A Guerra das Rosas em ‘Alice no País das Maravilhas’

Alice

Acredito que hoje em dia são poucos aqueles que acreditam que Alice no País das Maravilhas é apenas um conto infantil – há nele e no contro ‘Através do Espelho’ muito mais história, filosofia, espiritualiadade e metáforas do que podemos imaginar. Aqui, irei explorar as possíveis conexões entre as duas histórias de Lewis Caroll – Alice no País das Maravilhas e Alice Através do Espelho – e a Guerra das Rosas, que terminou com a ascenção de Henrique VII, o primeiro Rei Tudor, no trono da Inglaterra.

Obviamente, o Rei e a Rainha são uma paródia direta da monarquia. Seus seguidores fazem os atos mais parvos e degradantes porque são incutidos com medo. O comportamento do Rei e da Rainha é um exemplo simples dos efeitos histéricos que o medo pode ter na sociedade – é uma forma predominante de controle social, embora, como afirma Alice, eles sejam apenas ‘um baralho de cartas’. A monarquia de papelão e seus seguidores têm uma coisa em comum, no entanto: eles todos pertencem ao mesmo baralho de cartas, ao mesmo grupo. E apesar deles não serem diferentes do seus súditos, eles abusam do seu poder.

Em ‘Através do Espelho’, Alice encontra uma cena em que os jardineiros reais estão pintando rosas brancas de vermelho. Alice achou aquilo muito curioso, e pergunta por que estão pintando as rosas, e um deles responde:

rosas brancas e vermelhas

“Ora, o fato, Senhorita, é que aqui devia ter sido plantada uma roseira de rosas vermelhas, e plantamos uma de rosas brancas por engano; se a Rainha descobrir, todos nós teremos nossas cabeças cortadas. Assim, senhorita, estamos nos virando como podemos, antes que ela chegue, para…”

E onde na História que vemos rosas brancas e vermelhas em desacordo, com homens sendo ameaçados de decapitação ao favorecer uma cor ao invés da outra? A resposta é na Guerra das Rosas, de forma que podemos imaginar que os livros de ‘Alice’ são, em algum momentos, uma sátira à Guerra das Rosas. Com essa hipótese, os personagens caem facilmente em seu lugar histórico.

Uma vez que o Rei e a Rainha de Copas são vermelhos, é provável que eles sejam da Casa de Lancaster – isso explica porque eles pintaram as rosas de vermelho, e a Rainha ficou enfurecida quando viu que elas eram brancas – símbolo dos York, a Casa rival.  A Rainha de Copas pode ser a personagem histórica Lancaster Rainha Margaret, esposa de Henrique VI. O Rei também pode ser Henrique VI – nos últimos capítulos da história, o Rei deCopas parece estar insano, fazendo observações estranhas e perguntas esquisitas.

Inclusive o enunciado favorito da Rainha, “Fora com sua cabeça!”, pode ter sido inspirado em um acontecimento histórico: quando o Duque cativo de York foi coroado, a Rainha Margaret comandou “Fora com sua coroa, e com a coroa, sua cabeça”, completando “Fora com sua cabeça e coloque-a sobre os portões de York”.

Outro exemplo que Carrol se inspirou nesse período é a Duquesa do País das Maravilhas, que pode ser identificada com Eleanor, Duquesa de Gloucester, inimiga da Rainha Margaret. Shakespeare nos diz que a Rainha bateu em seus ouvidos, no que a Duquesa prometeu ‘Ela não irá atingir a Dama Ealanor sem vingança’. O mesmo acontece no País das Maravilhas. Na cena do croquete, Alice pergunta sobre a Duquesa, no qual o Coelho Branco responde que ela foi condenada à morte porque “Deu um sopapo nas orelhas da Rainha…”. A Duquesa tem pouca relevância para a Guerra das Rosas, uma vez que aconteceram pouco antes das guerras começarem, mas mesmo assim é um fato interessante.

boullanAo mesmo tempo, também existem teorias de que A Rainha Vermelha poderia ter sido inspirada em Elizabeth I. Esse pelo menos foi o caso da adaptação em video-game do filme, em que a Rainha tem um comportamento semelhante à Rainha Maria I e usa roupas do reinado de Elizabeth I.  Também no filme de 2010, dirigido por Tim Burton, a figurinista Colleen Atwood se inspirou em modelos elisabetanos para criar o figurino da Rainha, embora o ruff elisabetano e parte do penteado tenham se perdido na adaptação do filme.

Também existem conexõe entre a Rainha de Copas e Elizabeth de York. Acredita-se até mesmo que o desenho da Rainha de Copas tenha sido inspirado no retrato de Elizabeth – embora nas ilustrações originais de John Tenniel para o livro ‘Alice no País das Maravilhas’ a Rainha de Copas se pareça com a Rainha Vitória em estatura e aparência – nos desenho de cartas a roupa da Rainha de Copas é extremamente parecido com as roupas Tudor na época de Elizabeth de York. De fato, na animação de 1951 da Disney, a roupa da Rainha de Copas tem um estilo muito similar ao Tudor, emboa do início do reinado de Henrique VIII.

Alguns criticam a identificação da Duquesa do País das Maravilhas com a Duquesa Eleanor porque ela, ao contrário da personagem fictícia, não teve filhos. Mas considerando a atitude da Duquesa quanto à criança, é possível que ela não fosse filho dela – mas sim alguma criança contra a qual ela tinha algum rancor, e muito possivelmente o Duque de Gloucester, o futuro Ricardo III. Isso pode ser confirmado pela sua transformação em porco – um paralelo da adoção de Ricardo de um javali como emblema.

Alice e o bebe porco

“A propósito, o que foi feito do bebê?” quis saber o Gato. “Ia me esquecendo de perguntar.”
“Virou um porco”, Alice respondeu tranquilamente, como se o Gato tivesse voltado de uma maneira natural.
“Eu achava que iria virar”, disse o Gato, e desapareceu de novo.

O interesse do Gato de Cheshire no bem-estar do bebê é compreensível quando nos lembramos que nas rimas políticas do período, o gato pode ser Sir William Catesby, seguidor de Ricardo. Catesby se tornou o presidente da Câmara dos Comuns, e o aparecimento e desaparecimento do gato pode se referir à assembléias e prorrogações do Parlamento.

Uma vez que Ricardo III é representado como uma criança, o Rei Branco pode ser seu irmão mais velho, Eduardo IV. Dessa forma, os mensageiros do rei, o Chapeleiro Maluco e a Lebre de Março são, naturalmente, da facção da Rosa Branca de York. O próprio Chapeleiro Maluco pode ser identificado como Warwick, o Fazedor de Reis, embora a Lebre de Março pode simbolizar apenas a reivindicação Yorkista ao trono, que se baseava na descendência de Mortimer, o Duque de Março, herdeiro de Ricardo II.

As vitórias e derrotas entre os Lancaster (vermelhos) e os York (brancos) são indicadas pela batalha entre os cavaleiros vermelhos e brancos: ““Uma Regra parece ser que, se um Cavaleiro atinge o outro, ele o derruba do seu cavalo, e, se erra o golpe, ele mesmo cai…”

Uma referência direta à Alice aos Tudor mas que é discutível é quando Alice exclama

“Acho que jamais aconteceu antes de alguém ter de tomar conta de duas Rainhas adormecidas ao mesmo
tempo! Não, não em toda a História da Inglaterra… não teria sido possível, porque nunca houve mais de uma Rainha ao mesmo tempo.”

Pode ser uma referência ao casamento de Henrique VIII e Catarina de Aragão, enquanto o rei estava enamorado de Ana Bolena, que era tratada como Rainha, menos no nome.

Bibliografia:
GILES, C. W. The truth about ‘Alice’. Acesso em 27 de Julho de 2015.
MUSCAT, Abigail. Alice in Wonderland Philosophy – Mookychick. Acesso em 27 de Julho de 2015.
WARNER, Scott. Wars of the Roses Symbolism in Tim Burton’s “Alice in Wonderland”. Acesso em 27 de Julho de 2015.

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