Henrique VIII, Martinho Lutero e a Defesa dos Sete Sacramentos

Martinho Lutero por Lucas Cranach em 1523.Martinho Lutero e Henrique VIII viveram na mesma época e, no entanto, viveram vidas muito diferentes e tinham objetivos muito diferentes. Mas em muitos aspectos, suas vidas mostram alguns paralelos muito interessantes. Martinho Lutero nasceu em Eisleben, Alemanha, em 10 de novembro de 1483. Henrique VIII nasceu oito anos depois, em 28 de junho de 1491, no Palácio de Greenwich, em Londres. Seu reinado começou em 1509, quatro anos depois de Lutero ter entrado no mosteiro. Henrique VIII morreu em 1547, apenas um ano depois de Lutero. Para ambos os homens, suas vidas tiveram tudo a ver com as suas motivações para mudar a Igreja.

Antes de seu cisma com a Roma e a perseguição dos católicos na Inglaterra, Henrique VIII era um grande defensor da fé católica.  Em 1517, o monge alemão Martinho Lutero atacou a corrupção da Igreja Católica, o que provocou o início de um movimento protestante teve repercussão em toda a Europa. Em um tratado de três partes, ele denunciava o sistema papal e a doutrina dos sacramentos.  Lutero afirmava que não havia sete sacramentos; que a Igreja (por interesse próprio) tinha inventado cinco delas. Esses cinco eram o matrimônio, a ordem, a penitência, a extrema-unção e a confirmação. Só restavam o batismo e a comunhão. Na interpretação de Lutero, o casamento era um contrato legal; a ordenação era desnecessária, pois os sacerdotes não tinham nenhum poder especial; a confissão era algo que se fazia diretamente a Deus, não a um padre; a extrema-unção era uma superstição tola; e a crisma era uma versão redundante do batismo. Cristo não celebrara nenhum deles, portanto certamente não os considerava necessários à salvação.

Assertio Septem Sacramentorum adversus Martinum LutherumEm resposta à crescente popularidade de Lutero em seus protestos contra a Igreja Católica, Henrique VIII escreveu um trabalho contra as opiniões de Lutero intitulado  Assertio Septem Sacramentorum, ou ‘Defesa dos Sete Sacramentos’. Com esse trabalho, ele se tornou o primeiro rei inglês desde Alfred, o Grande (849 – 899)  a ter escrito um livro.

J. J Scarisbrick, autor de uma biografia de Henrique VIII publicada em 1968, descreve o trabalho como “uma das mais bem sucedidas peças polêmicas católicas produzidas pela primeira geração de escritores anti-protestante.”

Henrique começou a escrever o Assertio em 1518 durante a leitura do ataque de Lutero sobre a venda de indulgência, que era uma forma corrupta de uma pessoa reduzir a quantidade de punições que poderiam ter por ter pecado. Em junho daquele ano ele mostrou seus manuscritos ao Cardeal Thomas Wolsey, mas ele permaneceu guardado por três anos, até que os manuscritos formaram os dois primeiros capítulos de Assertio, sendo o restante constituído de novos materiais relativos a um trabalho posterior de Lutero. Enquanto escrevia laboriosamente o seu livro, o rei consultou Fisher, Pace, Eduardo Lee, Stephen Gardiner, Tunstall, eWolsey. Os espanhóis disseram ‘Todos os eruditos da Inglaterra tomaram parte na composição desse livro’.

Quanto à teologia e o latim, Henrique confiou-o a Tomas More, seu amigo e conselheiro. Muitos anos depois, este declarou: ‘Por indicação de Sua Majestade e com o consentimento dos que escreveram o livro, fui incumbido de escolher e ordenar as principais matéria nele contidas’. Muitos historiadores, no entanto, discutem o quanto Henrique teve de ajuda para a criação de seu livro – dizem que Sir Thomas More  deu mais do que conselhos ao rei em relação ao livro.

O rei tinha agora trinta anos e se achava no auge do orgulho intelectual. Ferir Lutero em nome da Santa Igreja dava-lhe uma sensação de integridade moral. Mandou a Roma duas cópias, uma delas um magnífico exemplar encadernado em ouro, com folhas de pergaminho – foi enviado a Leão X. Ao que se conta, o papa imediatamente leu cinco páginas e disse que ‘não pensaria que semelhante livro tinha sido produzido pela diligência do rei, que necessariamente estivera ocupado com outras tarefas, tendo em vista que outros homens, que dedicaram suas vidas inteiras ao estudo, não puderam produzir coisa semelhante.’

O papa agradeceu o zelo com que Henrique ajudava a Santa Sé ‘pela espada e pela pena’. ‘Nós não podemos senão rejubilar-nos com o crime de Lutero’, acrescentou com um gracioso sorriso, ‘pois que nos proporciona um tão nobre campeão’ Grato pelo apoio do rei, Leão X conferiu a Henrique um título há muito cobiçado: Defensor Fidei, Defensor da Fé. O livro foi um sucesso estrondoso. Muitas traduções foram impressas em Roma, Frankfurt, Colônia, Paris e Wurzburg, entre outros lugares e as edições se esgotavam assim que saíam do prelado. Publicou-se um total de vinte edições antes que o apetite continental fosse satisfeito. Foi a essa altura que Lutero entrou na briga, lançando insultos ao seu real autor.

Royal Collection © Her Majesty Queen Elizabeth IISeria na primavera de 1522, depois de retornar de Wittenberg, que Lutero viu pela primeira vez uma cópia do Assertio Septem Sacramentorum. Em 1 de Agosto Lutero publicou ‘A resposta de Martinho Lutero na Alemanha ao livro do rei Henrique da Inglaterra’. Contrastando com os argumentos racionais de Henrique, esse panfleto era meramente uma série de palavras de baixo calão, chamando-o de ‘rei da Inglaterra pela desgraça de Deus’, dizendo que Henrique

‘fabrica com conhecimento de causas e conscientemente mentiras contra a majestade de meu rei no céu, produz essa abominável podridão e abjeção, sinto-me no direito de, em favor de meu rei, salpicar Sua Majestade inglesa de estrume e merda e de pisotear essa sua coroa’.

Tal linguagem provocou uma afronta na nação Inglesa. Havia a necessidade de uma resposta – e uma no nível de Lutero. O rei inglês não quis dignificar a resposta alemã com uma resposta direta. Portanto, Sir Thomas More, então Lorde Chanceler e um dos líderes do partido humanista católico na Inglaterra, foi escolhido para refutar os argumentos de Lutero e defender a honra do rei. Em 1523, ele produziu Sua Resposta a Lutero, assinada sob o pseudônimo de ‘William Ross’. Lá, ele proclamava que Lutero deveria estar ‘afogado em imundícies’, que era ‘um bufão bajulador que primeiro foi frade, depois rufião’. Conclamava os próprios leitores dele a jogar de volta na ‘boca cheia de merda de Lutero, verdadeira cloaca de toda a merda, toda a sujeira e merda que sua execrável podridão tinha vomitado, e a esvaziar todos os esgotos e latrinas’ sobre sua cabeça.

De acordo com uma carta escrita por Richard Pace ao Cardeal Wolsey, a repugnância de Henrique para com os pontos de vistas de Lutero eram claramente mostrados.

‘Na minha chegada ao rei esta manhã, encontrei-o olhando para um livro de Lutero. Olhei para o título do mesmo e percebi que é o mesmo livro que foi impresso por Sua Graça e enviado para mim. O rei estava muito alegre de ter essas notícias de Sua Santidade, o Papa, no momento em que ele havia tomado para si a defesa da Igreja de Cristo com a sua caneta’ – e tinha resolvido ‘dar um fim nele mais cedo’.

Enquanto o festival de amor entre Henrique VIII e a Igreja Católica continuava inabalável, um pouco tempo depois aparentemente Lutero estendeu a mão da amizade para Henrique. Em uma carta de 1525, Lutero escreveu a Henrique se desculpando pelo seu ataque ao rei e para afirmar que o livro não era seu trabalho e sim de Wolsey. Henrique respondeu a Lutero em defesa de seu ministro, alegando cada vez que ele era odiado por Lutero e outros heréticos mais querido Wolsey era para o rei. Alegando que Henrique havia sido influenciado por seus inimigos, Lutero deu suas desculpas por tal ação e pediu a amizade e perdão do rei. Lutero também ofereceu a proposta de retratar-se publicamente sobre a o opinião da autoria deste livro e expressou seu desejo de escrever um livro em louvor do rei Henrique VIII, que negou seus pedidos.

Após a recusa consistente de amizade por parte de Henrique, não foi de estranhar que Lutero mais tarde recusou-se a apoiá-lo em sua hora de necessidade: quando a Igreja Católica não foi capaz de conceder o divórcio a Henrique, ele quis apoio. Martinho Lutero, embora não influenciado pelo debate interminável sobre dispensas papais, afirmou acreditar na santidade do matrimônio e apoiou Cataria de Aragão nessa disputa.

Em 1534, Chapuys escreveu ao Imperador Carlos V, estabelecendo o cenário político no que diz respeito a esse livro que se tornou tão polêmico na defensa de Henrique de Roma.

‘Como a presente conduta do rei é contrária ao antigo livro escrito em seu nome, ele imprimiu uma cópia de Lutero, dizendo que o livro não procede de sua própria vontade, mas que ele foi seduzido a escrevê-lo pelo Cardeal de York e outros prelados’.

É possível que Henrique VIII tenha escrito o livro com alguma ajuda, mas depois decidiu refutar a autoria em base de sua ruptura com Roma. Desse modo, é natural que Henrique e seus ministros se aproveitaram de qualquer possibilidade de cortar a conexão com Roma.

Bibliografia:
Compare and Contrast – Martin Luther and King Henry VIII‘. Acesso em 9 de maio de 2013.
Assertio Septem Sacramentorum‘. Acesso em 9 de maio de 2013.
Henry VIII’s Defense of the seven sacraments‘. Acesso em 9 de maio de 2013.
Defence of the Seven Sacraments‘. Acesso em 9 de maio de 2013.
Henry VIII, Martin Luther and Defense of the Seven Sacraments‘. Acesso em 9 de maio de 2013.
FRASER, Antonia. As Seis Mulheres de Henrique VIII. Tradução de Luiz Carlos Do Nascimento E Silva. Rio de Janeiro: BestBolso, 2010.
HACKETT, Francis. ‘Henrique VIII’. Tradução de Carlos Domingues. Rio de Janeiro: Irmãos Pongetti Editores.

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3 comentários sobre “Henrique VIII, Martinho Lutero e a Defesa dos Sete Sacramentos

  1. Sou teólogo protestante e não sabia desse livro de Henrique, apesar de saber que tinha lhe ido outorgado o título de Defensor da Fé, pelo Papa leão X. Também desconhecia a resposta de Lutero e o fato de ter apoiado, muito acertadamente, Catarina de Aragão, esposa legítima. Obrigado por mais detalhes dessa “cena” histórica da Reforma.

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