredondado, para a desconfiança de muitos fãs Tudor modernos). As discussões começam porque nos quadros não dá para se ter a certeza se os enfeites eram colocados na chemise, no petticoat, no kirtle ou no corpete do vestido. Por isso, pode-se encontrar hoje todas as três formas de enfeites.

Nas imagens abaixo, pode-se ver quatro tipos de corpetes feitos por volta de 1545. Nota-se que o corpete tem uma forma triangular nos dois primeiros, mas que sua base não é triangular, e sim arredondada (não se pode deixar influenciar pelos cintos!). A próxima observação que se pode fazer é sobre os enfeites. Enquanto no 1º e 4º retratos temos a impressão de que eles estão no vestido, no 2º e 3º temos a impressão que ele está atrás, possivelmente no kirtle ou até mesmo na chemise. Logo abaixo desses quatros, pode-se ver quatro imagens: um da série Wolf Hall, onde todos os trajes foram feitos à mão tentando ser o mais historicamente corretos possíveis (note que podemos ver que o corpete está meio solto, pois não foi devidamente afixado e que os enfeites são colocados nele); um corpete feito pelas profissionais da empresa The Tudor Taylor (os enfeites são colocados no kirtle); um vestido usado por Natalie Portman no filme “A Outra” (igual aos dois anteriores, a parte da frente do corpete é afixado com alfinetes e fitas que não estão visíveis, o vestido não tem nenhum tipo de amarra na lateral e nem na atrás e os enfeites estão nele); e por último um corpete feito pela profissional Philippa Montague (nele o enfeite é afixado no kirtle e é possível ver que o corpete é solto e preso nas laterais).

corpetes e enfeites

Bibliografia e Fontes das Imagens:
Re-Production Gowns of Catherine Parr“. Acesso em 14 de Maio de 2015.
Pattern for Henrician Girl’s Petticoat, Kirtle and Gown“. Acesso em 14 de Maio de 2015.
The Tudors Costumes : Anne Boleyn“. Acesso em 14 de Maio de 2015.
Farthingale“. Acesso em 14 de Maio de 2015.
Tudor Dreams Historical Costumier“. Acesso em 14 de Maio de 2015.
Tudor Lady Project.”. Acesso em 14 de Maio de 2015.
Under a Lady’s Skirts‘”. Acesso em 14 de Maio de 2015.
Dressing the Tudor Lady“. Acesso em 14 de Maio de 2015.
Jane Seymour’s Petticoat“. Acesso em 14 de Maio de 2015.

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