Catarina de Aragão e Ana Bolena: uma corte de duas rainhas

Ana, Henrique e Catarina

Um dos elementos mais curiosos do triângulo amoroso que se formou entre Catarina de Aragão, Henrique VIII e Ana Bolena foi o fato de que os três conviveram pacificamente na corte durante quatro anos. A rotina da corte corria pacificamente, sem se perturbar pelos pensamentos pessoais do rei ou sua rainha. Mesmo escrevendo cartas apaixonantes por Ana Bolena, em 1528 o rei ainda almoçava nos aposentos da rainha, e até passava a noite com ela, de acordo com Jean du Bellay, embaixador francês.

Catarina de Aragão era a encarnação da verdadeira realeza. Só uma vez que ela falou algo para Ana Bolena sobre o fato de seu marido estar tentando fazê-la tomar o seu lugar, e mesmo assim foi sutilmente. George Cavendish, biógrafo do Cardeal Wolsey, insistia que Catarina fingia que não tinha nada de errado e ainda mostrava grande favor para com Ana Bolena, uma vez que era isso que o rei fazia:

[Catarina] não mostrava nem a senhora Ana, nem ao rei, qualque faísca ou tipo de rancor ou desprazer, mas tomava e aceitava todas as coisas de bom modo, e com sabedoria e muita paciência o mesmo, tendo a senhora Ana na maior estima do Rei do que ela tinha estado antes, declarando a si mesma ser uma perfeita Griselda, como seus atos pacientes são doravante mais evidentes a todos os homens.

Griselda é uma personagem folclórica de um conto escrito por Giovanni Boccaccio no século 14, onde é conhecida por sua paciência e obediência. Em um momento do conto, o marido de Griselda a repudia publicamente, alegando que foi concedida uma dispensa papal para divorciar-se dela e se casar com uma mulher melhor. Ela então vai morar com seu pai, e anos depois, o marido a chama porque ele pretende se casar novamente, e quer que ela, como uma criada, prepare as celebrações no casamento. O final é feliz: o marido conta a Griselda que tudo foi mentira, e ela é restaurada em seu lugar como esposa e mãe.  Infelizmente, Catarina não teve o final de Griselda.

As coisas devem ter sido tensas desde que o rei decidiu se casar com Ana por volta de 1527 e Catarina ter sido exilada da corte em 1531. Durante estes quatro anos, o rei manteve a pretensão de que realmente queria Catarina para ser sua esposa, mas sentia a necessidade de olhar para as questões sobre a legitimidade de seu casamento. Catarina sentava-se ao seu lado durante os eventos que exigiam a presença de uma rainha. Henrique jantava com ela, dançava com ela, eles trocavam presentes e cortesias, e Henrique passava todos os outros momentos que podia ao lado de Ana Bolena, tentando negociar uma anulação com o relutante Papa. Ele a beijava em público e a tratava como se fosse sua esposa.

De acordo com o Embaixador Chapuys – cujos relatórios devemos sempre ler tendo em mente o desprezo que ele sentia por Ana Bolena – durante este período Catarina ainda fazia as camisas de Henrique (apesar de que é mais provável que ela não fizesse as camisas de fato, e sim as decorasse com bordados). Ana soube disso e entendeu o caso como um símbolo do status de Catarina – sendo permitida pelo rei, ela estava fazendo valer os direitos de uma esposa – e teve um ataque de raiva e ciúmes.

Durante esses quatro anos, Ana serviu como uma das damas de companhia de Catarina. Apesar de ter seus próprios aposentos e suas próprias damas de companhia, como as outras senhoras, Ana tinha como seus deveres ler para a rainha, costurar com ela, buscar coisas que ela solicitava e mantê-la entretida.Foi durante um desses entretenimentos – um jogo de cartas – que Catarina fez sua única e oblíqua declaração sobre o tumulto que estava acontecendo nos bastidores. Em certa altura do jogo, a rainha disse: “A senhora não vai parar enquanto não ganhar o seu rei, senho Ana”. A história pode ou não ser verdadeira, mas aparentemente foi o único momento em que a rainha se permitiu um comentário público sobre os acontecimentos. 

De sua parte, Catarina provavelmente esperava que Henrique se cansasse de Ana assim como tinha se cansado de todas as mulheres que tinha cortejado. O Papa provavelmente esperava a mesma coisa, e fazia tudo o que podia para atrasar a resposta do termo de anulação. Mas Henrique não desistiu e lutou por maneiras de sair de seu casamento.

Ali estavam duas mulheres que pensavam que Deus as haviam chamado para o trono, ambas ferramentes da fé, ambas bem-educadas e cultas, ambas procurando aliados e conscientes de que o futuro da Inglaterra estava em jogo. Ana e os reformadores religiosos de um lado, Catarina e os conservadores católicos do outro. Como seriam para eles ficarem nesta corte de duas rainhas? O Embaixador Imperial Chapuys relatou cenas em que Ana declarava que gostaria de ver todos os espanhóis do fundo do mar e que preferiria ser enforcada a reconhecer Catarina como sua rainha. No entanto, Chapuys rotineiramente relatava fofocas como um fato concreto, e não podemos ter certeza de como o fato realmente tinha ocorrido antes de chegar a seus ouvidos ansiosos.

Ana tinha temperamento, mas também tinha cérebro. Ela sabia que cada palavra que falava em voz alta seria repetida nas cortes estrangeiras. É difícil saber o que ela realmente disse e quais palavras foram colocadas em sua boca pela fofoca, já que a maioria das coisas que sabemos sobre Ana vêm dos relatos de seus inimigos. Através de sua cartas, sabemos que Catarina sentia que seu casamento poderia ser salvo se Ana fosse embora da corte. Apesar de suas falhas, Catarina realmente amava Henrique, e pode ter sido a única de suas esposas que realmente o amou. Mesmo no final de sua vida, foi registrado que ela orava todas as noites para que ele voltasse para ela. Como muitas mulheres que têm um marido errante, Catarina não parecia culpar Henrique: foi Ana quem o levara ao erro. A única filha de Catarina e Henrique também pensava assim. Apesar disso, Catarina supostamente disse a suas damas uma vez que não deveriam falar mal de Ana, mas sim orar por ela.

As coisas continuaram assim até que em 1531 Henrique finalmente baniu Catarina da corte. Obviamente, ele não emitiu publicamente uma ordem de que Catarina deveria manter distância: ele simplesmente fez as malas e mudou-se para outro palácio sem a informar. Depois, mandou-lhe uma mensgaem dizendo que ela deveria partir para uma de suas propriedades rurais. Catarina foi sua esposa por vinte anos, mas ele não disse uma palavra de despedida. Apesar do seu exílio, Catarina nunca se rendeu. Tanto ela quanto a princesa suportaram um tratamento cada vez mais difícil, mas elas não seriam intimidades. Ela se recusou a aceitar o título de “Princesa Viúva” e recusou qualquer funcionário que não a chamasse de “Rainha Catarina”. Quando mensageiros chegavam com uma ordem escrita de que ela não podia mais “fingir” ser a Rainha, ela escreveu as palavras “Princesa Viúva” com tanta violência que o papel rasgou.

Mesmo depois que ela recebeu a notícia de que Henrique havia se casado com Ana, a batalha continuou na mente de Catarina. Apesar de que apelar ao Papa era agora proibido por lei, Catarina enviou cartas a sua família na Europa e ao Papa. Ela temia que Ana Bolena a envenenasse, e começou a cozinhar suas refeições em sua lareira em seus aposentos. Chapuys relata que Ana e Henrique usaram amarelo no dia em que ouviram que Catarina morrera – o rei ficara encantado e gritou que afora a Inglaterra estava livre de qualquer ameaça de guerra. Ele e Ana desfilaram Elizabeth parera os cortesões, ocorreram festas e justas.

Anteriormente, Ana tinha descoberto que Catarina havia infiltrado espiões junto de seus criados. Logo, Ana ficou em um estado inquietante de paranóia, achando que Catarina seria capaz de iniciar uma guerra civil e estrangeira e mandar tanto Ana quanto sua filha, Elizabeth, para o cadafalso.

Entretanto, Signeur de Dinteville informou que Ana, ao ouvir que Catarina tinha morrido, se trancou em seu oratório privado e chorou. Dinteville não ofereceu nenhuma explicação para a reação intrigante de Ana: teria ela se sentido culpada pela morte solitária de Catarina? Ou teria sido alívio porque sua longa batalha finalmente tinha acabado? Ou talvez fosse o estranho sentimento de saber que a mulher que ela tinha tanto temido, admirado, respeitado e odiado finalmente tinha morrido? Ou talvez fossem os hormônios, pois sabemos que nessa época a rainha estava com quatorze semanas de gravidez? Quem sabe? O que é completamente inacreditável é o registro espanhol de que Ana teria proclamado com alegria: “Agora eu sou de fato uma rainha!”. Teria sido impensável para Ana, que tinha sido coroada quase três anos antes em Westminster, sugerir publicamente que a morte de Catarina de alguma forma a fazia rainha. Ana sempre seguiu à risca a idéia oficial do governo de que Catarina, como viúva de Artur Tudor, era Princesa Viúva de Gales desde 1502; ou seja, ela nunca fora legalmente rainha da Inglaterra.

De qualquer forma, Chapuys relatou que Ana, apesar de alegre pela notícia da morte de Catarina, chorava frequentemente, pois tinha medo de que fizessem com ela o mesmo que havia sido feito com Catarina.

Bibliografia:
BRYAN, Lissa. “Katharine of Aragon and Anne Boleyn: The Court of Two Queens“. Acesso em 28 de Agosto de 2014.
RUSSEL, Gareth. “January 7th, 1536: The Death of Katherine of Aragon“. Acesso em 28 de Agosto de 2014.
Griselda (folklore). Acesso em 28 de Agosto de 2014.
FRASER, Antonia. As Seis Mulheres de Henrique VIII. Tradução de Luiz Carlos Do Nascimento E Silva. Rio de Janeiro: BestBolso, 2010.

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6 comentários sobre “Catarina de Aragão e Ana Bolena: uma corte de duas rainhas

    • Eu também, ela foi uma mulher fascinante que foi publicamente humilhada, não apenas por ser trocada por outra, mais jovem e por ser responsabilizada em não ter tido um filho que sobrevivesse, mas também por uma plebeia. E difícil imaginar o que significou pra ela, filha de poderosos reis, crente no seu direito divino de governar, amando o marido ter sido trocada. Mas foi uma grande mulher.

  1. simm! A única coisa que me incomoda nela é esse fato dela ser muito crente no que acreditava. Foi humilhada de tantas formas, e sempre manteve-se fiel ao Rei.

    • Mas era a realidade da mulher na época, questionar isso era tornar-se rebelde e muito provavelmente sofrer graves consequências.

  2. Ela seguia o que está na Bíblia ao contrário de Ana Bolena QUE destruiu um casamento e ainda casou grávida.

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