Por que Elizabeth I é sempre retratada de forma grotesca?

“Usando maquiagem branca e vermelha, a atriz Anita Dobson se assemelha com o coringa de Heath Ledger”.

Um novo documentário da BBC, “Armada”, estreou onde à noite com reconstituições visuais para contar histórias elisabetanas: uma ilha sitiada, liderados por uma rainha vacilante, marinheiros ingleses corajosos, espanhóis sem rosto caindo com crucifixos sobre seus cativos como instrumentos de tortura. Presidindo tudo isso – embora na verdade não – estava uma figura que poucos elisabetanos teriam reconhecido: com maquiagem branca e vermelha, Anita Dobson se assemelhava tanto quando o Coringa de Heath Ledger, ou como ele teria parecido se fosse interpretado por sua avó. Apresentado e dirigido em parte por Dan Snow, a publicidade do documentário consistiu em cenas exclusivas das quatro horas de maquiagem que Dobson tinha que fazer todos os dias.

O documentário estava obcecado com o envelhecimento de Elizabeth. Desde a primeira cena da careca Elizabeth recebendo a notícia dos vencedores com um cobertor para aquecê-la, a rainha estava sempre ou colocando ou tirando sua peruca. Até parece que não teríamos idéia de que em 1588 Elizabeth tinha 54 anos (a atriz que a interpretou tem 66). Mas ainda aqui o documentário estava seguindo um caminho bem trilhado: desde que Sarah Bernhardt interpretou Elizabeth I pela primeira vez em 1912, cada filme sobre a rainha Tudor baseou sua campanha publicitária na premissa de que a atriz sofreu uma profunda degradação do corpo – Flora Robson usou um nariz falso; Bette Davis e outras precisaram raspar os cabelos. O preço do sucesso é tornar-se indesejável, tanto para os atores quanto para a própria Rainha.

Bette Davis como Elizabeth I

Glenda Jackson e Cate Blanchett, talvez as intérpretes mais precisas sobre Elizabeth, começaram suas adaptações cinematográficas parecendo ninfas, mas no fim – depois que sua personagem tinha desistido de qualquer esperança de ter um marido, estando poderosa mas sozinha – ficam cobertas de pó branco. Estudiosos há muito desacreditaram o mito de que Elizabeth passou sua vida  envolta em maquiagem branca. Mas então por que o rosto de Elizabeth ainda nos assombra, com seu corpo envelhecido sendo o foco de nosso horror? A mulher mais poderosa da história britânica continua a ser o epítome do grotesco feminino.

E grotesco é a palavra. Nós sempre fomos fascinados por organismos envelhecidos. Mikhail Baktin, em seu estudo sobre o poeta francês Rabelais, descreve que o grotesco como uma estética que constantemente nos confronta com as necessidades primárias do corpo – o corpo como um instrumento de comer, beber, urinas, defecar, reproduzindo o nível mais alto do lado animal. A grotesca Elizabeth é uma velha rainha que ainda precisa cagar, mas se incrusta em jóias para esquecer isso. Não é de se admirar que Flora Robson recebeu ordens de sugerir em entrevistas a dificuldade em ir ao banheiro com seus trajes firmemente costurados, quando Fogo Sobre a Inglaterra foi lançado em 1937. Assim como agora, a escatologia vende.

Não ter filhos acrescenta a ela mais do grotesco. Ela continua a ser uma imagem de esterilidade, tal como se tornaria para os poetas dissidentes e jovens frustrados que salpicavam sua corte nos últimos dias de seu reinado, com o Conde de Essex sendo o mais proeminente entre eles (a famosa cena em que ele descobriu, de verdade, que ela usava uma peruca ocorreu em 1599, mais uma década depois da Armada).

Ontem à noite foi a vez de Dan Snow desempenhar o papel de jovem descontente, reclamando da relutância de Elizabeth em equipar adequadamente seus marinheiros. Enquanto Snow foi visto visitando um forno que produzia bolas de canhão, Elizabeth foi mostrada fugindo para o Palácio de Richmond. Enquanto isso, um grupo de historiadores do sexo masculino foi convidado a demonstrar a formação da frota usando barcos de brinquedo, enquanto um grupo de historiadoras foram questionadas quase exclusivamente sobre o cabelo e maquiagem de Elizabeth.

Havia muito para se admirar sobre a visão de Snow na história inglesa: a Armada foi derrotada pela marinha inglesa e foi incrível ver um verdadeiro marinheiro prestando homenagens há aquelas tradições esquecidas. Mas esse continuou a ser um documentário sobre o corpo de uma mulher envelhecida. Os ingleses ainda estão com medo de serem liderados por uma mulher mais velha 0 se não podemos negar seu poder político, então iremos negar seu poder erótico. Não podemos castrar nossas mulheres poderosas, mesmo quando estamos ansioso sobre elas estarem nos castrando. Então nós a tornamos grotescas.

Artigo traduzido e editado do original “Why is Elizabeth I, the most
powerful woman in our history, always depicted as a grotesque?

escrito por Kate Maltby.

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6 comentários sobre “Por que Elizabeth I é sempre retratada de forma grotesca?

  1. Li o texto com a máxima atenção, mas convenhamos não é? Elizabeth I não é a Cate Blanchet! E há que se levar em conta que o cinema, o teatro são glamourizados para agradar ao público e a crítica. No decorrer do texto há uma crítica de gênero/papéis sexuais ou nomeiem como quiserem: os historiadores homens são chamados para comentarem sobre a Guerra, as estratégias náuticas, enfim para falarem sobre História da Guerra e História Militar! Já as historiadoras mulheres para falarem de… cosméticos, roupas, cabelos, enfim assuntos triviais que cabem óbvio ao universo feminino! Aí eu questiono como mulher/mãe/esposa/dona de casa e sim historiadora (fiz mestrado em História) como me interesso por História Militar e História da Guerra sou sempre mal vista pelas próprias mulheres sejam elas historiadoras, críticas literárias, esposas, mães e donas de casa! Já passou da hora de parar de compartimentar o Conhecimento com coisas de homens e coisas de mulher!
    Elizabeth I foi a última rainha Tudor: não casou, mas com certeza teve amantes, não teve filhos não deixou descendentes mas soube mandar assassinar, mutilar, matar. para se manter no poder como todo bom rei/rainha!
    Cercou-se de jovens solitários e frustrados? Ou de aproveitadores da sua amargura? Penso que nenhum homem gostaria de arriscar o seu pescoço afinal de contas a rainha era filha de um renomado rei degolador de mulheres pela sua insatisfação! A sua filha seria uma degoladora de homens que não correspondessem aos seus desejos? Não sabemos e nem saberemos! Mas, ela mandou encarcerar um dos seus possíveis amores que se casou com outra!
    E, gosto de pensar a rainha Elizabeth I como foi apresentada na série da CBBC “Horrible Histories”: com leis extravagantes e sem sentindo, escondendo as marcas da varíola com maquiagem e escovando os dentes com uma pasta feita de açucar e gritando: ” – Sou podre de rica”!!!!!!!

    • Como historiadora, entendo sua opinião e revolta. Também não concordo que Cate Blanchett foi a melhor Elizabeth – acredito que ela tenha sim ‘incorporado’ a Rainha muito bem, mas na aparência não acredito que tenha representado muito (acredito que os figurinos ajudaram nessa parte). Não concordo que Elizabeth tenha tido amantes, só se for no sentido de amar alguém, e não realmente transar com eles (Elizabeth precisou ser examinada por um sem-número de médicos para seus inúmeros compromissos matrimoniais, e embora nenhum deles tenha acontecido, todos atestaram que era virgem). Sem dúvida, a execução fazia parte do ‘planejamento’ para se manter do poder. Não concordo também que as leis elisabetanas fossem extravagantes e sem sentido – elas podem parecer assim para nós hoje, como por exemplo, ser proibido sair na rua sem chapéu (uma forma de incentivar o comércio de lã local à força) ou proibir os ingleses de comer carne às quartas, sextas e sábados (uma forma de incentivas a pesca à força). Esse é um dos pontos tratados nesse artigo também: Elizabeth usava sim maquiagem para esconder as marcas de varíola, mas não era um ‘reboco’ na cara igual são usadas em alguns filmes e séries rsrs.

  2. No que diz respeito à aparência das pessoas retratadas em tais produções, creio que a discussão nunca terá fim. No caso de Elizabeth I, eles enfatizam a estranheza; no caso de muitos outros, eles os adaptam aos nossos padrões de beleza. Quando o objetivo maior é vender, a história é apenas um chamariz, e será “levemente” alterada pra ficar mais rentável. O grande público agradece. Já os estudiosos…

    Lembrei disso aqui: http://www.dailymail.co.uk/news/article-2916587/The-actress-pretty-play-Jayne-Seymour-house-built-Historians-spot-inaccuracies-new-BBC-Henry-VIII-drama-Wolf-Hall.html

    Parabéns pelo blog!

    Abner
    ahistoriadoseculo.org

    • É verdade Tânia, mas alguns historiadores afirmam que as marcas de varíola não eram tão destacantes a ponto da Rainha ter que usar tanta maquiagem quanto mostram em filmes e documentários. Era só uma “base” mesmo.

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