Os reis Tudor e a procura pelo Brasil

Mapa do Brasil do século XVI

Eles dizem que a terra é excelente e o clima temperado, e acreditam que pau-brasil e sedas por lá cresçam. Eles afirmam que o mar é coberto de peixes e que são pescados não apenas com redes mas com baldes (…). E os ingleses disseram que seus companheiros pegaram tanto peixe que este reino não precisará mais da Islândia, país de onde vêm uma grande quantidade de peixe chamado bacalhau.

Relato de Raimondo de Soncino, embaixador do Duque de Milão em Londres, 18 de Dezembro de 1497.

As especiarias eram um dos maiores objetivos das viagens marinhas, e os portugueses não eram os únicos a se interessar por elas. Mercadores ingleses e italianos recebiam as notícia avidamente. Em Bristol, na Inglaterra, as façanhas de Colombo entusiasmaram o genovês Giovanni Cabot (ou Caboto), e repercutiram na corte da Inglaterra como um verdadeiro milagre. Henrique VII deu a Cabot cartas patentes que lhe conferiam

“plenos e livres poderes para içar velas em direção a todas as partes, países e mares do Leste, do Oeste e do Norte, sob nossa bandeira […] a fim de procurar, descobrir e encontrar ilhas, terras, regiões ou províncias de pagãos e de infiéis […] que até aquele momento permaneciam desconhecidas de todos os cristãos”.

Cabot foi para Bristol fazer os preparativos para sua viagem. Bristol era o segundo maior porto martítmo da Inglaterra, e a década de 1480 e adiante, várias expedições tinham sido enviadas para procurar Hy-Brasil, uma ilha que ficava “em algum lugar do Oceano Atlântico”. O porto de Bristol parece ter ficado particularmente interessado na ilha, pois parece que alguns homens de lá já tinham visitado a ilha anteriormente.

Pouco se sabe da primeira viagem de Cabot, que aconteceu por volta de 1496 – aparentemente, ele foi com um navio, a tripulação estava confusa, com falta de suprimentos e mal tempo, e eles tiveram que voltar. Na segunda viagem, Cabot partiu com um pequeno navio e foi para algum lugar na costa da América do Norte.

Em 1597, o explorador foi premiado com uma pensão de £20 por ano (um artesão ganhava £5 por ano) e em fevereiro de 1498,  o rei Henrique VII emitiu uma Carta Patente para financiar outra viagem de Cabot ao suposto “Oriente”, desta vez como o comandante de uma frota de seis barcos. Em maio, Cabot partiu de Bristol. Quase nada sobre essa expedição sobreviveu. Um dos barcos retornou pouco depois da partida e outros cinco se perderam pelo Atlântico. Nunca mais se teve notícia do italiano que deu o pontapé inicial na colonização britânica na América do Norte.

Entretanto, duas cartas muito interessante fazem o registro das intenções do rei da Inglaterra e classificam a viagem como mais uma busca a Hy Brasil. Provavelmente em julho de 1498, o embaixador espanhol em Londres, Ruy Gonzales de Puebla, escreveu aos reis católicos da Espanha, Fernando e Isabel:

O rei da Inglaterra enviou cinco navios armados com um genovês como Colombo para procurar pela Ilha do Brasil e outras próximas dela, com provisões para um ano. Fala-se que eles retornarão em setembro. Vendo a rota que eles tomaram para alcançá-la, percebi que ela pertence a Vossa Alteza. O rei falou comigo algumas vezes sobre isso. Ele espera adquirir grande vantagem disso.

Uma outra carta fora escrita pelo ministro espanhol também em Londres, Pedro de Ayala, em 25 de julho de 1498, abordando o mesmo assunto. No entanto, ele dá mais algumas informações, afirmando que “o rei determinou enviar uma expedição por estar convencido de que [a ilha] foi encontrada”, e que “Bristol tem enviado anualmente, nos últimos sete anos, uma frota de dois, três ou quatro caravelas para procurar pela Ilha do Brasil e Sete Cidades”. Assim, podemos ver a dimensão pela busca por Hy Brasil e fica difícil de acreditar que tanto investimento tivesse sido gasto baseado, exclusivamente, no mito.

Já no reinado de Henrique VIII, entre 1530 e 1532,  William Hawkins, de Plymouth, realizou diversas viagens à África e ao Brasil. Estas proporcionaram a Henrique VIII algo que seu pai provavelmente não teve: a oportunidade de conhecer um índio brasileiro. Em 1531, Hawkins  levou um cacique do Brasil para se encontrar com o rei em Whitehall. Os cortesões de Henrique VIII ficaram muito admirados com os ossos inseridos em orifícios nas bochechas e nos lábios do chefe como sinais de bravura.

Um homem chamado Martin Cockeram, também de Plymouth, foi deixado no Brasil como refém, penhor de garantia da volta do chefe.  Depois de um ano, Hawkind levou o cacique de volta ao Brasil, mas “o dito rei selvagem morreu em alto-mar, o que despertou o temor de que se perderia a vida de Martin Cockeram. No entanto os selvagens, sendo amplamente persuadidos dos honestos tratos de nossos homens com seu príncipe, devolveram o dito refém, sem lhe causar dano algum ou a qualquer homem da companhia”. Nesse relato, não há nenhuma menção ao local onde Hawkins teria estabelecido contato com os nativos nem aos produtos existentes no “país do Brasil” que teriam interesse para os ingleses. Há ênfase, apenas, no fato de que o “bom comportamento” do chefe da expedição resultou na boa vontade dos nativos e na possibilidade de estabelecer relações de amizade com eles.

Na década de 1540, um grupo de mercadores de Southampton, que se dedicava ao lucratico, vantajoso e conveniente tráfico do Brasil,  teria feito uma viagem à Bahia em 1542, e construído um forte nas proximidades da baía de Todos os Santos, antes mesmo que a Coroa de Portugal criasse o Governo Geral em 1549. Outras viagens inglesas ao Brasil incluíram uma realizada por Robert Reniger e Thomas Borey, de Southampton, em 1540, e outra de um certo Pudsey, de Southampton, em 1542.

É conhecido que Henrique VIII era muito competitivo com Francisco I da França, e pode-se pensar que o encontro do rei inglês com o índio brasileiro pode ter se derivado, entre outros motivos, pela competição. Já em 1509, no ano da ascensão de Henrique, sete índios do Brasil tinham sido exibidos na cidade de Rouen; adornados com penas, usavam tangas e levavam arcos, flechas e canoas feitas de casca de árvore. Um francês notou, aborrecido, que eles eram desprovidos do que havia de mais fundamental na cultura francesa: “Falam com os lábios e não têm nenhuma religião. Desconhecem o pão, o vinho e o dinheiro”.

Bibliografia:
LOPEZ, Adriana. De cães a lobos-do-mar: súditos ingleses no Brasil. São Paulo: Editora Senac, 2007.
HEMMING, John. Ouro vermelho: a conquista dos índios brasileiros. Tradução de Carlos Eugênio Marcondes de Moura. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 2007.
BERNAND, Carmen. História do Novo Mundo: Da Descoberta à Conquista, uma experiência européia, 1492 – 1550. Tradução de Cristina Muracheo. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 2001.
John Cabot

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Um comentário sobre “Os reis Tudor e a procura pelo Brasil

  1. Tudo muito interessante, somente achei estranho o comentário sobre os peixes e a Islândia, pois, como não havia refrigeração, qualquer peixe levado à Inglaterra das nossas costas ia chegar em condições muito duvidosas para consumo.

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