Catarina de Aragão: a primeira embaixadora mulher da História européia?

Laslett John Pott - Katherine of Aragon Denounced Before King Henry VIII and His Council ca. 1880Existem informações muito confusas sobre o fato de Catarina ter sido ou não embaixadora na Inglaterra e se foi, como isso se sucedeu. O historiador Giles Tremlett afirma que ela foi indicada como embaixadora antes mesmo de se casar com Henrique VIII – isso fez com que o rei confiasse ainda mais na sua esposa nos primeiros anos de casamento. Embora muitos historiadores falem e confirmem essa história, nunca pude encontrar nenhum documento contemporâneo sobre isso ou mesmo maiores informações.

De acordo com Alison Weir, foi em Abril de 1507 que Fernando de Aragão tomou essa ação histórica. Nesse momento, era necessário substituir o embaixador espanhol, Dr de Puebla, por outro, pois acreditava-se que o atual estava atuando de modo incompetente e mantendo os seus interesses próprios, ao invés da princesa espanhola e do rei. Fernando indicou dois homens, mas Catarina escreveu que ela preferiria Pedro de Ayala, que havia visitado a Inglaterra com sua irmã Joana e seu marido Filipe no ano anterior.

Enquanto isso, a princesa escreveu a seu pai que se Puebla fosse um homem bom, ele não teria permitido que ela fosse tratada pior do que a filha de um cavaleiro comum na Inglaterra depois da morte de Artur, seu marido. Alarmado, Fernando decidiu que Catarina deveria, mediante situação tão difícil, ser embaixadora na Inglaterra até que fosse encontrado um substituto. A nomeação foi feita no dia 19 de Maio de 1507 (curiosamente, Ana Bolena seria executada nessa mesma data 29 anos depois). Nunca antes na Inglaterra, Espanha ou na Europa inteira uma mulher  tinha recebido tal título. Infelizmente para o embaixador na ocasião, Puebla ficou terrivelmente doente e teve que ser retirado da corte. Henrique VII ficou feliz ao saber das notícias, provavelmente acreditando que seria muito mais fácil manipular Catarina do que Puebla ou o rei espanhol.

Depois de sua nomeação, a vida de Catarina na corte passou a ser agitada, pois haviam agora dois embaixadores espanhóis: De Puebla ainda era considerado embaixador, e Catarina também. Puebla ainda jogava um jogo duplo: falava sobre os interesses do rei espanhol, mas queria que sua vida na Inglaterra fosse o mais confortável possível. Catarina estava começando, lentamente, a entender o jogo de poder na política e a falta de escrúpulo dos homens. Estando na corte como embaixadora, Catarina teve a vantagem de ficar perto de Henrique, o futuro rei, como nunca antes. É muito comentado que o casal só se viu antes da morte de Artur e depois, no casamento dos dois. No entanto, sabemos que eles se viam com certa frequência na Corte.

Catherine of Aragon by William BromleyCom as novas atividades, sua saúde, que estava frágil desde que havia chegado na Inglaterra, melhorou muito – o seu único problema era a falta de dinheiro. Tirando vantagem da situação (talvez colocando-se no mesmo patamar que Puebla) Catarina escreveu, para seu pai e o rei Henrique VII, pedindo através de sua autoridade como embaixadora, dinheiro para ela e seus servos, que estavam em “absoluta miséria”. Seu pedido foi aparentemente atendido. Fernando mandou-lhe dois mil ducados – quantia suficiente para pagar suas dívidas e seus servos, mas não suficiente para comprar novas roupas e novas pratarias para sua casa, e o rei Henrique disse que a amava tanto que não suportava a idéia de que ela estivesse na pobreza, e que lhe daria, sem demora, quanto dinheiro ela achava necessário.

Finalmente, na primavera de 1508, Fernando enviou um novo embaixador – Fuensalida – para a Inglaterra. Infelizmente, ele se mostrava pomposo e orgulhoso, e Catarina imediatamente desgostou-se dele, e também passou a se ressentir do fato de que todo o respeito que era mostrado para ela como a embaixadora oficial da Espanha diminuiu drasticamente. Nos primeiros meses de 1509, Catarina estava em ‘grande desespero’, e escreveu a seu pai que estava tão depressiva que acreditava que não tinha mais motivos para viver. O dinheiro havia voltado a ser uma questão problemática, e não havia perspectivas de um novo casamento. Puebla, que ainda estava na Inglaterra, foi embora para a Espanha, onde morreria meses depois.

Após a morte de Henrique VII, em abril, a situação mudou um pouco: um novo embaixador, Luis Caroz, chegou para substituir Fuensalida, e os nobres passaram a respeitar Catarina um pouco mais, dado a probabilidade dela se casar com o novo rei. Poucos meses depois, Catarina e Henrique VIII se casaram e a posição de embaixadora foi praticamente esquecida – ou assim dizem os livros – dada a nova posição de Catarina como Rainha da Inglaterra.

Bibliografia:
TREMLETT, Giles. “Catherine of Aragon: Henry’s Spanish Queen”. Great Britain: Faber & Faber, 2011.
WEIR, Alison. “The Six Wives of Henry VIII”. Great Britain: The Bodley Head, 1991.

Anúncios

5 comentários sobre “Catarina de Aragão: a primeira embaixadora mulher da História européia?

  1. Mas as rainhas já não desempenhavam essa função indiretamente? Por exemplo, a filha bastarda do rei John, a princesa de Gales Joanna, servia como intermediária nos interesses ingleses e galeses a fim de aproximar os países. Mas os casamentos por contrato tinham, então, outra finalidade?

    • Indiretamente sim, mas não era nem de longe a mesma função de um embaixador. Enquanto o casamento entre a realeza era usado primordialmente como alianças entre dinastias – no caso Tudor ainda é melhor, porque era uma dinastia recém-criada e eles precisavam de casamentos com dinastias antigas e fortes, como foi o caso do casamento com Catarina de Aragão; além disso ser, de certa forma, uma aliança que impediria a guerra entre os dois países (o caso entre a França, Espanha e Inglaterra é a mais complicada: a Inglaterra sempre precisou de uma aliança com um dos dois países para não correr o risco de ser invadido). No entanto, isso também não significava uma aliança garantida: embora a irmã de Henrique VIII fosse casada com o rei da Escócia, Henrique declarou guerra a Escócia, que acabou com a morte do rei escocês. Já os embaixadores, embora nunca se envolvessem ‘diretamente’ nas guerras, tinham que estar a par de todas as fofocas, intrigas e alianças do reino, sempre reportando para o rei de seu país de origem (Chapuys é o melhor exemplo disso) – ele era o representante do seu estado, de uma forma muito diferente das rainhas, que nem sempre tinham conhecimento do que o rei do seu país de origem pretendiam fazer; e nem poderiam ter tempo (as rainhas tinham que, afinal de contas, gerir uma corte) e nem acesso a grupos que os embaixadores tinham. É interessante assistir Wolf Hall para ter uma idéia melhor.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s