Jane Grey vista pelos vitorianos

Paul delaroche

Os mais famosos livros sobre Jane Grey foram escritos na era Vitoriana, uma época em que mulheres eram idealizadas por sua piedade religiosa e mansidão pessoal. Em 1833, o livro Historical Tales of Illustrious Britsh Children descreve Jane como “a mais perfeita modelo de uma jovem criatura meritória do sexo feminino a ser encontrada na História”. Em seu livro “A vida de Jane Grey”, de 1886, D. W. Bartlett queria inspirar as mulheres jovens americanas a “imitar o caráter da mulher bonita e ilustre cuja triste, mas em outros sentido gloriosa, vida os livros registraram”. Em 1909, Davey Richard, em seu livro “A Rainha dos Nove Dias: Lady Jane Grey e seus tempos”, representou Jane como uma jovem fraca e submissa, em grande parte porque o autor mesmo era um produto da era Vitoriana que construía a mulher de uma forma idealizada. Agnes Strickland, em “A vida das Princesas Tudor e Stuart, incluindo Lady Jane Grey e suas irmãs”, publicado em 1868, é talvez a mais responsável por ter popularizado a imagem de Jane Grey como uma jovem mulher fraca e submissa de grande sensibilidade de auto-sacrifício e piedade – os livros de Agnes eram destinados principalmente a serem modelos de comportamento para as jovens mulheres vitorianas, e seus livros incluíam textos didáticos sobre o comportamento feminino adequado – a obediência, submissão a autoridade masculina, a piedade religiosa, o sentimento altruísta de dever para com a família, entre outros. Nesse livro, Agnes escreveu:

“Lady Jane Grey é sem dúvida a personagem mais nobre da linhagem real Tudor. Erafoi dotada com todos os atributos que são amáveis em uma vida doméstica, enquanto sua piedade, conhecimento, coragem e virtude a qualificavam para o esplendor da coroa”.

Não foi só a imagem de Jane moldada pelos vitorianos. Vemos Jane como uma vítima inocente, adolescente, uma mártir protestante, e impiedosamente intimidade pelos seus pais cruéis, especialmente sua mãe tirânica, famosa por bater nela quando Jane se recusou a casar com Guildford em 1553. Historiadores recentes, no entanto, tem questionado a reliadade da natureza pessoal das relações dos familiares Grey uns com os outros. Por exemplo, acredita-se que as queixas de Jane sobre o tratamento áspero de seus pais podem não necessariamente refletir a realidade, mas sim ilustrar a atitude de uma adolescente pedante, opinativa e abertamente desdenhosa contra seus pais convencionais e antiquados. Fica claro no encontro que Jane teve com Roger Ascham que, aos 13 anos, a pequena Jane não hesitava em contar a seus visitantes que achava a companhia de seus pais um inferno.

Jane Grey recusa

Lady Jane Grey recusa a Coroa, por Robert Smirke em 1860.

Mas Jane Grey era realmente essa figura fraca e submissa? Sabe-se que ela, inicialmente, recusou a aceitar a coroa e sua posição como Rainha da Inglaterra. No entanto, é até possível que Jane tenha aceitado a coroa depois de oferecer um pouco mais que uma resistência superficial – a coroa teria oferecido um grau de independência pessoal que de outra forma teria sido impossível, além de oferecer poder. Apesar da era vitoriana contar histórias diferentes, Jane Grey era muito mais que um produto de sua própria idade, ela viva em uma época de ambição generalizada, de dever com a família e Deus, tendo como objetivo aumentar o status de si mesma e sua família. Seria na verdade uma profunda traição de sua família e das normas sociais recusar uma posição tão exaltada. No ato de aceitar a coroa, foi registrado que Jane pediu a Deus um sinal de que ela deveria recusar, e parou por um momento, e sem receber esse sinal, ela aceitou.

Na verdade, há ampla evidência de que Jane abraçou totalmente seu novo status, assinando dezenas de documentos com seu próprio punho, ao invés de depender de secretários particulares, indicando seu envolvimento. E em mais de uma ocasião ela revogou as ordens de seu conselho, impondo sua vontade de governar. Estaria ela sendo destruída pelas maquinações dos homens ao seu redor? De certa forma, sim – era uma época em que mulheres viviam abaixo dos homens, tinham poucos direitos legais e eram praticamente impedidas de assumir cargos públicos. No entanto, as circunstâncias de Julho de 1553 determinavam que uma mulher deveria assumir o trono, e foi isso que aconteceu.

Jane Grey fez ações pouco românticas – se sentou nas reuniões do Conselho privado, ajudou a planejar as manobras militares contra sua prima, a futura Rainha Maria. Os nove curto dias de seu reinado foram embalados com a atividade pouco romântica e onerosa. Os anos serviram para apagar parte desse material não-romântico e substituiu-o com a imagem de uma menina obediente, sempre estudando ou orando, pouco envolvida nos assuntos do mundo. Na verdade, um biográfo do século 19 se referiu a ela como vivendo em “esplêndido isolamento”. Mas a evidência história mostra que Jane era sociamente ativa, participando de celebrações públicas e viajando para visitar parentes e amigos espalhados pelo reino, tendo um grande amor pela música.  A imagem que surge de Jane é que ela era uma mulher normal para aqueles de seu status social e econômico.

A noção convencional de Jane Grey como uma jovem fraca, sem poder, vítima das intrigas políticas, sobreviveu para o século 21, mas não chegou aqui sem ser questionada. A representação do século 19 de Jane Grey em textos e imagens oferecem uma bela discussão para a construção de gênero, identidades e o papel das mulheres hoje e antigamente.

Bibliografia:
EDWARDS, J. Stephan. Annotated Secondary Source Bibliography. Acesso em 15 de Junho de 2015.
IVES, Eric. Lady Jane Grey: A Tudor Mystery. West Sussex: John Wiley & Sons, 2011.
1554: Lady Jane Grey, the Nine Days’ Queen. Acesso em 15 de Junho de 2015.
BYRNE, Conor. The Execution of Lady Jane Grey, Queen of England. Acesso em 15 de Junho de 2015.

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Um comentário sobre “Jane Grey vista pelos vitorianos

  1. Maravilhoso! <3
    Os Vitorianos traçaram um padrão absurdo para descrever as mulheres do período Tudor, fazendo delas santas, submissas ou tiranas que ainda perdura como verdade até hoje.
    É muito bem observar sobre um outro ponto de vista.
    Adorei o artigo, parabéns!

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