A história de Maria I dentro dos “P”s

Henrique VIII no Coram Rege Roll de 1517.Quando Eduardo VI morreu em 1553, não havia herdeiros masculinos diretos e os únicos pretendentes válidos para o trono eram mulheres. Maria I subiu ao trono, de acordo com a vontade de seu pai, Henrique VIII. Isso foi um problema para os iluminadores reais, porque eles tinham que retratar a primeira rainha reinante da Inglaterra no grande P inicial da página do Coram Rege Rolls. O Coram Rege Rolls era o registro do King’s Bench (ou Queen’s Bench) – um tribunal de direito comum no sistema legal inglês, criado no século 12. A rainha ou rei reinante era retratado na letra “P” da palavra “Placita”, a primeira palavra do registro. O conteúdo da Coram Rege geralmente era as terras sobre os quais o monarca tinha (ou considerava que tinha) jurisdição. Geralmente, o monarca é mostrado vestindo vestes cerimonais em um trono. Em suas mãos poderiam estar uma espada ou um orbe.

No primeiro “P” de  Maria, em 1553 há uma narrativa visual inacabada que descreve a ascensão de Maria I ao trono. Dentro da letra, Maria é mostrada como sendo levada pelos anjos para o seu lugar de direito como rainha. Á sua direita, seus inimigos são mostrados –Maria Tudor no Coram Rege de 1553 provavelmente uma alusão a John Dudley e seus seguidores, que tentaram colocar Lady Jane Grey no trono.

Maria está vestida com vestes cerimoniais. Anjos acompanham sua coroação, presumivelmente segurando faixas com elogios a nova rainha. O Espírito Santo, na forma de uma pomba, simboliza que Maria é rainha por direito divino. Esta “P” é pensado ter sido obra de Levina Teerlinc, uma das poucas pintoras mulheres da corte inglesa.

A imagem de Maria como a primeira rainha Virgem da Inglaterra é simbolizada pelo seu cabelo louro fluindo pelas costas, declarando, assim, seu estado de solteira. Os primeiros “P”s do reinado de Maria são muitas vezes coloridos e todos fazem a mesma declaração visual sobre sua virgindade.

Um outro “P”, feito em 1554, celebra o casamento de Maria e Filipe II da Espanha, que aconteceu em 25 de julho de 1554. Maria 1554O casal real é mostrado sentado lado a lado em tronos e mabos usam coroas. A rainha ainda é retratada como uma virgem, com os cabelos soltos. As palavras tradicionais são douradas e toda a página brilha. Filipe está sentado onde a esposa consorte geralmente senta, apesar dele segurar a espada cerimonial que Maria segurava em seu “P” de adesão ao trono e os outros subsquentes. A maneira como eles estão sentados claramente reflete o acordo no tratado de casamento de que, se Maria morrer, Filipe não poderia reivindicar o trono inglês através de seu casamento com ela.

Era comum as mulheres que iriam se casar serem retratadas com os cabelos soltos: presumivelmente o estado de virgindade da noiva era considerado essencial para garantir  que o primeiro filho fosse de seu marido real, e se essa criança fosse um filho, a dinastia seria assegurada.

Existe um outro “P”, feito em novembro de 1558, que deixa muitas perguntas no ar. Muitos acadêmicos acreditam que a rainha retratada seja na verdade Elizabeth I, sendo esse na verdade o seu primeiro “P”. Maria ou Elizabeth em um "P" de 1558Mas é há várias questões que colocam a identidade da rainha em cheque. Pouco tempo antes, Maria posou para um “P” com uma roupa e um capelo muito parecido com esses que são retratados – de cor rosa e com um manto de arminho, em ambos os casos a rainha usa um capelo preto e um cinto de corda. Maria morreu em 17 de Novembro de 1558, no final da escrita do registro, que geralmente ia de Outubro a Dezembro.

Sabemos que todos esses retratos mostram um monarca estereotipado como representante de Deus na terra e o fornecedor de sua misericórdia e justiça. Mas há várias questões levantadas aqui: o desenho de Maria I foi feito antes da escrita do registro, a coroa está flutuando acima da cabeça dela, e ela estava doente e morreu nesta época.

Maria e Filipe em um "P"Será que o iluminador decidiu retratar Maria no trono sozinha, porque Filipe tinha deixado a Inglaterra há um tempo considerável e ela foi deixada sozinha no governo? Estaria o artista protegendo uma aposta de que Maria poderia morrer antes do final da escrita do registro, e a coroa flutuante reflete isso? Será que a morte da rainha era tão clara para as pessoas que o autor do desenho decidiu retratar uma mulher sozinha, pois sabia que Elizabeth seria a próxima rainha e assim ele não precisaria perder seu tempo fazendo outro desenho? As palavras desse registro afirmam que Maria morreu e que Elizabeth a sucedeu, mas será que as palavras triunfam sobre a imagem?

Traduzido do artigo “The Queen’s image
in a P tells a story
” escrito por Malanie V. Taylor.

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